No poema que segue, Tonicato Miranda transforma uma manhã fria em paisagem interior. Entre folhas, formigas, nuvens e cadeiras vazias, o cotidiano desacelera e o mundo parece recolher-se para dentro de si. A voz do poeta percorre esse território suspenso até encontrar, mesmo à distância, a promessa de algum calor.
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quentes? nem os meios e as meias...
Tonicato Miranda
folhas marrons mortas no caminho
folhas verdes na árvore do olhar
formigas nuas ruminando na toca
passarinhos encolhidos nos galhos
nuvens como cobertores na cidade
algumas conversas e cafés adiados
casacos vestindo cadeiras na sala
saio, não saio, deste apartamento frio
tudo está parado na mente com preguiça
o corpo na caverna abrigado do clima
a criação anda escondida, tremelicando
nada põe o pé na rua na manhã nublada
voltar à cama, embolar pensamentos
é opção para ter sonhos quentes
um deles no calor distante do Sol.
Tonicato Miranda
É arquiteto, poeta, cronista e compositor radicado em Curitiba, cidade onde vive a maior parte de sua trajetória desde 1982. Nascido no Rio de Janeiro, também residiu em Porto Alegre, Londrina e Brasília. É autor de obras como Diário de Haikais: Prosa Poética (2019) e Camaleo (2016), esta última publicada em coautoria com Marilda Confortin. Além da produção literária e de composições musicais, sua escrita abrange ensaios e crônicas com foco em temas como urbanismo, mobilidade urbana e cultura.
Foto: Arquivo pessoal