Por Adriana Sydor
No panorama bibliográfico de Carlos Dala Stella, que registra títulos prévios pela mesma editora (Maralto), como Retratos, desenhos de admiração, Nas mãos de Benedita e A arte muda da fuga, O anão de asas vermelhas assume uma função de mudança de percurso: apresentado como a primeira fábula do autor, o livro desloca para a narrativa fantástica elementos já presentes em trabalhos anteriores, mais ligados à poesia e às artes plásticas.
Foi esta novidade que Dala Stella lançou no dia 23 de maio.
Lançamento
O lançamento de O anão de asas vermelhas aconteceu na Arte e Letra e reuniu um público numeroso, entre escritores, artistas e leitores interessados em conhecer a nova vertente do autor. O ator Luís Melo leu trechos da obra em ordem cronológica, conduzindo o público pelos acontecimentos centrais da narrativa e pelos caminhos escolhidos por Dala Stella para construí-la. A leitura foi entremeada pelos comentários do próprio autor, que contextualizava passagens, compartilhava observações sobre a composição do livro e revelava parte do processo criativo por trás da fábula, transformando o lançamento em uma experiência de escuta e aproximação com a obra.
As imagens são de Miguel Martinez-Flecha (@mmflecha).
Perfil
Carlos Dala Stella
Nasceu em 1961, em Curitiba, onde mora e trabalha. É poeta, artista plástico e contista. Formado em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), dedica-se ao desenho desde os anos 1980, quando expôs na Itália. Publicou os livros Retratos: desenhos de admiração (2021), Nas mãos de Benedita (2019) e A arte muda da fuga (2018), entre outros. Foi finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Ilustração, com o livro Quer jogar? (2011).
Resenha
O quintal fantástico de Carlos Dala Stella
O anão de asas vermelhas articula uma aventura infantil com uma espécie de investigação poética da imaginação. Organizado em capítulos curtos, o livro acompanha Rael e sua prima Lila e o fascínio por uma criatura extraordinária: um pequeno ser alado, vermelho, que surge entre o pátio da casa, os bambuzais e os fragmentos de mata ao redor.
A estrutura fragmentária da fábula é um dos seus traços mais marcantes. Os capítulos funcionam como pequenos blocos imagéticos, com títulos (“O Tempo”, “A Armadilha”, “O Fracasso”, “Pixel Art”, “O Bote da Aranha”, “A Fornalha da Imaginação” etc.) que indicam a concentração temática de cada segmento.
O núcleo narrativo gira em torno da tentativa de compreender e capturar o “anão de asas vermelhas”, mas a criatura acaba funcionando também como centro irradiador de outros temas: o crescimento, o medo, a vergonha, a imaginação, a passagem do tempo, a dúvida entre fantasia e realidade, a relação entre crianças e adultos, além da convivência íntima com o mundo natural.
O tempo aparece como um dos assuntos recorrentes do livro: “a cama, a luz apagada, Rael pensa no tempo. Por que que a gente não vê se ele está em todo lugar? / O pai tinha falado no relógio da cozinha. No relógio derretido num galho de árvore. No tempo dentro da gente. Que às vezes passa depressa e às vezes bem devagar. No tempo que está colado na pedra, na nuvem, no corpo da Jurema, a jabota. Que não se separa nunca de nada. / Pensar é uma mordida, mas não dói. Rael gostava de morder o escuro do quarto. / O tempo é como a roda da bicicleta. Gira sempre na mesma direção. Mas é diferente. Porque não tem raios, borracha. Não tem nada. A gente só vê o rastro do pneu no chão. Quando o tempo freia, a pessoa morre”. As reflexões infantis, formuladas numa linguagem ao mesmo tempo concreta e metafísica, revelam um dos procedimentos constantes da obra: transformar abstrações em imagens materiais.
Há também uma atenção contínua aos processos da imaginação. Rael desenha o anão em pixel art, pensa em armadilhas, imagina monstros subterrâneos despertando sob a cidade, aproxima o ser alado de lendas como o Curupira. A narrativa não acompanha apenas os acontecimentos externos, ela se detém no modo como as crianças reinventam o mundo através de comparações e fabulações.
Nesse aspecto, o livro constrói uma percepção muito particular da infância. Não se trata de uma infância idealizada ou caricatural, mas de uma consciência em formação, capaz de misturar observação minuciosa e pensamento mágico para tentar chegar a uma especulação filosófica. Os adultos aparecem próximos, porém nunca inteiramente dentro do mesmo universo perceptivo das crianças. O pai de Rael, por exemplo, oscila entre incredulidade, espanto e cuidado; Gala, irmã do protagonista, ocupa uma posição intermediária entre adesão e ironia.
A relação com os animais e com a paisagem é outro elemento bastante perceptível. O texto está povoado de jacus, jabotas, bugios, saracuras, salamandras, araucárias, helicônias, xaxins, bromélias e bambuzais. A natureza participa ativamente da linguagem do livro. As comparações surgem quase sempre a partir de um repertório orgânico: “Depois de semanas de sol, os exércitos das nuvens corriam de encontro uns aos outros, em flutuantes manadas de elefantes de chumbo”. Há um esforço contínuo de traduzir movimentos, sejam físicos ou emocionais, em figuras naturais.
A descrição do anão de asas vermelhas ocupa lugar central na obra e revela uma imaginação visual extremamente elaborada. O anão é apresentado aos poucos e continuamente: olhos vermelhos afastados, pés voltados para trás, quatro asas, língua vermelha, unhas aduncas, pelos eriçados. A narrativa insiste nos detalhes anatômicos e nas metamorfoses de movimento. Ao mesmo tempo monstruoso e frágil, o ser nunca se reduz a uma explicação fechada; pode ser mutação, lenda, animal desconhecido ou projeção imaginária.
Um dos eixos fortes do livro está nas sequências de armadilhas para capturar a criatura. Primeiro o cesto improvisado; depois a estrutura feita de bambus e rede de pesca, comparada repetidamente a uma aranha. A narrativa acompanha os ensaios fracassados, as correções técnicas sugeridas por Gala, o suspense da espera, até chegar à captura efetiva da criatura. Nesses capítulos, o texto avança em um acúmulo de tensão crescente.
Particularmente notável é a mudança de tonalidade na parte final do livro. Um acontecimento decisivo altera a atmosfera da narrativa e desloca a aventura infantil para zonas mais tensas e ambíguas. O que antes era movido sobretudo por fascínio passa a envolver medo, culpa e perplexidade. Surge então outra dimensão importante da obra: a reflexão sobre o impulso humano de capturar, dominar ou possuir aquilo que é desconhecido.
Há um forte investimento na plasticidade verbal na fábula, que trabalha intensamente com imagens e metáforas. Muitas frases parecem concebidas para produzir impacto visual ou tátil imediato: “os olhos arregalados como baldes telescópicos”; “o silêncio magnético costurava os dois lados da cerca”; “o sol no ventre”; “o frio transparente de julho no ar”. Outro traço relevante é a convivência entre referências contemporâneas (celular, pixel art, aplicativos de mensagem) e elementos arcaicos ou míticos. O livro nunca abandona completamente a realidade cotidiana, mas também nunca dissolve o mistério na explicação racional.
Como experiência de leitura, O anão de asas vermelhas oferece uma narrativa de resolução junto a um mergulho em estados de imaginação e encantamento. O livro parece interessado sobretudo em preservar a ambiguidade do fantástico e a intensidade perceptiva da infância.
Entrevista
Antes mesmo de começar a escrever isso já estava decidido, inconscientemente. Sequer precisei tomar essa decisão. A sustentação da verossimilhança, sobre a existência de um ser ancestral alado, todo vermelho, teria que ser completamente diferente se o narrador fosse um adulto. O narrador na verdade é um adulto, mas completamente solidário ao universo das crianças. Há até um capítulo em que Lila começa a contar um sonho e quem assume a fala dela é o narrador, assim sem transição (XLV O Sonho). Talvez seja o momento mais explícito dessa cumplicidade. O ponto de vista das crianças é muito mais permeável à intangibilidade da realidade, os sentidos fluem naturalmente entre o real e o imaginário. Acredito que essa escolha garante a verossimilhança do romance, acentuada pelo tom hiper-realista da narrativa. Algumas escolhas, quando vemos elas já foram feitas.
O livro se deve todo ele à essa ambientação em Santa Felicidade, com aquele pequeno enclave de mata atlântica típica do sul do Brasil (chamado de Floresta Ombrófila Mista, composto principalmente de araucárias e podocarpus lambertii). Quando citei Anne Carson, foi por um motivo específico: lendo a introdução do livro Autobiografia do Vermelho, tive a chave de como estruturar os capítulos. Foi um start técnico, mais a sugestão de como deveria ser o Ícaro em que eu já vinha pensando, todo vermelho. Lembro que eu estava no deck de casa, ao sol, começando a folhear o livro da canadense, quando tive o estalo. Imediatamente comecei a escrever ali mesmo os dois primeiros capítulos. Depois de uma semana, voltei a eles e não parei mais. Foram três meses e três semanas de escrita ininterrupta. Escrevia um novo capítulo e reescrevia os anteriores. É como se aquele livro me tivesse feito vir à consciência, num ímpeto simbólico abrupto, um tema ao qual eu me dediquei ao longo de boa parte de minha vida de pintor, os Ícaros. Foi um vislumbre do núcleo da narrativa que eu queria escrever. Movido por essa visão, e pela ‘solução’ técnica, só precisei me entregar à escrita.
Estou tomando consciência dessa duplicidade agora, com essa pergunta. E você provavelmente tem razão. A visualidade plástica do livro me é dada gratuitamente ao olhar. Olhar, com toda a construção particularíssima que cada um aporta a ele, é em mim um prazer sensorial e cognitivo. Sinto o que vejo e, de algum modo, compreendo, no sentido de fazer parte indissociável do mundo que me rodeia. Ainda que essa compreensão se dê em camadas subterrâneas de sentido. Então, ao escrever sou o primeiro que vê as cenas, e vejo com uma avidez minuciosa. Mas não deixo de ser um poeta quando escrevo prosa, nem quando pinto ou desenho. A consciência da linguagem não me abandona nunca. Manuseio as palavras como um pedaço de madeira, uma pedra, um naco de barro, inquieto com a possibilidade de interferir em sua forma ou constituição. No caso desse livro, o perigo é que essa consciência me levasse a um manuseio excessivamente poético. Tentando achar essa medida, reescrevi a primeira meia dúzia de capítulos várias vezes, trazendo a desenvoltura narrativa que fui ganhando no adiantado da escrita para calibrar o tom poético que às vezes ocupava espaço demais lá no início.
Primeiro eu precisava trazer aquela criatura ao espaço cênico. E fazer isso com muito cuidado, para que fosse crível. Eu mesmo só fui descobrindo quem era ela à medida que escrevia. Por isso a chamei de anão de asas vermelhas, embora ela não seja um anão, mas é a primeira impressão do menino. Depois, provavelmente fui acessando camadas mais íntimas e sedimentadas de minha identidade, onde o obscuro e o desconhecido habitam em mim. Escrevi dezenas de poemas, pintei e desenhei muito tentando acessar essas camadas. O que eu sabia, ou pressentia, é que tinha que construir um longo caminho de aproximação entre o pequeno Ícaro e Rael e Lila. E que a cada passo nessa direção eles se pareceriam mais. Nesse ponto, devo ter me apropriado de outra autora, Nastassja Martin, cujos dois livros traduzidos por aqui li avidamente. Realmente creio que há um elo, não completamente perdido, entre o homem e o animal, uma anima comum… Não que eu deseje me apropriar do desconhecido, mas procuro aumentar a consciência de que ele existe e me é indispensável. Essa questão, no entanto, posta assim, é muito mais formal do que o modo como ela se dá no decorrer do livro. Eu não sabia se ele seria um conto, uma novela de oitenta páginas. Tudo se dá no decorrer do percurso, jogando com pequenos segmentos cênicos que exigem outros e outros. Até que se vislumbra o fim, de certa forma inevitável.
Com esse livro, pude explorar a tensão dramática, coisa muito distinta do que se dá na poesia, por mais que um poema esteja carregado de páthos. Mas entre meus dezessete e dezenove anos, escrevi um romance, O mendigo da Rua XV, uma novela, A hora dos mortos, e um livro de contos, O juízo final dos cães. Todos marcados por uma atmosfera onírica ou francamente fantástica. O que fiz agora, sem me dar conta, foi retomar esse veio abandonado há tanto tempo, apesar de ter já publicado um livro de crônicas e um de contos. A tensão dramática provavelmente é o fio condutor do livro, jogar com ela foi realmente um desafio e um prazer. Também pude explorar outro recurso que só uso episodicamente em minha pintura, meus desenhos e colagens: a citação, sempre de modo implícito, de trabalhos de outros autores, pintores, músicos, escultores, fotógrafos… Em O anão de asas vermelhas são dezenas, organicamente integradas ao fluxo narrativo, de Ovídio a Louise Bourgeois. Se o leitor não acessar essas referências, do ponto de vista narrativo ele não perde nada.
Tudo em mim provém de um nó. E embora me abasteça dele, não procuro esclarecê-lo. Vem dele um poema, e a poesia é o núcleo de meu trabalho, como vem dele uma tela, um desenho, um conto, um painel de cimento ou uma fábula. Não sei direito porque uma inquietação dá num poema e outra numa colagem. Quando manuseio o que pressinto, algo em mim faz a escolha. Eu obedeço. Às vezes funciona, outras não, então retomo o fio da meada até conseguir um resultado melhor. Esse ir e vir dá muito trabalho, e às vezes é angustiante, mas essa é minha escolha diária, a que chamam vocação. O que acontece é que pintar é muito diferente de escrever. Ao pintar estou sempre lidando com uma massa de sentido abstrato que foge do meu alcance, que me custa trazer à luz. Desenhar é um sonho leve, uma fluidez de sentidos, exige um olhar afiado e uma mão precisa, você respira com o máximo de consciência e o mínimo de ar. Escrever é lidar com um bem comum, a linguagem, e sová-la na esperança de que o pão que daí resulta tenha ao menos alguns genes de nosso dna. E seja bom de repartir e comer.
Ficha bibliográfica
O anão de asas vermelhas, de Carlos Dala Stella, com 164 páginas. Curitiba: Maralto Edições, 2026. Livro estruturado em prólogo, 59 capítulos curtos e epílogo. Capa e projeto gráfico: Cristina Gu; ilustração de capa: Denny Chang; preparação: Julia Garcia Bianchini. Coordenação editorial de Cristiane Mateus.
Trechos
Prólogo
(Pág. 13)
Naquele ano até as árvores de Santa Felicidade pareciam enormes anjos decaídos. Com seus galhos esbranquiçados pelas cinzas e pela secura. Mesmo as jurássicas araucárias haviam encrespado os galhos para o céu, prontas para acolher a mais mínima umidade quando ela viesse, fosse em forma de névoa ou de garoa. Depois de meses sem chuva, o céu que se podia ver por entre as poucas folhas que insistiam em permanecer penduradas aos galhos era um céu insólito. Acinzentado e seco. Até os pássaros haviam sumido. Assim como as borboletas e as libélulas.
Depois de meses sem chuva, o céu que se podia ver por entre as poucas folhas que insistiam em permanecer penduradas aos galhos era um céu insólito. Acinzentado e seco. Até os pássaros haviam sumido. Assim como as borboletas e as libélulas. Apenas os mosquitos proliferavam como por geração espontânea, com suas picadas de pólvora ardente.
O primeiro voo
(Pág. 18)
Assim que a porta bateu, no primeiro piso da casa, num estrondo, a criatura fez um movimento reflexo com a cabeça. E entreabriu as asas. Vermelhas. O menino, pressentindo o salto, arrepiou-se todo. Espinhos de gelo espetavam sua espinha.
Com as asas abertas, a criatura saltou, desenhando uma parábola rasante sobre a cabeça do menino. Súbito, o pânico engoliu a curiosidade. Mas não toda. Só agora ele percebia que o anão tinha quatro pés. Dois para a frente, dois para trás.
Com a amplidão translúcida das asas espalmadas, contra o sol, viam-se dois grafismos pretos pichando o ar. Indecifráveis. Prestes a estrangular o menino. Que se encolheu, abraçado à própria sombra.
Por um momento o manto vermelho das asas, com seu hieróglifo, cobriu todo o corpo do menino. Encerrado na cápsula de vidro do espanto. E se foi, enfunando o ar, para cima, para além dos telhados.
Os sinos da igreja de Santa começaram a bater. Era meio-dia.
A lupa
(Pág. 68)
A luz do sol atravessava a lupa. E se abria num cone de cristal aquecido sobre o acrílico vermelho. Do toco de asa. […] Em cada escama um labirinto. Por onde perambulava a curiosidade dos primos. Correndo de mãos dadas.
Na varanda ensolarada, os cotovelos apoiados no corrimão, viravam e reviravam o pedaço de asa. A cada movimento a luz refletia de um jeito. Aumentando ou diminuindo o brilho. Do vermelho oleoso.
Às vezes uma nesga do vermelho metálico refletia no rosto de um e de outro. Tatuando neles cambiantes grafismos do acaso. Mas tiveram que interromper o exame do pedaço da asa porque Gala chegava com a amiga. A pé, pela estradinha.
Rael e Lila enfiaram o pedaço de asa numa sacola de algodão e sumiram pelo terreno. Em disparada. Um par de ovelhas fujonas.
O sonho
(Pág. 83)
— E o sonho, o que aconteceu depois?
— Eu subi pela varanda e olhei pelas janelas. Bati nos vidros. Mas ninguém respondia. Quando eu voltei pro jardim o corpo já estava cheio de formigas.
Agora os primos se olhavam, curiosos um do outro. Lila continuou.
— Do nada vocês chegaram de camionete. Teu pai abriu um buraco entre o jardim e o bosque. Parecia que ele já sabia de tudo. Você̂ chorava baixinho. Depois ajudamos a empurrar o corpo pra cova. Teu pai pegou uma muda — de jasmim, ele disse — na caçamba da camionete e plantou em cima do corpo do anão de asas espedaçadas. Puxando a terra de volta pro buraco.
Do nada outra vez começou uma ventania que descabelava o bambuzal. Caíam muitos sapés dos pinheiros, muitas folhas. Mas não tinha relâmpago nem chuva. Parecia uma tempestade seca.
De repente o jasmineiro começou a florir. Mas os jasmins não eram brancos, eram encarnados. Os brotos cresciam e se abriam como rosas escandalosas de tão vermelhos. Assim em sinfonia.
O vento ficou tão forte que os jasmins de sangue foram se soltando dos galhos. Um atrás do outro. Subitamente transformados em borboletas de três, quatro pares de asas. O que fazia o voo ficar bem esquisito. Todo entrecortado de quedas e arranques.
— Foi muito rápido. Num instante uma revoada de borboletas vermelhas se espalhou pelo céu. Levadas pelo vento.
— E depois?
— Ah, Rael. Como se eu soubesse. Imagine!
E Lila desapareceu lá em cima, se cobrindo até as orelhas. Sob o Everest das cobertas.
Cumplicidade animal
(Pág. 111)
Não foi fácil suportar as gozações da Gala. Mas como ele ficou mudo, repetindo os movimentos que tinha aprendido com o anão vermelho, ela foi se irritando cada vez mais.
Quanto mais ele mimetizava o anão, mais ela perdia a paciência. A ponto de trocar a ironia por xingamento.
Rael avançava sobre ela com as asas abertas. E recuava. Em dado momento, foi o anão que começou a replicar os movimentos do menino. Como se fossem dois os anões de asas vermelhas. Momentaneamente irmanados pela mesma cumplicidade animal.
Até que Gala se foi, soltando faíscas de raiva escada acima.
Rael enfim retirou a máscara. O suor escorria pelas têmporas.
Antes que ele se desse conta do porquê, o anão vermelho se aproximou e observou atentamente seu rosto recém-descoberto. Só então Rael olhou para as próprias mãos: vermelhas!
Num rompante de curiosidade, puxou a blusa e a camiseta para cima, expondo o peito. E arregaçou a calça até os joelhos. Ele estava todo avermelhado. Rosto, peito, braços e pernas. Como tinha acontecido com Lila.
Uma alegria quente fez com que ele abrisse as asas mais do que antes. Alargando a envergadura até o limite.
Curvo para a frente, sobre os joelhos flexíveis, balançou como se experimentasse um prazer primal que nunca tinha experimentado.
Seus quatro pés assentavam solidamente sobre o cimento. Portadores de uma energia prestes a explodir. E impulsionar o corpo para o alto.
Só agora ele compreendeu a natureza dos movimentos espasmódicos das asas. Respondendo a um ímpeto anterior à consciência, que vinha de uma região desconhecida de si. De onde um vulcão secreto jorrava aquela lava quente até os músculos e as articulações. Eletrificados por não sei que vontade involuntária.
Eram duas as criaturas de asas vermelhas no pátio. Movidas pela mesma incontinência animal. O mesmo desejo de arremeter pelos ares. E ir-se. Submetendo a gravidade à poderosa mecânica dos músculos e das asas.
Textos e edição: Adriana Sydor
É jornalista, cientista cultural e escritora e publicou seis livros. Doutoranda em Ciências da Cultura, atua também como editora, curadora de projetos artísticos e professora de escrita.
SERVIÇO
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