Premiado ator curitibano, vem treinando a mão na ficção curta e longa desde a estréia em 2013, em busca de uma prosa acelerada e nervosa, que n ‘O cão mentecapto’ ele julga ter alcançado plenamente (segundo declarou há dias à imprensa). Esse instrumento de precisão lhe serve, segundo Alexandre França, para apresentar “uma infância que nunca parece estar bem situada nos acontecimentos”. França vê, nos tempos difíceis da formação dos meninos e dos rapazes tal como retratada por Linhares, “personagens deslocados espacialmente, socialmente, afetivamente e até mesmo culturalmente – não se encaixam.” Trata-se, esta segunda edição, esmerilhada e polida e dilatada para 26 contos, de uma tomada de posição também estética; pois, afinal, reeditar é reafirmar e fincar pé. (Joaquim Lamarca)
Foto: Guilherme Danelhuk
Otavio Linhares (Curitiba, 1978)
Estréia como escritor de ficção com a novela Pancrácio (2013, selo Encrenca), volta a publicar em 2015 e 2017, desta vez os contos de O Esculpidor de Nuvens (mesmo selo) e O Cão Mentecapto (Arte & Letra), e novamente em 2021, agora um romance, Cavalo de Terra, pela Moinhos de BH. Em 2013 e 14, editou a revista literária Jandique, e publicou pela editora da revista vários livros de terceiros.
Seu trabalho como ator tem início com estudos que remontam a 2003; passa por formação no Núcleo de Dramaturgia do SESC-PR; e inclui o monólogo Habitué, de Alexandre França, que lhe traz a indicação a melhor ator paranaense. No cinema, integrou o elenco de longas metragens de qualidade, a exemplo do clássico Ainda Estou Aqui e das séries Carcereiros, Irmandade e Cidade de Deus.
Casado com Olivia e pai de uma menina, Otavio vive em Curitiba.
Ficha Bibliográfica
“O cão mentecapto”. Otavio Linhares. Segunda edição revisada e ampliada, com 26 (vinte e seis) contos, 120 páginas. Edição: Nathan Matos. Revisão: Camila Araujo e Nathan Matos. Diagramação: Luís Otávio Ferreira. Capa: Sérgio Ricardo. Editora Moinhos. São Paulo, 2026.
Resenha
A infância pontiaguda de Otavio Linhares
e você repara no que separa
e começa a achar que
é o que une.
Otavio Linhares
Havia recebido esta missão de escrever uma resenha crítica sobre O cão mentecapto (Moinhos, 2026), de Otavio Linhares. Estava no trânsito e só poderia dizer “sim” ao editor, um velho amigo. Chegando em casa, à noite, assisti ao documentário sobre a humorista Maria Bamford, na Netflix (Paralyzed by Hope: The Maria Bamford Story, 2026) — foi o que me motivou a iniciar este texto. Fique ligado, caro leitor: chegaremos a essa relação dentro em breve.
Antes, começo dizendo que O cão… é seu segundo livro de contos. Linhares já havia publicado uma novela, Pancrácio (Encrenca, 2014), e um primeiro de contos, O esculpidor de nuvens (Encrenca, 2015). Depois, partiu para a aventura do romance, com Cavalo de Terra (Moinhos, 2021). Podemos dizer, sem medo, que O cão mentecapto, que agora recebe uma versão ampliada pela editora Moinhos, com dez contos a mais (totalizando vinte e seis), incluindo alguns da obra anterior, é o encontro, sem delongas, do autor com seu estilo singular — a primeira edição é do selo Encrenca, em parceria com a Arte & Letra, de 2017.
Se, em O esculpidor de nuvens, esse estilo encontra-se ainda salpicado por uma espécie de gestual poético-filosófico, em O cão… há uma colisão — poderíamos dizer amorosa — não somente com sua própria voz, mas com os personagens e fantasmas que orbitam os relatos e que, ao que tudo indica, poderiam ter povoado parte da infância e adolescência do próprio autor.
Esse efeito íntimo deve-se também à unidade temática e estilística do conjunto. Salvo alguns minicontos de, às vezes, três frases — como em “a saudade” ou “assim caminha a humanidade” —, os contos de O cão… são expansões de até cinco, seis ou sete páginas, configuradas sempre em um único bloco. Esse modo textual é um convite à imersão nos relatos, que não dão espaço para o leitor tomar um arzinho no percorrer da raia. Linhares nos quer afundados até o pescoço em seu universo infanto-juvenil.
Um universo que é descrito como “brutal” na orelha desta nova edição, mas que, a meu ver, nos chega também com muito humor. Como se as feridas dessa infância/adolescência reconstruída por Linhares fossem seu modo de se reconectar com a graça da vida.
Convém frisar: não se trata de uma biografia, autoficção ou coisa do gênero — no sentido da veracidade dos fatos relatados. Trata-se de uma infância/adolescência ao estilo Linhares. Sabe-se lá se é baseada em fatos reais. A intimidade, mesmo diante de fatos ficcionais, é o que é colocado em evidência aqui.
A dicção bélica, sem vírgulas — conferindo a cada frase uma contundência única —, também segundo a orelha, remeteria ao velho e bom fluxo de consciência, o que, em termos acadêmicos, nos daria margem para situarmos Linhares no tronco de Joyce/Beckett (se bem que, em alguns trechos, encontramos um pouco de Cortázar, como em “ben ben” e “fim de jogo”; em outros, uma influência das várias vozes de Faulkner… difícil um enquadramento aqui).
Curioso falarmos sobre isso: para mim, o tal fluxo me remeteu à fala singular do próprio autor em um palco de teatro — Linhares aliás possui extensa carreira como ator. E a partir deste ponto começa a motivação do presente texto: a ideia de que Otavio Linhares, em grande parte da obra, seria um tipo de performer de si, como a também genial Maria Bamford. Esqueçamos as influências, então — que tal seguirmos um caminho menos acadêmico?
A intimidade como ferramenta expressiva
Bamford é uma humorista norte-americana diagnosticada com transtornos psiquiátricos que vão da bulimia a um TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) com pensamentos intrusivos. Digamos que sua mente não a deixa em paz por um minuto sequer. Seus números de stand-up comedy consistem em relatos de como ela e as pessoas ao seu redor — sua mãe, sua irmã, seu pai, a melhor amiga, o marido — lidam com esses transtornos.
É claro que Bamford criou uma voz para cada uma dessas figuras, que não passam ilesas por seu humor transtornado — envolvendo temáticas bizarras e íntimas, como as múltiplas maneiras de se tentar um suicídio ou a relação da mãe com a gordura da filha. Ao mesmo tempo, é com afeto que rimos das situações colocadas pela humorista, justamente porque seus números tratam da maneira como seus vínculos são mantidos.
Se a atuação da mãe por vezes nos soa absurda e se, ao mesmo tempo, reconhecemos uma mãe ali, é para nos dizer: o absurdo é real e humano. Trata-se, sim, de uma mãe. Trata-se, sim, de uma situação absurda — e, por vezes, brutal. E, sim, a atriz poderia amar essa mãe.
No caso de Linhares, essa espécie de amor da ruptura se dá no universo de uma infância que nunca parece estar bem situada nos acontecimentos. Seus personagens são deslocados espacialmente, socialmente, afetivamente e até mesmo culturalmente — não se encaixam. Assim se configura a brutalidade que Linhares insinua amar com sua graça de performer.
Sim, Linhares quer amar essas personagens e suas situações. Poderíamos ainda dizer: o narrador quer amar também a si mesmo frente a esse cenário. Os indivíduos retratados, porém, são imorais aos olhos do público… Bárbaros… Tóxicos. É preciso subverter a lágrima com o riso. Rir como quem ancora o próprio choro.
Aliás…
… Já não sei se “amar” seria a melhor palavra para dizer sobre esse tipo de intimidade expressiva — não há idealizações aqui; no máximo duras constatações. Os sentimentos envolvidos em O cão… escapam de um memorialismo romântico. Há sempre fendas, farpas, feridas que permanecem expostas, e que o autor não demonstra querer resolver.
Qual seria, então, esse sentimento que emerge tão íntimo e verdadeiro das páginas de O cão mentecapto? Vamos juntos ler alguns trechos para depois pensarmos num termo que o contemple.
Alerta de spoiler.
Considere-se o final de “Cães famintos”, que relata os eventos de um aluno envolvido em uma briga na escola:
sempre vejo nos filmes as pessoas chegarem nas ambulâncias e aí os médicos colocam aquele troço azul na cara delas e aí elas respiram e apagam. o piá morreu. ela diz. você não precisa ir pra aula essa semana. o diretor fechou a escola em luto. as aulas só voltam na semana que vem. caralho! que foda! e pensar que quem matou o piá foram os melhores do mundo. (p. 32)
Certamente, o traço estilístico do bloco único — bem como o compasso das frases sem vírgulas — contribui para que a dicção do performer soe aqui. Minha suposição, nesse sentido, é a seguinte: Linhares está atuando a mãe e também atuando a si mesmo adolescente.
Se estou certo em assim supor, a última frase ganha uma profundidade absurda, na medida em que, se o autor toma para si o discurso do adolescente — numa espécie de aproximação íntima, como Bamford fez com a mãe —, é também para revelar um tipo de afeto muito particular pela surpresa ingênua e, ao mesmo tempo, cruel desse mesmo adolescente: “e pensar que quem matou o piá foram os melhores do mundo”.
Outro bom exemplo podemos encontrar em “o natal”. Aqui, a questão do alcoolismo, que assombra a obra de maneira geral, ganha contornos jocosos e, ao mesmo tempo, afetuosos, numa hilária descrição de crianças recebendo um Papai Noel embriagado. Vejamos:
agora o cunhado e o vô discutem sobre a guarda compartilhada da menina de seis anos que está sentada no colo do papai noel e que é fruto do primeiro casamento do cunhado e que ele nem tem certeza se a filha é dele porque tem um exame rolando de lá pra cá na justiça e ele sempre protela a convocação do advogado. porque é um canalha! diz o avô opinando sobre o caráter do homem. é o que o papai noel estava esperando. a sua deixa. ele já sabia que uma hora outra isso ia acontecer e que a atenção ia sair dele um pouquinho então ele trouxe consigo uma garrafinha de whisky mocada na bota. palmas para o papai noel. nem tenta disfarçar. saca a garrafinha e emborca um golão de alguns segundos. a menina tenta pegar a garrafinha e o bom velhinho dá um gole pra ela que enruga a cara com o gosto platinado do bourbon queimando a gargantinha dela. o outro tio vê e cai na gargalhada. um dos primos sai correndo pra cozinha pra contar pra tia. a tia e a esposa apagam os cigarros na própria xícara de café e correm arrancar o drinque da mão do papai noel. (p. 43)
É ao mesmo tempo que o absurdo, digamos, criminoso — um Papai Noel dando whisky para uma criança — é misturado a frases do tipo “palmas para o papai noel” ou à voz do avô, que surge tonitruante: “é um canalha!”. Esse efeito, além de conduzir o leitor a um ambiente nada saudável, serve também para lembrá-lo: é de lá que a voz desse relato veio; por isso nos soa tão humana.
E aqui me veio a seguinte palavra: “pertencimento”. É para pertencer novamente àquele lugar de infância/adolescência esses relatos. Pode que isso tenha a ver com amor. Fica a critério de cada um.
Certamente, esse estranho humor de um performer de si é somente um dos aspectos da obra que resolvi explorar. Ele se desdobra também no lirismo particular da adolescência — em “festa americana I” e “…II”, por exemplo —, na metalinguagem — em “o impossível” —, nas diferentes facetas da figura paterna — em “foie gras”, “o grande gigante do céu”, “o amigo alemão” ou “fim de jogo” — na questão do machismo e do preconceito sulista — em “tatiana” — e no trânsito entre diferentes esferas de discurso: do sonho para a realidade épica e, daí, para o espaço mental consciente, como muito bem colocado naquela que é, possivelmente, a obra-prima do conjunto, “ben ben”.
Por fim, ao terminarmos a leitura de O cão mentecapto, temos a sensação de que passamos por um documentário singular sobre certa visão da infância e da adolescência. Não um documentário impessoal, como aqueles do Discovery Channel, sobre animais selvagens em seu habitat, mas um documentário sobre um indivíduo que luta com esse estranho sentimento evocado por essas fases da vida. Como diria o cineasta Eduardo Coutinho, um documentário não tem compromisso com a verdade dos fatos, mas, sim, com a verdade do relato. Nesse caso, trata-se do relato daquele que considero o mais contundente contista da minha geração.
Alexandre Gil França
Nascido em Curitiba (PR), em 1982, Alexandre França já trabalhou com música, literatura e teatro. Lançou em 2009 o álbum Música de Apartamento por meio do Prêmio Projeto Pixinguinha da FUNARTE. Em 2010, ganha o Troféu Gralha Azul de revelação com a peça de sua autoria, Habitué. Estreou na literatura em 2015, com o romance “Arquitetura do Mofo” (Selo Encrenca/ Arte e Letra). Editou durante a pandemia a Mathilda Revista Literária, ao lado da poeta Iamni Reche Bezerra. Seu último livro foi Terebentina (Urutau) de 2023. É mestre em Artes Cênicas pela USP e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp.
Foto: Iamni Reche Bezerra
Trecho
TRECHO DO CONTO “BEN BEN”
(…) só o que falta é ter um pau no cu numa janela pra fofocar depois. sigo reto pela praça do ônibus e vou em direção até a outra rua que é mais estreita e parece um beco. dobro nela e já não consigo mais ver o ônibus. não tem ninguém por ali. essa rua vai dar numa outra rua e depois em outra e aí passo detrás de uma construção abandonada e depois outra rua e mais uma e aí saio lá na avenida e ali já tô longe do ponto de ônibus da farmácia da padaria da costureira do boteco de casa e não tem prédios com vigias do pensamento então já posso tirar o uniforme pra não ficar dando bandeira com a calça de agasalho azul escuro do colégio. guardo a calça e a camiseta na mala e acendo um cigarro. uma tragada. duas tragadas. tontura. o primeiro cigarro do dia sempre dá tontura e uma vontade enorme de fazer cocô. tenho uma tia que fala que o primeiro cigarro do dia ela já fuma sentada na privada pra evitar correrias. tô longe de casa então sento no meio fio até passar a tontura. meu irmãozinho mais novo senta ao meu lado. ele tem oito anos. oi mano. oi. dá uma bola? estico o cigarro pra ele. ele fuma tudo numa só tragada. ôrra piá! nem deixou uma bola pra mim. foi mal mano. é que já faz tempo que não fumo e tava com muita vontade. acende outro. ele manda. acendo outro cigarro e ele fuma de novo numa só tragada. ele ordena que eu dê um terceiro cigarro. tiro da carteira e ele puxa o maço inteiro da minha mão e põe dentro da boca. mastiga. começa a sair fumaça de dentro dos seus olhos. e também lágrimas. ele começa a chorar muito e seus olhos são duas cataratas pegando fogo. ele abre a boca e dois tentáculos saem de dentro da sua garganta e penetram meus olhos com força indo bater direto lá no fundo da cabeça. agora serão nossas lembranças. ele diz. vejo meu pai e minha mãe de mãos dadas. e tem o mar. e os dois correndo por entre as ondas. o dia está lindo de sol. nenhuma nuvem no céu. eles se beijam. fazem amor ali mesmo na areia. eu te amo. ela diz. eu te amo mais. ele diz. e uma voz vinda de dentro das águas pede socorro. não deixe que façam isso comigo. diz a voz. sou seu irmãozinho. seu irmãozinho querido. e o céu fecha e começa a chover e os raios e tempestades levantam ondas que arrebentam na praia e aqueles dois corpos agora são caveiras sorrindo seus sorrisos eternos e os ossos espalhados pela praia e um terremoto abre uma covabismo no chão e somos todos tragados pro fundo escuro e silencioso da terra. a voz chama meu nome. ela clama por atenção. e mais uma vez. e mais uma vez. e a cada vez que ela repete o som vai ficando mais longe e mais baixinho e um pouco mais longe e cada vez menos consigo ouvir o que ela diz e ela vai sumindo devagar na imensidão escura como se a morte tivesse chegado sem convite nem espera. fica só o pretume diante dos olhos e o silêncio dos que já se foram. morri. penso. PLAW! acordo com um tapa na cara. na minha frente estão três amigos meus. o scott o sapo e o magrão. acorda piá! diz o magrão me segurando pela gola da blusa. meu corpo contra o muro. ele é bem forte e meus pés estão suspensos no ar. me larga porra! você vai estragar minha melhor blusa! porque você tá me batendo? vai tomar no cu! ele me larga. fico puto. você virou o vidro inteiro de benzina em cima de você. foi molhar o paninho e tomou um banho de ben ben. tá e daí? aí o burro do sapo acendeu o isqueiro pra ver quanto tinha derramado e quando ele pôs perto da tua roupa VLÓSH! você virou uma bola de fogo e saiu rolando pelo asfalto ladeira abaixo e aí o fogo apagou e você levantou e começou a andar de ré pra calçada e passou o meio fio e bateu a cabeça contra o muro e caiu de cara na grama. ah tá! e você tinha que me acordar na porrada?! claro piá! você não acordava nunca. tive que te dar uns tapão. e esse cheiro de pelo queimado? é que o fogo queimou um pedaço do teu cabelo. caralho! minha mãe vai me matar! vamos lá pra casa do nika. você toma um banho e dá um jeito nessa cara. fui correndo até a casa do meu primo. (pgs. 23 e 24)