
“Pantaneira” reúne textos e imagens da aventura dos curitibanos nos cenários do bioma em 1984
Por Paulo Marins
“Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um
apanhador de desperdícios: amo os restos…”
(Manoel de Barros, citado por E. Schleder)
À guisa de resenha, seguem notas de leitura e reflexões sobre “Pantaneira”, dos jornalistas curitibanos Ewaldo Schleder (texto) e Julio Covello (imagens) acerca de suas andanças pela região do Pantanal e Rio Paraguai, em três diferentes épocas, a última delas em 1984.
Lá se vão quatro décadas, mas o tema está atualíssimo depois dos desastres (naturais ou criminosos) dos anos recentes. E o dia-a-dia de seus personagens pouco mudou.
Os números são alarmantes: 84 por cento dos incêndios, na maior região de vegetação natural úmida do planeta, no coração da América do Sul, são causados por humanos. Só 16 por cento tem causas naturais – quando o meio ambiente, na quase totalidade das áreas atingidas, se recupera. A natureza é sábia, mas o animal homem insiste em depredar sua fonte de vida.
O livro começa com uma Carta do Pantanal, da professora e antropóloga Edir Pina de Barros, que dá preciosas e indispensáveis informações geológicas, geográficas e históricas, abarcando desde os primeiros povos indígenas, nômades que já ocupavam a região em tempos remotos, muito antes da colonização ibérica, até os atuais habitantes: não só indígenas, mas afro-descendentes, peões, fazendeiros e tantos outros.
Ela enumera os principais problemas ambientais do Pantanal, além dos incêndios: a pecuária extensiva, a caça predatória, o garimpo, a contaminação das águas dos rios Paraguai e São Lourenço, e o turismo descontrolado que produz o lixo e o esgoto.
Na sequência, o leitor encontra os dois blocos que compõem o corpo da obra, com base na viagem que os autores fizeram ao coração do Pantanal nos meses de março e abril de 1984: os textos de Ewaldo Schleder, dono de um extenso currículo que inclui o jornalismo, a publicidade e a poesia em diferentes mídias; e as imagens de Julio Covello, fotógrafo de longo curso, que traz essa arte e técnica no DNA: é filho e pai de fotógrafos.

Dali, numa reportagem acidental, vão mostrar o cotidiano de uma viagem rio-acima até Baía Gaíva, na fronteira com a Bolívia, a bordo de um navio boieiro, para trazer 570 cabeças de gado da engorda em fazendas bolivianas, e posterior exportação para frigoríficos paulistas.
De volta à base, adentram em seguida no Pantanal numa pick-up Willys que leva produtos industrializados para troca com os nativos por charque, carne de caça e pele de animais.
Por fim, a descida de barco de Corumbá até Assunção, primeiro até Vallemi, depois Concepción, terminando na Capital paraguaia, o último trecho a bordo do navio “Cármen Letícia”, da Companhia de Navegação da Bacia do Prata.
Em todo o trajeto, Ewaldo Schleder, em textos poéticos, retrata a gente do Pantanal, os casarios coloniais, os pontos históricos, as aldeias indígenas, as trilhas e estradas, os boiadeiros, a vida dos pantaneiros, relato enriquecido com as belíssimas imagens em preto-e-branco de Julio Covello.
Em suma: um olhar poético e informativo do cotidiano de um dos mais belos biomas da América do Sul, compartilhado pelo Brasil (80%) e Paraguai e Bolívia (20%), mostrando a importância de sua preservação para as futuras gerações.

AUTORES


Julio Covello e Ewaldo Schleder, ao tempo da viagem


Julio e Ewaldo, em fotos atuais

Serviço
“Pantaneira: Pantanal e Rio Paraguai”. Autores: Ewaldo Schleder e Julio Covello. Com 160 páginas, contendo o proêmio “Carta do Pantanal”, da antropóloga e poeta Edir Pina de Barros; caderno de textos a partir da pag. 17 – com quatro breves capítulos introdutórios e 16 narrativas; e caderno de fotos, a partir da pag. 75. Curitiba: Kotter, 2020. Exemplares a R$ 50,00 pelo whatsapp (41) 9981-7049.