Desatinos, espelhos e desmemórias

Notas de leitura
Por Ademir Demarchi

Sálvio Nienkötter
      Bucólico Desatino

Bucólico desatino. Curitiba: Kotter, 2020. Orelha: Marcelo Ariel; apresentação: Jussara Salazar; prefácio: Marcos Pamplona. Projeto Gráfico:
Isadora M. Castro Custódio. Capa: Jussara Salazar sobre quadro de João Batista da Costa; contracapa: Jussara Salazar sobre quadro “O louco”, de Maurício Takiguthi.

Com a informação surpreendente na biografia incluída na orelha de que Sálvio Nienkötter publicou uma edição da tradução da Ilíada de Homero anotada verso a verso (em 2008 pela Ateliê Editorial em co-edição com a Editora da Unicamp, esgotada), entramos nesse livro de contos Bucólico desatino. Encontraríamos nele a mesma obsessão? O autor de cara se furta numa “nota” dizendo que “os contos foram encontrados num caderno dentro de uma caixa de madeira”, cujo autor preferiu o anonimato…

Ou seja, não, logo a falsa impressão de reencontrar o obsessivo anotador de Homero se desvanece diante das ficções que enfocam primeiramente, numa sugestão de vida bucólica, personagens infantis numa lida de colonos no interior de Santa Catarina às voltas com seus costumes e religiosidade e, depois, na vida ficando adulta já com os desatinos, como o de um jovem que conhece uma moça numa funerária e ela o olha dizendo: “Meu nome é ciúme. Nunca diga que não o preveni.” Nos contos da parte Bucólica, sempre intitulados com nomes próprios dos personagens enfocados, a descoberta da sexualidade, as traquinagens e disputas da infância predominam. A segunda parte do livro, destinada à vida adulta dos personagens, é perpassada pela loucura, pelos desajustes e abalos emocionais, não à toa denominada Desatinos. Nela, o bucolismo já se derreteu, faz parte da memória que agora revira o círculo de afetividades ao qual caberia a frase atribuída à personagem do último conto: “Sente-se mal, ilhada com tantos significantes”.

Helena Kolody
Caixinha de música | Viagem no espelho e vinte e um poemas inéditos | Poemas do amor impossível

Caixinha de música. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 1996. Coordenação editorial: Regina Benitez; Ilustrações: Denise Roman; projeto gráfico: Teresa Cristina Montecelli. Tiragem: 3 mil exemplares.

Viagem no espelho e vinte e um poemas inéditos. Curitiba: Criar Edições, 2001.

Poemas do amor impossível. Curitiba: Criar Edições, 2002.

A singeleza do achado desse título de Helena Kolody, Caixinha de música, continua livro adentro em vários poemas, remarcando essa característica de sua poesia que se tornou sintética depois dos escritos iniciais e enveredou também pela expressão através de haicais e tankas, presentes em seções separadas nesse Caixinha de música. Sua poesia foi reunida na edição Viagem no espelho e vinte e um poemas inéditos pela Criar Edições em Curitiba em 2001 e o escritor Roberto Gomes, pela mesma editora, no ano seguinte, publicou a seleção Poemas do amor impossível.

Considero esses primeiros escritos de Poemas do amor impossível os melhores de Helena Kolody, pois neles ela foca essa que foi a questão fundamental da sua obra e momento de elaboração de sua melhor poesia, dada a tensão expressa entre desejo amoroso e sua irrealização, inspirada em fatos biográficos. Sua obra seguinte, que chega até esse Caixinha de música, perdeu a tensão e, sendo mais diluída, passou a ser mais contemplativa e, como sinalizado, singela, e em consonância com a sua incorporação como uma espécie de “poeta oficial” (Caixinha de música o confirma, tendo sido uma edição feita pelo Governo do Paraná com três mil exemplares), além de se tornar amplamente reconhecida e respeitada socialmente como uma professora exemplar, sendo Paulo Leminski seu melhor aluno

Daí que talvez, em oposição àqueles Poemas do amor impossível possamos ler em Caixinha de música um poema que seria uma metáfora do que se tornou após aquela tensão inicial, agora esvaziada de potência: “PINGO DE CHUVA – O que penso, / o que digo, / o que sou… / Pingo de chuva no mar.” E que segue em outro poema: “O DOM DE SONHAR – A esperança engana. / Mente o sonho. / Eu sei. // Que mentiras lindas / eu mesma inventei / e contei pra mim…”

Ainda que raro, com surpresa podemos encontrar algum poema de expressiva crueza como em “APLAUSO – Corrida no parque. / O menino inválido / aplaude os atletas.”

Lá se vão mais de 20 anos indicando a necessidade de novas edições de sua obra.

Flávio Augusto de Carvalho
O cultivo das desmemórias

O cultivo das desmemórias. Cotia: Editora Urutau, 2024.

Paradoxos do existencialismo escremencial da matança paterna

É curioso que o livro desse poeta maringaense comece, já no seu título, com um paradoxo – O cultivo das desmemórias.  “Cultivo” significa o plantio (com cuidados especiais), a dedicação em conhecer, ou, também, o empenho em manter e levar adiante por tempo prolongado, no caso, aplicados às sugeridas “desmemórias”. O paradoxo se estabelece quando se constata que “desmemória” significa ausência de memória, de recordação; deslembrança, desmemoriamento, – esquecimento. Concluiríamos, deduzindo, que o autor sugere, com sua escrita, “fazendeiro do ar” drummondiano, realizar um cultivo, uma manutenção ou atenção continuada do esquecimento, paradoxo que se espraia pelo texto expondo a contradição de que o que está fazendo, na verdade, é o cultivo da recordação e que, sendo essa contradição uma marca expressiva, é também das próprias vidas familiares descritas, daí que, ao remexer o passado, ao extrair dele lembranças, fatos, comparações e constatações e fazer relações com o momento histórico presente e passado do país e das origens em outro continente, nos sugere, também presente no subtexto, um outro sentido da palavra cultivo, que é o de “estrume”, “excremento” o qual, sendo prolífico, não possibilita o “esquecimento”, mas uma forma de fermentação que resulta na proliferação – circunscrita ao texto e à vida, tanto de sentidos quanto de filhos, multiplicados no espelho da representação e da reprodução – afinal, nesse caso, em dado ponto o “eu poético”/narrador que narra (confessa?) diz que, tendo se reproduzido em prole, deu de si mesmo o nome a uma filha (“não por opção minha/ mas com o meu consentimento tácito”, diz, teatralizando um ocultamento no espéculo) assinalando no texto sua fantasia, afinal também um paradoxo, porque, na pura realidade, nunca concretizada em continuidade, em imortalidade, cessada com a morte tanto a vida física quanto a fantasia…

Sendo essa continuidade cessante, o esforço do narrador poético é o de lidar com essa falha que, impossibilitada fisicamente, se realiza, porém, no texto. Por isso o assunto principal de toda essa narrativa poética é confrontar-se com o pai, com a lembrança dele, com sua história de vida, com o que ele disse, escreveu, imaginou, fez ou, afinal, deixou de fazer, num deixar-de-fazer como legado para esse que o assume afetivamente como espelho e o continue sendo, além de também pai, o escritor que o outro não foi e que ora se concretiza no texto: “Isso porque não é que eu possa ser reconhecido nas falas do meu velho pai; é que eu sou feito justamente da têmpera resultante das falas do meu velho pai”.

            Essa fantasia de continuidade se ilustra também com recursos estéticos como a repetição expressional de frases e expressões sinalizando uma circularidade existencial, uma representação do “eterno retorno” do mesmo existencial, do homem que se torna pai no filho que, por sua vez, também se torna pai, que está implícita na relação exposta em fundo histórico do filho com o pai como um elemento potencial que move a escrita – e a vida.

A constante projeção do filho no pai (e vice-versa) se faz sobre e chega (como projeção) a um amálgama simbólico histórico de um “Brasil rural profundo”, marcado pelo escravagismo ou por aspectos históricos como a Guerra do Paraguai, chegando até o presente, amálgama que se derrete sobre os pés onde pisam as vidas de pai e filho e age sutilmente como um trauma sobre a existência marcada pelos fantasmas mudos mas móveis dançantes na noite sentimental (existencial) em que se vive. 

A narrativa de Kafka quanto ao tema da lida com o pai é incontornável, tanto por ter se tornado um clássico por sua maestria quanto pela contundência com que o descreve em sua Carta ao Pai: nele, a narrativa é um mergulho introspectivo tanto para se vingar (matar o pai nos termos simbólicos freudianos) quanto para tentar reconciliar-se, ainda que a Carta nunca tenha sido enviada, uma vez que o antagonismo é a marca da relação deles.

Diferentemente da abordagem de Kafka, porém, em O cultivo das desmemórias sequer o narrador se dirige ao pai, mas sempre a terceiros (“mas vejam vocês”, diz reiteradamente como se se dirigisse a uma plateia diante de sua encenação). Diferentemente, também, o antagonismo não é de confronto, mas de descrição de uma vida como modelo para essa outra que narra e que, em consonância com o que resulta do paralelismo, poderia também dizer: “é que eu sou feito justamente da têmpera resultante das fal(h)as do meu velho pai”, pois “o q   ue eu queria mesmo/ era ser poeta como meu velho pai/ quem sabe um herói das letras para ele”.

Eis que retornamos, aqui, ao sentido de cultivo antes apontado, de que as vidas são tecidas e entretecidas, amalgamadas, pelo excremento como esquecimento histórico oriundo de uma paternidade involuntariamente feminilizada na língua portuguesa, a Pátria, essa sim contra a qual se rebela o tempo todo o narrador que a vê nesse pai “brasil rural e profundo/ do abismo social” governado “pelas milícias digitais de extrema direita” que reduziriam a pó seu velho pai defensor do Estado democrático de direito e das ideias “de uma sociedade mais justa e igualitária”.

Ainda que nessas circunstâncias e repetindo o pai, contra o narrador machadiano que não teve filhos para não lhes transmitir o legado de nossa miséria, o eu poético/narrador de O cultivo das desmemórias esquece-se dessa lição fundacional e as conclui dizendo: “nunca vou saber ao certo/ se/ fui/sou /ou algum dia serei// pelo menos de forma idealizada/ também um velho pai/ para os meus filhos”.

Luiz Mauricio Azevedo Vagoneta

Vagoneta. São Paulo: Círculo de Poemas, 2026. A capa interna é ilustrada por imagem de Edith Derdy, fine art, 40 x 60 cm, de 2024. O livro integra a coleção Círculo de Poemas, da Editora Fósforo, que funciona como clube de assinaturas com a entrega mensal de dois livros aos assinantes e posterior venda avulsa pela editora, constituindo-se na mais importante iniciativa de divulgação de poesia do país atualmente ao combinar o resgate de poetas esquecidos, novos autores e autores traduzidos.

Luiz Mauricio Azevedo, que nasceu em Cascavel, PR, em 1980, é escritor, editor da Figura de Linguagem, em Porto Alegre, tradutor e crítico literário afro-brasileiro. Publicou livros como Estética e raça: Ensaios sobre literatura negra e A sociedade da cor: Brasil, país da igualdade racial? e ficções como Pequeno Espólio do Mal e O Quarto de Judas. Tem obras publicadas em inglês (Digital Mammals, 2015) e em francês (Le musée, 2014). Em 2022 ganhou o Prêmio Açorianos, de Porto Alegre, com seu livro Por uma literatura menos ordinária, de crônicas e, em 2023, com o livro de contos A costura invisível da bola, que reúne 26 contos com temáticas como exclusão social, racismo, religiosidade, machismo, embranquecimento.

Vagoneta, publicado em 2026 pela Círculo, reúne um conjunto de poemas que vão do sarcasmo contra o sistema capitalista (… “na mão dos fundos de investimento/ não dou seis meses/ pros verbos darem lucro// poema é gestão”), a flashs familiares sobre o pai, a mãe ou uma tia, ou sobre a vida urbana. O título do livro, tema de um dos poemas, se refere a uma peculiar vagoneta impulsionada por vela ou pelos pés quando não há vento, que é atração turística num molhe de 4 mil metros de comprimento que avança pelo oceano, na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. No poema, a vagoneta já é outra coisa, uma imagem memorável em que se metamorfoseia o eu poético para expressar a sensação constante de estranheza que atravessa os poemas, como nesse: “tente pagar as coisas/ com o cartão que lhe deram// … alheio a tudo o que fizeram com você// … tente ser o que poderia ter sido”. A seguir, dois poemas do livro.

 

“ceis já viu rosto baleado, mano?

fica o furo ao redor
      marca escura de compasso

é como se meu pai tivesse tirado
                               o isqueiro do chevette
      e esfregado na minha cara
                               porque eu tinha rodado

ceis já viu rosto baleado, mano?

é como um furúnculo de fogo
                               que dentro esconde o dentro
      e por fora não comove ninguém”


      “não terás sido
       nem a coisa coisada
       minha melhor poesia
       miolo de pão esmagado
       ganhando céu asfalto afora

não terás sido
      o pai redimido
      o verso escrito pelo verme
      o velho tigre que não sabe ler

não terás sido
      quem comeu
      com arroz e brita
      o pedaço podre dos meus ouvidos”

Sobre Ademir Demarchi

ademir_demarchi


Convidado da Querela para escrever mensalmente sobre as novidades das letras das Araucárias, Ademir Demarchi é poeta (ver os poemas reunidos em “Pirão de Sereia”), ficcionista, crítico literário, editou a revista Babel e importantes antologias da poesia paranaense.
Natural de Maringá (1960), Ademir vive com a família em Santos, SP.

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