Adriano Smaniotto: A infância como profecia

Antes do poema, a presença do autor. No vídeo que acompanha esta publicação, Adriano Smaniotto declama o próprio texto, oferecendo ao leitor a cadência e a respiração de sua escrita.

Poeta e professor, com trajetória que atravessa a cena literária paranaense desde os anos 1990, Smaniotto reúne em sua obra diferentes modos de escuta, seja da linguagem, da experiência ou do tempo, como veremos a seguir.

O Poema Profético I, originalmente publicado em 2019 no livro Ladainhas (Lausac), abre-se como anúncio e nos interpela diretamente: que escuta estamos dispostos a oferecer às infâncias que nos cercam, e às que ainda persistem, latentes, em nós?

POEMA PROFÉTICO I

Adriano Smaniotto

Homens de bem nos avisam da Criança Futura.

Sim, ela já está entre nós.

 

Atazana seus pais seu senso de justiça,

confunde seus professores seu gratuito saber.

Convicta de sua messe ela desfila

como se sonhasse ou relembrasse.

 

Quando brinca, ela humaniza.

Quando advoga, ela compraz.

Não entende normas mesquinhas,

nem lhe apetecem coisas triviais.

 

Seu apego às modas do mundo 

dura menos que um dia.

 

Melancólica e sozinha, 

ela quer voltar às estrelas,

antes

reformará as leis

por meio dos vários reis

latentes em seu semblante.

 

Ai de vós,

que não escutais o coro da Criança Futura,

repartido nos risos e gritos

de tantas outras crianças.

 

Ela veio cumprir a profecia do Infinito:

renovar a Terra

e reinventar a Infância.

Adriano Smaniotto

É poeta e professor. Doutor em Letras, com ênfase em Estudos Literários, atua no ensino desde 2001, com passagem por diferentes níveis e instituições, e desde 2009 integra a Rede Estadual de Ensino do Paraná. É autor de vários livros de poesia publicados desde 1995, entre eles Sapatos Tortos, Versejar a Voz do Ser É Ser de Si Algoz e Vísceras à Vista. Participou de antologias, recitais e projetos de leitura, e ministra oficinas literárias.

adriano_smaniotto

Foto: Divulgação

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