Uma cidade, seus planos, contradições e o olhar de Mariana Marques Auler

Por Adriana Sydor

Curitiba construiu, ao longo de décadas, uma relação particular com a ideia de planejamento. Planos diretores, intervenções urbanas e a própria imagem de cidade-modelo passaram a integrar não apenas sua história institucional, mas também a maneira como a cidade costuma narrar a si mesma. É justamente esse percurso que Mariana Marques Auler toma como objeto em Um plano para Curitiba: introdução à política urbana local.

Resultado de uma pesquisa de mestrado posteriormente revista e ampliada, o livro propõe uma porta de entrada para compreender a política urbana curitibana. Mariana acompanha os ciclos organizados em torno dos Planos Diretores de 1966, 2004 e 2015, mas não se restringe ao que ficou estabelecido nas leis. Interessa-lhe observar o que esses planos mobilizaram, o que efetivamente chegou ao território e como diferentes gestões reinterpretaram, atualizaram ou esvaziaram suas diretrizes.

 Nesse percurso, a autora coloca em relação projeto político, tradição técnica, participação social, mercado, financiamento e instituições, examinando também a construção e as contradições da imagem de Curitiba como referência em planejamento urbano.  Um plano para Curitiba foi lançado dia 19 de setembro, às 10h, na Livraria Telaranha, com sessão de autógrafos da autora. A cobertura fotográfica do lançamento é de Leo Andreiko.

Fotos do Lançamento

Ficha bibliográfica

Um plano para Curitiba: introdução à política urbana local, de Mariana Marques Auler, com 200 páginas. Coordenação editorial: Sálvio Nienkötter e Bruno Meirinho; editor-executivo: Claudecir de Oliveira Rocha, editor-assistente: José Ramos Júnior; capa: Leo Marino; arte da Capa: Luísa Manske e Yuri Campagnaro; design editorial: Carlos Garcia Fernandes; produção: Joehverson Guslem Jacob; preparação de originais e revisão: a autora. Curitiba: Kotter editorial, 2026.

Entrevista

Sempre escrevi bastante como parte do meu processo de pensamento, então fui acumulando muitos textos, diários e reflexões ao longo dos anos. Em 2023/2024, no mestrado em Comunicação e Cultura na UFRJ, minha orientadora, Katia Maciel, me estimulou a refletir mais sobre os processos de realização do filme, principalmente sobre essa questão da listagem e das listas, que era um conceito que eu vinha trabalhando naquele momento mas ainda de maneira inicial.

Quando estávamos fechando o filme, eu já sabia que queria fazer um livro, mas imaginava uma publicação modesta, somente com fotos, porque foram muitos anos viajando para a região e registrando a ilha de diversas formas. A gente tinha muito material de imagem coletado. Com a finalização da dissertação, percebi que eu tinha vários textos interessantes para publicar além das fotos.

Na hora de escolher os textos que iriam para o livro, fiz uma grande revisão no material. Aproveitei a oportunidade para me aprofundar em uma pesquisa em arquivos de jornais antigos para escrever um pouco mais sobre Superagüi. Entendi que ali eu podia explorar até uma curiosidade pessoal: ir atrás de assuntos do passado, como os barcos naufragados, os búfalos e a mineração na Ilha de Superagüi, coisas que eu ouvia falar muito durante as pesquisas com as pessoas da ilha, mas só tinha rascunhos sobre isso.

O livro tem essa possibilidade de uma narrativa que você lê de forma não ordenada, não sequenciada. Podemos apenas abrir um livro em uma página aleatória e disso tirar alguma coisa. Dá para separar assuntos por tópicos, por blocos. Isso sempre me incomodou no fazer cinema: a ideia de que só se pode ver um filme do início ao fim. Numa sala de cinema não dá pra ver o começo, depois o fim, depois o meio. O desejo de expandir esse processo é antigo.

Por isso a vontade de expandir para o livro, criar um trabalho que você pode ler um pedaço hoje, outro amanhã, sem ordem, sem compromisso. A própria disposição das imagens traça uma narrativa mais visual e menos de contar uma história lógica. Acho que o livro propõe esse desafio narrativo e, nesse caso, a lista é um recurso que cai bem para um livro em tópicos.

A lista realmente me encanta como processo, porque tem uma qualidade generosa: é um elemento corriqueiro, banal na vida de todo mundo. A lista de mercado, de tarefas, de resoluções para o Ano Novo. Ao mesmo tempo que é popular, é também sofisticada, sintética, muito antiga: as tabelas de preço, os mandamentos em pedra, as leis, sempre foram listagens. Diferente de um roteiro, que é uma peça técnica, pensar na construção de um filme a partir de uma lista propõe à equipe algo mais próximo.

Ela tem essa propriedade de ser comum a todos, e também de infinitude: você sempre pode adicionar mais um item, sempre falta alguma coisa. A lista de desejos que trouxemos, por exemplo, impulsionou as pessoas a pensar em outros desejos a acrescentar. Pra mim é um recurso muito simples e versátil.

Sim. Para quem viu o filme e lê o livro, ele literalmente funciona como uma extensão, seguindo uma mesma lógica fragmentada dos elementos, no sentido de que não busca tanto explicar, embora conte algumas curiosidades e um pouco desse diário de produção.

Pensei também no livro como uma forma de ampliar algumas reflexões filosóficas que estão no entorno do filme: a ideia do dinheiro, de fazer um filme que tenha o caminhar como principal modal, a reflexão sobre a paisagem atlântica no inverno do Sul, da construção das pontes e dos trapiches, da pesca e da lentidão da espera. São conceitos filosóficos que fui entendendo ao longo do tempo, não necessariamente questões práticas e técnicas da construção de um filme, mas também são o filme. Achei mais honesto artisticamente, enquanto realizador lançando um primeiro longa-metragem, propor uma extensão das conversas que o filme me proporcionou ao invés de apenas mostrar curiosidades e imagens de bastidores.

Acho que a principal contribuição foi uma “pequena história da ilha”. Não sou historiador, mas me senti instigado a reunir, numa colagem de repertórios, fotografias e coletas pessoais, histórias que escutei e outras que encontrei em jornais antigos, esse bloco de texto onde reúno pequenas histórias sobre Superagüi.

Em algum momento eu queria poder contar todas as histórias da ilha, mas seria impossível. Ficou o desejo de que o livro fosse várias pequenas janelas abrindo outras possibilidades. Acho que a ideia da lista também pode ser expandida no livro, levada a um grau mais elevado: cada tópico remetendo a uma possibilidade maior.

No início, meu desejo por Superagüi era turístico, fui visitar a ilha como turista num Ano Novo. Depois voltei diversas vezes em outras épocas do ano, e a vontade de filmar foi crescendo, junto com a dificuldade de fazer um filme numa ilha e de conseguir dinheiro para mantê-lo de pé por vários anos. Passei por muitas fases para conseguir levantar o filme, e isso foi me marcando, inclusive por causa da pandemia, que atravessou parte do processo de trabalho.

O filme se dá nos encontros e na amizade. Levou tantos anos para ser feito que foi se mantendo nas trocas com pessoas com quem a gente tinha afinidade, carinho, com quem queria saber como estava e vice-versa.

A alegria de um projeto a longo prazo é essa: você para outras coisas pra voltar a algo que já gostaria de ter finalizado. Mas é exatamente com esse tempo estendido que você vai alcançando camadas mais verdadeiras, mais honestas, mais respeitosas. Esse aprendizado foi muito marcante pra mim, um trabalho onde eu realmente estava colocando minhas questões à prova. Acho que por isso boa parte das questões do livro são de ordem filosófica.

Boa pergunta.  Superagüi é povoada por muitas pessoas diferentes, com histórias diferentes uma da outra, não é uma comunidade uniforme. Em vários momentos acabo me referindo às pessoas da ilha como personagens, isso acontece um pouco porque nossa relação se deu através do cinema. Entendi em algum momento que, se eu fosse só documentar a realidade das pessoas da ilha, elas mesmas não teriam tanto interesse nesse tipo de abordagem, que lembra mais a televisão, ou de um documentário mais tradicional. Ninguém mais queria ser filmado em seu cotidiano por uma equipe que vinha da cidade em um dia e ia embora do outro, como já havia acontecido tantas vezes.

Nossa relação surge a partir desta questão, por isso ficamos amigos antes de filmar. Quando eu sugeri uma fabulação sobre a busca de ouro enterrado na ilha — baseado nas lendas que as próprias pessoas me contavam — as pessoas topavam entrar no filme. A ideia de interpretar e recriar uma realidade, foi isso que nos uniu. Então todo mundo que participa do filme também tem uma busca artística. Estão interpretando a si mesmos, mas ao mesmo tempo não, por isso esse caráter de personagem.

A gente fez muito material — imagens, fotografias, filmagens que ficaram de fora. Pessoas muito queridas que a gente filmou e que acabaram encontrando espaço no livro, como o Seu Carlinhos e a Dona Rosa. Acho inevitável não pensar que a montagem é o elemento fundador dos projetos.

Pra mim é o mais importante aqui, porque a lista é exatamente uma forma de montar: quando reduzo os elementos, as palavras, em sínteses que cabem num item da lista, posso facilmente reordenar tudo, trazendo pra quem vai ler ou ver o filme apenas aquilo que entendo como a essência.

Entendo que essa é a tarefa da montagem e da criação: trazer o que está mais consistente, mais interessante. O encadeamento das coisas também é muito importante, memórias isoladas, fotografias isoladas, não fazem tanto sentido; fazem sentido quando cruzadas, conectadas. A montagem é talvez o elemento mais importante de todos nos trabalhos, tanto no livro quanto no filme, é na montagem que eu faço a minha criação.

Já que falamos de montagem, penso no Aby Warburg, historiador e filósofo que pensou a história da arte, ele organizava os livros da biblioteca dele pela “política de boa vizinhança”, não por ordem alfabética nem por gênero, dispondo os livros de sua biblioteca por aproximações diversas e, às vezes, misteriosas.

Quando organizei os materiais, me baseei muito nessa ideia, de maneira natural: as coisas se conectando por essa política da boa vizinhança. Os temas se conectam por lugares afetivos, por uma cor, por uma linha de raciocínio, pela pesca — que é o tempo, a lentidão — e os tópicos vão se desmembrando. Falar do farol é falar do Martelo, o personagem principal. Acabamos falando de várias coisas ali.

As coisas encontram lugar no livro quando encontram vizinhança, semelhança, conexão, mesmo que ela não seja inteiramente compreensível. Quando não se encaixam naturalmente, vai caindo. É meio intuitivo, não consigo explicar direito, porque às vezes uma coisa desorganizada, ou não muito polida, entra e se encaixa, e no todo ela encontra espaço. Muita coisa boa ficou de fora.

Acho que as listas, quando aparecem, são essa quebra, não aparecem apenas no início do livro, elas vão se misturando, cambaleando por todo o projeto.

Sempre escrevi muitos diários e anotações, como um método de organizar pra mim mesmo, não pensando em outras pessoas. Não acho que mudei a forma de encarar estes textos, porque continuo escrevendo as coisas sem uma ordem específica, empilhando papéis, e os projetos vão ganhando volume, sem necessariamente uma direção certa. A maior parte das coisas escritas fica como forma de conduzir o pensamento.

Não sei se vou escrever outro livro sobre o processos, não é uma fórmula ou uma obrigatoriedade. Acho legal livros sobre roteiros de filmes, mas esse filme não tinha roteiro, então o livro saiu assim. Tenho ideias para outras publicações, mas elas não vão por esse caminho de pegar uma anotação pessoal e transformar em livro.

Mesmo sem formação de escritor, a escrita me parece o melhor lugar pra gente se aprimorar hoje em dia. É um elemento de reconexão consigo mesmo. Então, sempre que consigo escrever mais ou melhor pra mim mesmo, fico feliz. Se um dia isso fizer sentido em conexão com as vizinhanças, talvez saia outros livros no meio das anotações. Mas acho que cada projeto pede uma coisa.

Agradeço as perguntas! Espero ter trazido algumas coisas legais. Obrigado.

Resenha

As muitas Curitibas de Mariana Marques Auler

Há duas palavras no título de Um plano para Curitiba: introdução à política urbana local que ajudam a situar o leitor diante das quase duzentas páginas que virão. A primeira é “plano”: são os Planos Diretores que fornecem o eixo para Mariana Marques Auler percorrer diferentes momentos da política urbana curitibana. A segunda é “introdução”. O livro foi pensado também para quem não domina o vocabulário do urbanismo e do direito urbanístico e, por isso, antes de chegar propriamente a Curitiba, constrói o repertório necessário para compreendê-la.

A obra deriva da pesquisa de mestrado defendida pela autora em 2017, posteriormente revista e ampliada. Sua pergunta não se limita ao conteúdo dos planos diretores: interessa saber o que acontece entre aquilo que uma cidade projeta no papel e aquilo que efetivamente produz em seu território. Entram nessa distância as instituições, as decisões políticas, o mercado, o financiamento, a participação social e as condições concretas de implementação. O plano, assim, funciona menos como documento isolado do que como ponto a partir do qual é possível observar cada ciclo da cidade.

O percurso está dividido em duas partes. Na primeira, Mariana amplia o enquadramento e acompanha a formação da política urbana brasileira: a modernização e o planejamento tecnocrático, a emergência da reforma urbana e do direito à cidade, a influência do planejamento estratégico e das chamadas cidades-modelo, além da progressiva incorporação da participação social à gestão urbana. Um segundo movimento apresenta o arcabouço jurídico e institucional que vai da Constituição de 1988 e do Estatuto da Cidade às políticas de habitação, regularização fundiária e governança metropolitana. A exposição combina história, legislação e discussão conceitual sem perder de vista uma questão que reaparecerá adiante: a dificuldade de transformar normas e instrumentos em efeitos concretos sobre o território.

É na segunda parte que Curitiba ocupa o centro da narrativa. Três Planos Diretores — 1966, 2004 e 2015 — organizam os ciclos analisados. O primeiro acompanha a consolidação do IPPUC, o sistema trinário de mobilidade e a formação da imagem da “cidade-modelo”, atravessando as décadas de 1960 a 1990. O ciclo de 2004 desloca o olhar para a incorporação do Estatuto da Cidade, os mecanismos de gestão democrática, a política fundiária e habitacional e o peso dos programas federais de financiamento. Já o plano de 2015 conduz a discussão às tensões entre técnica e participação e à atualização do discurso sobre Curitiba sob o vocabulário da smart city.

Essa organização cronológica não produz, porém, uma história linear. Ao acompanhar os planos, o livro observa também o que permaneceu fora deles, o que foi abandonado, reinterpretado ou realizado por outras vias. Em um dos momentos mais esclarecedores dessa perspectiva, Mariana escreve que a centralidade conferida ao Plano Diretor pode ocultar “aquilo que efetivamente decide a cidade”: orçamento, capacidade institucional, financiamento, prioridades de governo e as relações de força entre Estado, mercado e sociedade. O plano deixa, portanto, de ser tratado como sinônimo da cidade planejada para ser confrontado continuamente com a cidade realizada.

Também atravessa o livro a construção simbólica de Curitiba. “Cidade-modelo”, inovação, sustentabilidade e, mais recentemente, “cidade inteligente” aparecem não apenas como denominações, mas como discursos que participam da maneira pela qual Curitiba se reconhece e é apresentada para fora. A autora retorna especialmente ao legado de Jaime Lerner na conclusão, intitulada “Lernismo, tradição e inovação: o futuro do urbanismo curitibano”, perguntando o que significa inovar numa cidade cuja identidade foi construída, justamente, em torno da ideia de vanguarda.

Apesar da presença inevitável de legislação, conceitos e instrumentos urbanísticos, a escrita procura explicar seus objetos antes de avançar sobre eles. Quadros históricos mais amplos se alternam com a observação de políticas, instituições e acontecimentos locais, permitindo que transporte, habitação, uso do solo, participação popular, meio ambiente e desenho institucional apareçam como partes de uma mesma história. Ao final, a pergunta que atravessou o percurso permanece deliberadamente aberta: insistir nos planos diretores? A resposta proposta pelo livro desloca a questão do documento para a prática. Um plano só adquire sentido quando escolhas sobre “onde investir, quem priorizar, que formas de deslocamento estimular, que territórios reconhecer” encontram correspondência na cidade concreta.

Perfil

Mariana Marques Auler 

 É advogada, mestre em Direito do Estado pela Universidade Federal do Paraná e doutora em Políticas Públicas pela mesma instituição. Atua há mais de dez anos em Curitiba com advocacy (defesa de causas de interesse público e influência em políticas governamentais) e formulação de políticas urbanas e ambientais, conflitos fundiários coletivos, planejamento e gestão de projetos, com uma trajetória voltada à interface entre direito, território e políticas públicas. 

Perfil_Mariana_Marques

Foto: Leo Andreiko

Trechos

Apresentação, por Bruno Meirinho

(pág. 6)

 

Com a Mariana aprendo e debato o direito à cidade há muitos anos. Encontrei-me com ela certa vez em Curitiba e, depois de trocarmos algumas palavras sobre planos e urgências, ela resumiuo essencial: os projetos precisam virar realidade. A frase, simples e consequente, organiza também este livro.

Fácil falar, difícil fazer.

Um plano para Curitiba mede a distância entre o abstrato e o concreto no planejamento urbano. Mariana percorre os Planos Diretores de 1966, 2004 e 2015 e pergunta o que cada um prometeu, mobilizou e entregou. Acompanha a prática institucional, com a consolidação do IPPUC e a construção da imagem de cidade-mo- delo. Em seguida, rememora as demandas pela democratização da cidade e pela reforma urbana, que desembocam na constitucionalização da política urbana e no Estatuto da Cidade. Documenta a atuação dos movimentos sociais, como no caso da Frente Mobiliza Curitiba. Por fim, descreve a retórica da smart city. Do percurso emergem as continuidades e as contradições da cidade.

O mérito do livro está em não ceder nem à celebração fácil nem à demolição simplificadora. Examina práticas e territórios, expõe a materialidade dos instrumentos de política urbana e recoloca a pergunta sobre o papel do Plano Diretor.

Mariana costura a obra com a linha firme dos seus sonhos e defende insistir no Plano Diretor, articulado a práticas políticas e ações concretas. Ela não escreve de longe. Militante, ativista, agente, realizadora: nenhuma dessas palavras basta para definir a autora deste livro. Ela conhece por dentro a travessia entre a norma e o território, entre o projeto e a obra. Suas palavras vêm do conflito urbano e do trabalho coletivo. Compreender Curitiba é pouco. O livro convida a disputá-la, a fazer dela a cidade que ainda pode ser.

Boa leitura!

Prefácio, por Goura Nataraj

(pág. 9)

Escrever sobre o urbanismo de Curitiba requer certa dose de ou- sadia e outra tanta de bagagem teórica. Diz-se que toda cidadã e todo cidadão é meio urbanista, e falar dos problemas e das virtudes do desenvolvimento urbano da capital paranaense faz parte do dia a dia de quem aqui vive. É preciso ousadia para escapar do senso comum e aprofundar-se numa temática que, nos últimos cinquenta anos, permeia o imaginário de todos, mas se mistura a noções construídas com pitadas de política, vivências empíricas, preconceitos e lugares-comuns. Alguns desses ingredientes são deliberadamente cultivados para enaltecer uma ideia de cidade (a cidade-modelo, a ecológica, a exemplar, a inteligente, a inovadora, a europeia) que nem sempre condiz com a realidade. Curitiba tem nome indígena, é a capital mais negra da região Sul, o centro de uma mancha urbana que reúne outros quatorze municípios, uma cidade que sofre, como todas, pressões e interesses de grupos econômicos avessos às vontades coletivas e às intenções planejadas. Aqui também há alagamentos, centenas de favelas, pessoas em situação de vulnerabilidade e todos os problemas sociais e ambientais do nosso tempo. O curitibano contemporâneo médio, que aqui nasceu ou escolheu viver, urbanista por natureza, ufanista de sua cidade, é também uma construção, fruto de experimentos urbanísticos que tiveram seus erros, é claro, mas também muitos acertos.

Neste livro encontramos o esforço de pesquisa, o poder de síntese e a ousadia de Mariana Auler, num texto que reúne todos os requisitos para tratar do urbanismo de Curitiba de maneira justa, aprofundada, crítica e atualizada. Ao recuperar o histórico das diferentes ondas de planejamento que chegaram à capital dos paranaenses (de Agache a Greca, passando por Wilheim, Arzua, Fruet, Requião, Taniguchi, Rischbieter, Lerner e outros urbanistas e gestores), a autora apresenta uma visão sofisticada das contribuições de cada momento histórico, com seus atributos, avanços, limitações, distorções e retrocessos. Dos anos de exceção da ditadura militar, quando o chefe do executivo era indicado pelo governador, ao entusiasmo democrático que enfatizou a participação popular, até os riscos trazidos pelos discursos extremistas do pêndulo atual, o livro revela como a narrativa da Curitiba planejada sempre esteve pre- sente, seja como instrumento de políticas públicas, seja como manipulação da opinião em favor de uma cidade de aparências, quase sempre cenográfica. […]

O texto traz ainda uma análise detalhada dos instrumentos urbanísticos que Curitiba soube usar, e muitas vezes criar, para se tornar uma cidade-objeto do olhar do mundo inteiro. A autora destrincha o Plano Diretor original e suas revisões, ampliações e atualizações, e expõe suas engrenagens aos urbanistas do presente e do futuro. A autora não incorre, porém, no erro de tantas análises que negam as conquistas de Curitiba para realçar apenas os resultados equivocados de processos históricos complexos. […]

 

Lernismo, tradição e inovação: O futuro do urbanismo curitibano

(pág. 181)

[…]A distinção entre o que se poderia chamar de “bons” e “maus” lernistas não reside na adesão ou rejeição ao legado histórico, mas na forma como ele é mobilizado no presente. Enquanto a tradição inovadora do planejamento curitibano esteve associada à disposição de testar soluções inéditas e redefinir paradigmas urbanos, sua apropriação conservadora tende a converter a memória da vanguarda em instrumento de bloqueio das transformações necessárias. Ser fiel ao melhor da tradição curitibana não significa repetir suas formas, mas recuperar sua capacidade de ruptura.

O período recente evidencia ainda uma reconfiguração im- portante dessa tradição. A atualização da imagem da cidade por meio do repertório da smart city e a consolidação de uma gestão orientada à zeladoria urbana indicam deslocamentos relevantes em relação ao ciclo histórico de inovação urbanística. A inovação passa a ser mobilizada mais como narrativa institucional e estratégia de posicionamento urbano do que como formulação de projetos territoriais estruturantes. Ainda assim, a própria centralidade desse debate demonstra que o urbanismo permanece como campo agregador de interesses, expectativas e disputas democráticas na cidade.

Essa característica confere ao caso curitibano uma especificidade relevante no cenário nacional. Em meio à fragmentação do debate público e à radicalização política observada em diferentes escalas, o urbanismo segue operando em Curitiba como linguagem comum de mediação e construção de consensos parciais sobre o futuro urbano. Constitui um espaço no qual agendas locais — mobilidade, meio ambiente, uso do solo, espaço público, habitação e paisagem — continuam estruturando o diálogo político, evidenciando o potencial agregador do urbanismo.

Refletir sobre o futuro dessa tradição exige reconhecer simultaneamente sua potência histórica e seus limites contemporâneos. A crise climática, o aprofundamento das desigualdades socioespaciais, a complexificação das dinâmicas metropolitanas, a precarização do transporte coletivo e o esgotamento do paradigma viário centrado no automóvel demandam redefinições substantivas no modo de conceber e implementar o planejamento urbano. Estar na vanguarda hoje significa menos reafirmar modelos consagrados e mais enfrentar conflitos distributivos, incorporar de forma estrutural a agenda ambiental e climática, reconstruir a centralidade do transporte coletivo, fortalecer a mobilidade ativa e disputar o senti- do da verticalização e do adensamento urbano.

Talvez o maior legado do planejamento urbano curitibano não resida apenas nas soluções que consagrou, mas na capacidade que a cidade terá, daqui em diante, de questioná-las. A Curitiba de 1966 foi inovadora porque não se limitou a administrar a cidade existente: formulou uma hipótese de futuro e construiu meios institucionais, técnicos e políticos para realizá-la. O desafio contemporâneo é produzir nova inflexão dessa natureza, sem nostalgia paralisante nem recusa simplista da tradição.

Entre a memória de sua própria vanguarda e a urgência de reinventar-se frente aos desafios do século XXI, Curitiba é convocada a transformar o urbanismo de narrativa identitária em prática política efetiva. O futuro de sua tradição dependerá menos da fidelidade aos paradigmas que a tornaram referência e mais da coragem de produzir novos caminhos para uma cidade mais justa, menos dependente do automóvel, ambientalmente responsável e capaz de reencontrar, em seu próprio legado, não uma forma acabada, mas uma disposição para inovar.

 

Textos e edição: Adriana Sydor

É jornalista, cientista cultural e escritora e publicou seis livros. Doutoranda em Ciências da Cultura, atua também como editora, curadora de projetos artísticos e professora de escrita.

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Foto: Divulgação

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