Notas de leitura
Por Ademir Demarchi
DEUS, AVIÃO E RELÓGIO DE PULSO SÃO BRASILEIROS

Clarissa Comin. Nebulosas. Curitiba: Medusa, 2020. Edição de Ricardo Corona e Eliana Borges. Projeto gráfico: Eliana Borges.
Clarissa Comin abre este seu livro Nebulosas com uma epígrafe do livro Galáxias, de Haroldo de Campos, sinalizando um caminho estético que bem se configura no primeiro dos textos, “Nebulosa n. 1”. Constata-se que ela se safa com louvor de macaquear Galáxias ou o Finnegans Wake de Joyce, tal como o faz como cacoete Haroldo de Campos (“almicândidas e demidonzelas ohfélias nem de um best-seller fimfeliz para amadores d’amordorflor mas sim de um nigrolivro um pestesseller um horrídeodigesto de leitura aflestúrdia para vagamundos e gatopingados e sesquipedantes e sestralunáticos…”) como criança que encontrou um brinquedo…
Nesse primeiro texto, então, com peculiar linguagem poética, ela remete a Penélope e a sereias: “Delas se espremem os seios fartos povoando em grãos seus bicos de centeio a fértil estrada nuova desponta minutos cravados em unhas róseas ao pé da língua inóspita – talassa, talassa – vacila o estômago em digerir traças cerzidas à capa um ex-libris que fisgou o anzol”. Teria aí um bom exemplo para explorar as possibilidades da prosa poética ou do poema em prosa se praticamente não encerrasse já na primeira “nebulosa” a experiência, preferindo enveredar para textos que mesclam a escrita comum com algumas tiradas engraçadinhas, fundeando os temas numa cultura viajante pela Europa e Estados Unidos: “Hoje em dia dez dólares compra [sic, a. d.] livro (de bolso), DVD (sessão da tarde), pulseira (de plástico) e moleskini (10cmx10cm). No tempo das diligências, pagava [sic, a.d.] a recompensa pela cabeça de um bandido ou mesmo um puxadinho, milles away from here”.
Prevalecem as tiradas, obscurecendo aquele impulso poético inicial: “Qual foi a primeira linha de metrô do mundo? Disputam Londres, Paris, Buenos Aires e, de uns meses para cá, Tóquio. Deus, avião e relógio de pulso são brasileiros, instâncias de aprisionamento e desforra, basta escolher, não temos metrôs mas temos amor”. “Hoje tudo mudou, expressão e direito ao voto. O problema é essa cotação que nos prejudica. Dois idiotas daqui [EUA] equivalem a quatro daí”.
TRÓPICO ENSANGUENTADO
Murilo Serman Prestes. Trópico perfumado; Ponta Grossa: Lambrequim, 2026.
Plagiando a epígrafe de Trópico perfumado;, escolhida de Georg Trakl, transcrita pelo autor em alemão, sem outra razão que aparentemente demonstrar uma erudição algo falaciosa não muito bem evidenciada no conteúdo, ou para encher o saco do leitor e que, para melhor efeito, segue traduzida, aqui: “A decomposição escurece suavemente as folhas”, poderíamos iniciar dizendo que, no que se lê, “a composição poética obscurece gritantemente a poesia pretendida”. Isso porque, se é elogiável que o autor, com apenas 23 anos alcança uma notável escrita poética ali evidenciada e a ponto de constituir um livro, no entanto naufraga nos clichês.
Sua escrita, apesar de sinais de Georges Bataille, Godard, fumaças de Nietzsche e até Yoko Ono como trilha sonora etc., após uma leve derrapada no expressionismo chafurda o pé mesmo é no religiosismo hebraico (“em nome do pai/ do filho/ e do espírito de porco”) e no surrealismo, “reciclando”, ou, melhor dizendo, para tirarmos as aspas, pespegando o chorume melecoso dessa estética no que ela tem de pior.
Assim, parecendo ter saído de uma oficina mecânica de escrita, o autor, vestido da carapuça do automatismo psíquico, configurado na escrita automática que vomita em fluxo “o inconsciente sem o controle da razão, da moral ou da estética”, poema após poema vai nos bombardeando, “automático”, com versos como “apreciados pela litania da minha esquizofrenia/ ejaculando napalm”; “ferrugem pueril no escândalo dos metais”; “escorpiões carregam ogivas pelas vaginas”;“a cabeça inda chovendo/ pedaços mofados de cérebro”; “sob a malícia estreita da palavra,/ da face profunda de moloch/ em todos os ventres que se vale curvar// o sagrado do sangue que banha/ o sexo histérico nas composições / dos fluxos sinfomaníacos”; “deus é uma rugosidade de saudade”; “o faminto aflora da divindade/ numa aurora de coágulos de sangue”; “submarinos de ópio na bunda”…
E, se tem um lugar que é aplicável o clichê de que “deus é onipresente”, esse lugar é esse livro de Murilo Serman Prestes, além do fato de que essa palavra faz dobradinha com outra, sangue, e todas as suas variações, impregnando sua escrita e a tímida mensagem de que, neste trópico, “armas contrabandeadas, um cano, um tiro, só dinheiro; crime diário” são a liturgia que rege o decadentismo resultante nessa poética.
Dito isso, é de se constatar que toda essa fantasia decadentista cai bem em saraus movidos a droga, rock e bebida jorrando, porém, feita a festa, resta o gosto do niilismo assinalado em algum lugar do livro, indicando que fará bem ao autor voltar à biblioteca…
A POESIA DO IMPROVÁVEL

Pedro Carrano. Sanga. Curitiba: Kotter, 2017.
A voz do poeta espanhol Antonio Machado ecoa por Sanga lembrando que “caminhante/ caminhos há/ o mais estreito/ te leva más allá”. Funciona como um dos preceitos que ordenam esse olhar poético configurado por Pedro Carrano, que apresenta traços de suas memórias das errâncias pelas Américas do Sul e Central. Nessa época ele estava interessado nos movimentos de resistência política como o de Chiapas, em que o movimento zapatista ganhou o noticiário mundial e foi tema de suas reportagens. Che Guevara, também lembrado como um guia dessa errância por vários países, é mencionado: “Não me esperem para a colheita. Estarei sempre a semear”. Na releitura de Carrano o exílio do viajante que não semeia busca ser “a própria semente”. Daí que, quando ela brota, floresce em poemas como este haicai impactante pela síntese:
“milharal mexicano/ meninos correndo/ nos olhos do jaguar”.
México, Guatemala, Nicarágua, Bolívia, Equador, Paraguai… podem ser sintetizados no reencontro brasileiro de apenas uma imagem que remete a Oswald de Andrade: de um índio lavando os pés numa fonte que, por sua peculiaridade, se equivale na paisagem aos girassóis, que não morrem, resistem.
A epígrafe de Sanga, pinçada de A paixão segundo GH, de Clarice Lispector, sinaliza a pretensão de alcançar, com a poesia, “o inexpressivo”, “o inumano”, uma negatividade espelhada do que é translúcido no que é expresso e humano, que o permite afirmar que “posso morrer esquecido, mas meu único gesto: jamais estarei de acordo com a vida e esta forma”.
Talvez seja essa a própria “sanga”, “boca afunilada de qualquer armadilha de caça ou pesca”, que procura desviar o olhar para fora de si, do humano que se é, para a natureza (pássaros, asas), para “os cantos no corpo da madeira”, assim como para um pescador pintando seu barco ou mesmo o ouriço que se interpõe ao vago percurso dos dias.
Assim, nessa errância que já é lírica, que é vital durante a passagem do tempo, os dias que passam estão ocultos (“na gaveta/ sob a água vibrante”), dormindo numa memória que tenta o desapego mas espera ser reavivada por um outro que a reconheça e reavive. Cada instante é preciso, porém passageiro, e por isso engolido pelo tempo similar às montanhas que são iguais e parelhas e pouco mudam, mas que, nessa memória, se confundem como um invento, “esse momento quando um deus foi criado”, estranho ao “óxido passado”, que, no entanto, é “trespassado pela nostalgia”.
“A morte é necessária/ talvez duas por semana/ e o seu retorno de amnésia/ assim seguiremos morrendo”, dizem os versos, sugerindo que morrer é sinônimo de deixar de ver, similar à “cegueira necessária” à vida e sua travessia para alcançar a intensidade de sentidos, uma espécie de “cegueira completa/ do mar do amor… o ponto cego da minha travessia”.
Memória, nos poemas, se associa com transformação: “casas têm que ser destruídas/ para a terra seguir em frente”. A passagem do tempo é implacável: a perspectiva de tudo é transformar-se em ruína. Porém, contra isso, “a música que busco…
vem de uma gana de vida”, ainda que “dentro do acaso/ perto o naufrágio/ fico a um passo/ de ser tão frágil/ como uma asa”.
A poesia, então, sintetizada da memória, se faz do improvável, como um sonho: “noite na praça/ lonjura no horizonte/ o peixe beija uma estrela”.
Sobre Ademir Demarchi
Convidado da Querela para escrever mensalmente sobre as novidades das letras das Araucárias, Ademir Demarchi é poeta (ver os poemas reunidos em “Pirão de Sereia”), ficcionista, crítico literário, editou a revista Babel e importantes antologias da poesia paranaense.
Natural de Maringá (1960), Ademir vive com a família em Santos, SP.
