Entre amigos, taças, livros e conversas atravessadas pela literatura, o escritor Otto Leopoldo Winck levou ao Nina Restaurante, no dia 23 de maio, seu novo livro de poemas, Fragmentos de caos ou mosaico (Editora Nauta). As fotografias de Miguel Martinez-Flecha registram a atmosfera do encontro, que reuniu leitores, escritores e amigos em torno de uma obra que reafirma a força e a densidade da trajetória literária do autor.
No livro, Winck aborda temas como amor, morte e o próprio ato de escrever poesia.
Nesta matéria, além dos registros da noite do lançamento, publicamos o texto de apresentação escrito por Daniel Osiecki de Fragmentos de caos ou mosaico e uma entrevista exclusiva com o autor para a Querela.
Lançamento
Perfil
Otto Leopoldo Winck
Doutor e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, Otto Leopoldo Winck nasceu no Rio de Janeiro. Depois de uma passagem por Porto Alegre, radicou-se em Curitiba. É autor, entre outras obras, de Cosmogonias, Que fim levaram todas as flores, Forte como a morte e Jaboc, com vários prêmios.
Resenha
Fragmentos da contemporaneidade
Por Daniel Osiecki
Em minha trajetória de professor e resenhista de livros de literatura dificilmente me deparei com muitos autores que atuam bem em muitas áreas quanto o carioca radicado em Curitiba, Otto Leopoldo Winck. Mestre e doutor em Estudos Literários pela UFPR, romancista, poeta e ensaísta, publica agora novo livro de poesia, Fragmentos de caos ou mosaico (Nauta, 2026, 96 páginas).
Em seu novo livro, Winck nos apresenta uma sequência coesa, mas sem ser necessariamente um conjunto em que os poemas dialoguem diretamente em temas e forma. Winck transita entre versos livres, sonetos, reflexões sobre a finitude, sobre o indivíduo contemporâneo e a cultura pop, como referências diretas e indiretas desde Rolling Stones à alta poesia, como Fernando Pessoa.
Poeta que concilia uma verve lírica e debochada, clássica e pop, Otto Leopoldo Winck domina com maestria a trindade poundiana. Em Fragmentos de caos ou mosaico, seus versos se completam diante do leitor por meio de uma tessitura poética refinada: a melopeia, que confere musicalidade à poesia; a fanopeia, que projeta o poder visual da imagem na imaginação de quem lê (“throwing the object on to the visual imagination”, nas palavras de Pound); e a logopeia, que une de forma esteta a forma e o conteúdo das palavras.
Ao leitor que se aventurar avidamente em Fragmentos de caos ou mosaico, recomendo que o faça da maneira mais atenta possível, pois a complexidade da poética de Otto Leopoldo Winck reside sobretudo nos não-ditos, e isso é fundamental em todo o livro. Trabalho denso e maduro que desafia, sempre, o leitor que busca a poeticidade da forma mais visceral possível.
Daniel Osiecki
Nasceu em Curitiba, em 1983. É escritor, editor, professor e músico. Publicou livros de poesia, contos, ensaio e romances, entre os quais Morre como em um vórtice de sombra, Fora de ordem e O pesadelo da ruína. É mestre em Teoria Literária e coordena o sarau coletivo Vespeiro – vozes literárias.
Entrevista
O título, com efeito, é um guarda-chuva debaixo do qual eu reuni poemas bastante distintos entre si: tem sonetos, tem poemas em versos livres (a maioria), tem um poema em inglês… A temática é igualmente variável. Mas, se à primeira vista pode parecer um conjunto de fragmentos desconexos, depois de um exame mais atento é possível que se revele como um mosaico, ou seja, uma figura única, ainda que composta da justaposição de várias peças autônomas. O assunto, da mesma forma, ainda que vário, talvez se reduza a um núcleo mais ou menos fixo de temas “clássicos” e “modernos”: o amor, a morte, a solidão, a anomia das grandes cidades, o ofício poético e o desejo de alguma mudança, quem sabe radical, da (des)ordem vigente. Como toda obra de arte o livro tenta construir um novo cosmos feitos dos cacos do caos. Esse novo cosmos, evidentemente, é ilusão. Mas é dessa frágil ilusão que a gente vive.
O livro segue um fio temático e formal bastante tênue, algo tipo “poema puxa poema”. Os poemas sobre morte estão mais ou menos juntos. Os sonetos (apenas seis) vêm agrupados. Nada muito rigoroso. Como um mosaico moderno.
Eu talvez tenha um defeito: o recurso da metalinguagem, prática de diálogo e citação a partir do gigantesco arquivo que está a nossa disposição, prática esta que, depois de um surto recente, anda meio fora de moda. Meus poemas, portanto, conversam de forma direta ou indireta com o paideuma moderno. E se nesse paideuma tem Dante e Baudelaire, tem também Jagger & Richards. Aliás, é um livro mais pop, apesar de muito “parnasianismo chique”, para citar Leminski. Claro, as referências são sempre uma piscadela, mas é também uma forma de dizer mais do que aquilo que você está dizendo: por trás da sua voz ressoam outras vozes, cada uma com seus ecos. O indivíduo contemporâneo, desencantado dos valores da modernidade, não deixa de ser uma colcha de retalhos dessa mesma modernidade.
Sou um escritor que escreve muito e produz pouco. Meus livros são resultado de longos processos de re/escrita. Daí talvez esse trabalho com as palavras. E também porque eu veja que poesia, mais do que literatura, é música e imagem.
Fragmentos reúne poemas anteriores, simultâneos e posteriores a Cosmogonias, meu penúltimo e talvez meu mais importante livro de poesia (importante dentro de minha relativa irrelevância). Então é difícil ver “mudanças”, pois elas estão diluídas. A seleção em si dos poemas, porém, talvez deixe entrever alguma coisa. Em Cosmogonias, por causa quem sabe da “angústia da influência”, eu tenha evitado os poemas muito leminskianos. Agora eu relevei: e deixei alguns “relaxos” junto aos meus caprichos.
Ficha bibliográfica
Fragmentos de caos ou mosaico, de Otto Leopoldo Winck, 96 páginas; capa de Marcelo Nunes. Barueri, São Paulo: Nauta, 2026.
Trechos
Poema Básico
Eu quero compor um poema básico
que diga tudo
– amor e medo, morte e desejo –
com quase nada: uns poucos versos,
raras rimas e nenhum metro.
Eu quero compor um poema básico
que grude na cabeça
como um riff,
um provérbio,
a lembrança de uma lua
atrás de um poste
(depois do porre homérico
numa espelunca).
Eu quero compor um poema básico,
honesto como um palavrão
dito num bar
quando seu nome vem à lembrança,
um poema básico
como um steinhaeger,
que diga tudo
(como eu te amo,
como eu te odeio)
com um sol maior,
uma batida seca
e um agogô
– como na introdução
de honky tonk woman.
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