Na Brasílio com a Ângelo, de José Carlos Fernandes

Na manhã ensolarada de sábado, 13 de junho, a Livraria Telaranha ficou pequena. Leitores, amigos, ex-alunos, jornalistas formaram uma fila que atravessou o espaço da livraria e ganhou a calçada para cumprimentar José Carlos Fernandes e levar para casa um exemplar autografado de Na Brasílio com a Ângelo, seu novo livro de crônicas.

A cena dizia bastante sobre o lugar que Zeca ocupa em Curitiba. Há décadas, ele está entre os nomes mais reconhecidos da reportagem e da crônica produzidas na cidade, tanto como jornalista quanto como professor responsável pela formação de umas duas ou três gerações de profissionais. Mas a fila parecia reunir algo que vai além do currículo. Havia ali leitores de longa data, colegas de profissão, antigos alunos e gente que simplesmente queria agradecer pelas histórias que encontrou em seus textos.

Em meio à espera, uma definição surgiu da própria fila. “O Zeca é como um vampiro de Curitiba, mas cordial e sem mordida no pescoço”, brincou um dos presentes. A imagem tem sua graça. Poucos escritores percorreram durante tanto tempo as ruas, os bairros, os personagens e as pequenas histórias da cidade com a curiosidade e a sensibilidade que caracterizam sua escrita.

Lançado pela Telaranha, que atua simultaneamente como editora e livraria, Na Brasílio com a Ângelo reúne crônicas escritas ao longo de mais de uma década e oferece ao leitor um passeio por memórias, encontros e personagens que ajudam a compor uma cartografia afetiva de Curitiba. Naquele sábado, porém, o livro dividia o protagonismo com seu autor. E a longa fila que se formou na Ébano Pereira era uma boa medida do carinho que ele desperta.

Quem fotografou tudo foi Miguel Martinez-Flecha.

Lançamento

Ficha bibliográfica

Na Brasílio com a Ângelo, de José Carlos Fernandes, com 192 páginas. Projeto gráfico: Manoela Haas; ilustrações de Felipe de Lima Mayerle; coordenação editorial de Bárbara Tanaka e Guilherme Conde. Curitiba: Telaranha, 2026.

Resenha

As esquinas da vida

 

Durante muitos anos, José Carlos Fernandes resistiu à ideia de reunir em livro as crônicas que publicava no jornal. O receio era compreensível. Escritos originalmente para conviver com o noticiário e com a urgência dos acontecimentos cotidianos, esses textos pareciam pertencer ao fluxo do dia a dia mais do que à permanência do livro. Na Brasílio com a Ângelo mostra, no entanto, que havia ali algo mais do que uma produção circunstancial. Ao selecionar pouco mais de quarenta crônicas dentre cerca de seiscentas escritas entre 2007 e 2024, o autor acabou revelando uma unidade que talvez não fosse evidente quando os textos circulavam isoladamente. 

O título remete ao cruzamento das ruas Brasílio Itiberê e Ângelo Sampaio, em Curitiba, esquina associada à trajetória pessoal do cronista e transformada em ponto de observação do mundo. A referência geográfica, contudo, não limita o alcance do livro. Embora Curitiba esteja presente de forma constante, as crônicas não se organizam como um retrato documental da cidade nem como um inventário de suas curiosidades. O interesse de José Carlos Fernandes está sobretudo nas pessoas, nas histórias e nas memórias que dão sentido aos lugares.

O volume reúne textos originalmente publicados na Gazeta do Povo e está organizado em três seções: Jujubas Coloridas, Se Bem Me Lembro e Curitiba, a Estranha. A divisão sugere diferentes percursos de leitura, mas as fronteiras entre os blocos permanecem fluidas. Personagens, episódios familiares, observações urbanas, lembranças, figuras históricas, reflexões sobre cultura e relatos de encontros inesperados atravessam o livro inteiro. Em vez de compartimentos temáticos rígidos, as três partes parecem funcionar como variações de um mesmo universo narrativo.

Uma rápida leitura do sumário já indica a amplitude dos assuntos abordados. Há textos dedicados a pessoas específicas; outros se organizam em torno de objetos, acontecimentos ou perguntas aparentemente simples, como Quem te ensinou a dar risada?, A extraordinária vida dos objetos ou Como o futebol explica a gente. Também aparecem referências a bairros, ruas, personagens populares e figuras conhecidas. O conjunto produz a sensação de uma cidade observada por múltiplos ângulos, sem que o autor precise recorrer a panoramas ou generalizações. 

A matéria-prima das crônicas é igualmente diversa. Muitas nasceram de entrevistas, conversas ouvidas ao acaso, encontros de rua ou histórias recolhidas durante décadas de trabalho como repórter. Outras partem de lembranças pessoais, leituras, filmes ou episódios aparentemente banais. Em comum, elas apresentam um movimento característico da crônica: a partir de um detalhe concreto, de uma pessoa ou de uma situação específica, o texto se abre para reflexões mais amplas sobre memória, convivência, cultura e experiência urbana.

Embora a experiência jornalística esteja presente em todo o volume, as crônicas não se limitam ao registro factual. A linguagem privilegia a conversa com o leitor, combinando observação, humor e reflexão. Zeca parece menos interessado em explicar o mundo do que em compartilhar modos de percebê-lo. O resultado são textos que transitam entre a reportagem, o ensaio breve, a memória e a narrativa autobiográfica, sem se fixar inteiramente em nenhuma dessas formas.

A memória ocupa um lugar especialmente importante. Não aparece apenas como recordação de acontecimentos passados, mas como instrumento de interpretação. Pessoas desaparecidas, vizinhos, familiares, objetos, estabelecimentos e paisagens urbanas retornam ao texto para serem reexaminados à luz do presente. Nesse sentido, a obra dialoga com uma longa tradição da crônica brasileira interessada em registrar aquilo que tende a escapar dos registros oficiais: histórias mínimas, personagens anônimos e experiências cotidianas.

O livro também merece atenção por sua dimensão gráfica. Cada crônica é acompanhada por uma ilustração de Felipe de Lima Mayerle, que estabelece um diálogo visual com os textos sem assumir função meramente decorativa. O projeto gráfico e a diagramação de Manoela Haas reforçam a unidade do conjunto e contribuem para transformar a coletânea em uma obra concebida como livro, e não apenas como reunião de textos anteriormente publicados.

A história editorial do volume ajuda a compreender essa transformação. A primeira seleção das crônicas foi organizada em 2020, a convite da escritora Luci Collin, para o projeto Curitiba Lê. Naquele momento, José Carlos Fernandes ainda mantinha reservas em relação à publicação de textos originalmente escritos para jornal. A experiência de reuni-los, porém, revelou conexões que passavam despercebidas quando lidos isoladamente e acabou motivando a ampliação do projeto. A edição agora publicada resulta desse processo de revisão e amadurecimento, convertendo uma seleção inicial numa obra concebida como livro autônomo.

Nesse sentido, Na Brasílio com a Ângelo ocupa um lugar particular na trajetória de José Carlos Fernandes. Mais do que reunir textos publicados ao longo de quinze anos, o volume torna visíveis algumas constantes de sua escrita: a atenção às histórias alheias, o interesse pelos personagens comuns, a observação dos pequenos acontecimentos e a confiança de que a vida cotidiana contém matéria suficiente para a literatura. Ao final da leitura, a esquina evocada pelo título deixa de ser apenas um endereço. Torna-se um ponto de observação a partir do qual memórias, encontros e narrativas se entrecruzam, compondo um retrato humano que ultrapassa os limites da própria cidade.

  Entrevista

Gostaria muito de ter feito uma seleção por outros critérios, mas a maioria das cerca de 600 crônicas são sobre personagens. Pelo meu entendimento, teria de procurar todas essas pessoas e pedir autorização para a publicação em outro suporte, que não o jornal, para o qual, um dia, deram consentimento. Por isso, optei pelas crônicas mais castiças, aquelas em que o cronista está presente, fala de si, o que é sempre uma barreira para jornalistas, pois a gente fica treinado em não usar a primeira pessoa e a passar muito discretamente pelas cenas. Foi um exercício bacana. Houve uma outra questão – na pandemia, a escritora Luci Collin me convidou para participar do projeto “Curitiba Lê”, da Prefeitura Municipal de Curitiba. A primeira versão deste livro, menor, mas já com edição da Barbara Tanaka, surgiu na ocasião. Naquelas circunstâncias, nem haveria como procurar antigos entrevistados para pedir autorização. Essa situação reforçou a estratégia de escolher essas crônicas que passam por memórias, pessoas da minha família, o que forma um conjunto em torno das ruas Brasílio Itiberê esquina com a Alferes Ângelo Sampaio, para onde me mudei aos 4 anos de idade. Paralelo, testo outras construções, reunindo crônicas de personagens para uma futura publicação, com o exercício de reencontrar essas pessoas com quem conversei desde 2008.

Tem uma crença que está na origem do jornalismo moderno, a de que toda vida guarda algo de extraordinário. Penso que com o livro A vida que ninguém vê, da Eliane Brum, essa crença ganhou impulso no país. De alguma maneira, os/as jornalistas estão sempre encontrando histórias de vida e desejam contá-las. Por algum motivo, essa experiência provoca medo em muitos colegas. Talvez por terem passado muitos anos nas lides do hard news; ou por temor de parecerem piegas, de escreverem histórias de superação, sem muita densidade. Daí a quantidade de colegas que vivia me passando fontes, “olhe, você precisa conhecer tal pessoa. Você vai saber contar essa história”. De tanto ouvir isso, cheguei a pesquisar o assunto e a observar as ciladas do chamado jornalismo de personagem. Concordo que nem sempre é fácil, pois a gente pode cair no caricato, no risível, pisar na casca de banana do jornalismo gonzo. Temendo fazer crônicas de “tipos”, como se dizia, tomei algumas medidas. Uma delas, evitar o entrevistado exótico, com quem o leitor não iria se identificar. As histórias tinham de vir de pessoas absolutamente comuns ou, sendo alguém conhecido, serem abordadas por um lado desconhecido de suas vidas. Um exemplo: a paixão do arqueólogo Oldemar Blasi pela figura história do Che Guevara. Não era visível. No mais, parte do trajeto é se atirar na conversa. Muitas vezes, o entrevistado nem acredita nas peculiaridades de sua vida. Penso que ter vindo de uma família de imigrantes portugueses ilhéus, que viviam contando histórias de quem partiu e quem ficou; de ser filho de comerciantes; de ter sido seminarista e ouvido muita gente desabafando, em busca de uma luz; de ter trabalhado com jornalismo cultural, em que a trajetória de vida se mescla à criação… tudo isso ajudou a aprender um pouco sobre esse tipo de jornalismo. Claro, muitas vezes é barra. Já me frustrei. Quando o entrevistado te recebe no portão e não convida para entrar, batata, é sinal de que não vai rolar.

Uma das alegrias da vida profissional foi ter editado dois livros de perfis e um de entrevistas, com trabalhos produzidos em conjunto com colegas da redação da Gazeta do Povo. Havia uma ordem de publicação desses textos no jornal, e outra para o momento em que migravam para o livro. Fazer essa redistribuição é uma arte, ciência, um prazer enorme. O editor prevê um mapa de leitura. E mesmo que o leitor não o siga, esse mapa tem de existir. Penso que essa experiência foi repetida na hora em que os textos possíveis de serem publicados estavam separados. Na leitura do material, fui encontrando nexos entre as crônicas, decidindo qual seria vizinha de qual. Nesse momento, as datas ficaram menos importantes. E também alguns textos foram rifados, com a ajuda da editora Juliana Sehn. Ela me fez ver o que estava datado. Acredito que é esse exercício de releitura que faz a prova dos nove, sobre que crônicas ainda respiravam e as que não. E como um texto menor podia ganhar alguma importância, a depender de onde fosse colocado na sequência. Alguns blocos eram mais evidentes, como os sobre Curitiba. Nasceram de uma militância minha: não falar mal da cidade, não repetir clichês de que somos isso ou aquilo, piores que os outros.

Acredito que mudou e muda o tempo todo. Às vezes, tenho medo de perdê-la de vista e de que tantas impressões acumuladas não signifiquem muita coisa, rs. Mas o medo passa. A maneira de observar como repórter é muito rica, pois é contínua, intensa, um corpo a corpo. Como professor numa universidade, e convivendo com jovens – exceto na extensão, quando as interrelações mudam – a gente começa a enxergar menos. É preciso um esforço, repetir liturgias de andanças, ouvir, pôr antenas. Penso também que o mundo mudou muito depois da pandemia e o Brasil, com a polarização declarada, perdeu um pouco da vergonha, rs. Curitiba não teria como passar impune por todos esses movimentos. De qualquer modo, quase que se colocando num ponto cego de ingenuidade produtiva, se é que isso existe, fazer jornalismo é continuamente fuçar onde é que algo de inesperado está brotando. E qualquer cidade que mereça este nome, vai se mover. Curitiba, claro, se move, e quero conseguir enxergar. Nos 30 anos como repórter, o que mais vi foram provas de que a cidade usa roupa nova. Quando a gente vê essa roupa, ganhou o dia.

O Felipe Mayerle foi o ilustrador designado para as crônicas de sexta, as que eu assinava, projeto iniciado em 2008 e que foi capitaneado pelo jornalista Oscar Rocker Neto, então um dos editores chefes da Gazeta. Não fosse por ele, esse trabalho não existiria. E também não existiria não fosse o Felipe. Não lembro cada etapa da conversa, mas a “brincadeira” era usar fotos dos personagens e dos lugares, com a interferência do ilustrador, numa clara alusão ao binômio ficção e realidade, fato e fantasia, um clássico na discussão da própria crônica, que fica no meio desse caminho. Usamos as mesmas imagens que saíram originalmente e algumas outras ele fez exclusivamente para o livro, pois houve o período em que ele se demitiu da Gazeta, na fase final. Era bem boa a nossa troca. Eu mandava por e-mail para ele qual era a história da semana, a foto, um fato mais curioso e ele sempre surpreendia com o traço magnífico. Tenho para mim que se essas crônicas causaram algum encantamento, boa parte se deve à leveza, graça e inteligência do Mayerle.

Pois olhe, é o repórter. Sabe aquela frase do sertanejo? “A pessoa é para o que nasce”. Amo esse dito popular, por causa da ambiguidade. Pode ser lido de forma fatalista, mas também esperançosa. A gente nasce para o que cresce, para o que brota. Sou ruim de primeira pessoa, mas acho que nasci para o operariado da reportagem. Todo mundo tem o seu melhor e acredito que o meu melhor está nesta função. A observação, a escrita, a edição, tudo veio da reportagem, da pauta. Na crônica não foi diferente. Mas havia um desafio, algo como captar o perfil, ou um fragmento da alma das pessoas. Acho que a expressão que mais se ajusta é “captar o espírito humano”. Diante do personagem, importava descobrir como aquela pessoa inventava a vida. Em última análise, essa investigação é jornalística, mas, diferente do mundo da verdade factual, se entregava, de fato, pelo detalhe. Tem uma crônica que não está no livro, sobre o Pedrinho Pedreiro. Operário da construção civil, ele gosta de se vestir de heroína romântica do século 19. Saía na Parada da Diversidade. Os vizinhos descobriram. O casamento acabou, quando a mulher soube. Ele não entendia esse desejo que passava pela vestimenta. Entrevistá-lo foi uma dureza, pois eu temia que as pessoas rissem dele, em vez de admirá-lo. Mas é barra, pois tinha de mostrar um mistério da vida daquele homem. Na hora em que eu estava indo embora, meio derrotado, já prevendo que não saberia como retratá-lo, lembrei de perguntar onde ele guardava as joias de mulher que usava. O sujeito da cara crispada pelo sol, mãos grossas, puxou uma caixa de ferramentas debaixo da cama. Junto com a chave de fenda, martelo e tal, estava um colarzinho de pérolas. O Felipe desenhou lindamente esse objeto. Não fosse esse detalhe, acho que eu teria fracassado em pelo menos tentar contar ao leitor que nesse mundo de 8 bilhões de pessoas existe uma que se chama Pedrinho Pedreiro. E que diante dele restava o silêncio amoroso, pois somos ignorantes demais para enquadrá-lo.

Perfil

José Carlos Fernandes (Curitiba, 1964)

É jornalista. É doutor e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua como professor, pesquisador e extensionista do Departamento de Comunicação. Escreveu O povo de Lula, com Leandro Taques; Um lugar chamado Cocaco; Todo dia nunca é igual, com Márcio Renato dos Santos; e A guerra de Carlos Scliar, com Valêncio Xavier. É autor e organizador de coletâneas de perfis, entrevistas e crônicas.

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Foto: Miguel Martinez-Flecha

Trechos

A VIDA DOS OUTROS

6 de fevereiro de 2014

(pág. 15)

Tempos atrás, eu estava num ponto do ônibus quando um cara parou do meu lado e, do nada, me contou tudo. Tudinho. Falou da infância de fartura em Campo Mourão. Das desditas da juventude. Das drogas. Do sexo. Da contaminação pelo HIV. Da chegada de um filho, quando já se sentia sepultado. Nisso, aparece sua mulher, saia abaixo dos joelhos, cabelos piedosamente até a cintura, e se vão juntos, mãos dadas, no sumidouro da Praça Tiradentes. Como escreveu Walt Whitman, “a vida fez sentido até o dia seguinte”.

Não é a primeira vez que acontece. Lembro-me da ocasião em que uma entrevistada me ofereceu um café. Ainda falávamos do assunto da reportagem quando ela teve súbita mudança de humor. Grudada à pia, esvaiu-se: “Descobri que meu filho é gay. O que faço?”. Almodóvar adoraria a cena: “Mi hijo es maricón. Dios, ¿qué hago?”. Fui pego tão de assalto que acabei soltando um pamonha “calma, o susto passa..”. Depois, seguimos num papo bem temperado, com aquela cumplicidade obscena que às vezes nasce entre os desconhecidos. Já reparou?

Outra vez – e foi bem engraçado –, almoçava com uns colegas quando a amiga de um deles saiu da mesa em que estava e puxou um lero. Veio fazer um social, mas em cinco minutos provocou a pororoca. Sem mais, contou que era lésbica, descreveu seu modus operandi na intimidade, gargalhou ao lembrar da cara de horror da diarista ao saber das acrobacias da patroa. Mesmo tendo nos deixado sem palavras, pediu que não contássemos à sua mãe – uma senhorinha que podíamos ver na outra ponta do restaurante, de cabelos brancos e xale nos ombros – que estava fechando a sex shop da família. “Tsc, tsc. Ela vai se decepcionar comigo mais uma vez…”. E se foi.

Nunca me achei um bom “confidente de ocasião”, exceto nos tempos de São Paulo. Mas em SP não vale. No metrô, é comum alguém puxar papo e contar que acaba de sair da condicional, que assaltou uma velhinha nos Jardins, que ama vadiar no Anhangabaú ou que tem vontade de calcinar os cachorros que fazem cocô nas calçadas do Higienópolis. Depois, cada um entra num vagão e nunca mais se veem. A rotina cosmopolita tem essa vantagem: na metrópole todo mundo trabalhou no Hair e parece um pouco a tigresa da música do Caetano.

Mas aqui, nos matos do Paraná, é diferente. Em Curitiba não existem seis graus de separação, existem dois graus e meio, quando muito, três se alguém mora na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), quatro se for de Doutor Ulysses. Difícil ser anônimo nessas bandas, daí nossa reserva em sair por aí, às escâncaras. A não ser que alguém tenha o dom sobrenatural de provocar declarações desaconselhadas para menores.

Conheço gente que nasceu com esse abridor de latas sentimental. Seus olhos são dois faróis. Como que por hipnose, diante deles as pessoas liberam as caixas-pretas. Depois se vão, passarinheiras, desfrutando do que suponho ser a crença de terem cruzado com um fiel depositário de questões cabeludas.

É interessante o que diz a respeito a ensaísta argentina Beatriz Sarlo. Estaríamos vivendo tempos mais desbeiçados. Incontinência verbal deixou de ser exceção para virar regra. Ela usa a expressão “guinada subjetiva” para traduzir esse momento em que todo mundo quer ser personagem principal. Em tempos idos, diz Sarlo, a gente se projetava nas figuras do cinema e da literatura. A Ilse, personagem de Ingrid Bergman em Casablanca, por exemplo, representava os sentimentos das mulheres do pós-Guerra. Vê-la na tela era ver-se. Mas hoje não. A maioria quer acreditar que sua história pessoal daria um longa-metragem, contando-a ao primeiro que der sopa. Isso explica os reality shows, o “Arquivo Confidencial” do Faustão, as postagens no Facebook.

Sarlo é realista de doer, claro. Sugere que não queremos mais nos sentir iguais a um monte de gente, mas iluminados, o que nos reduz a bufões da saga da batatinha frita. O preço desse exibicionismo é nos fazer ainda mais solitários. Mas convenhamos que esse momento espalhafatoso da humanidade tem seu charme.

Nossos confidentes despudorados fazem com que nos sintamos aquele burocrata da Stasi do filme A vida dos outros, de Florian Henckel. Medíocre, ele começa a ter sua percepção alterada ao grampear um casal de atores da antiga Alemanha Oriental. Descobre que o mundo é maior do que imaginava. Quando ele mesmo já não cabe mais no minúsculo espaço da realidade onde vivia, faz enfim algo que preste.

Esses caras que nos abordam na Tiradentes são ou não são uns sacanas?

BENDITA CALVÍCIE

4 de agosto de 2011

(Pág. 119)

            Em setembro, minha mãe faz 70 anos. Observo que nos últimos tempos, sem querer, dona Judite tem composto uma “pensata” sobre a velhice. Suas reflexões são divertidíssimas e convivem numa boa com o apito da panela de pressão e com a voz do padre Reginaldo Manzotti no rádio da cozinha. Dia desses, ao flagrar na tevê o Stênio Garcia, remoçado por uma reluzente recapagem nos dentes, saiu-se com essa: “Daqui uns tempos vai ser uma vergonha ficar velho”. Percebo seu olhar de “valha-me Deus”, igualmente, ao ver na telinha a Regina Duarte, atriz que acompanha desde a época em que os televisores – da marca Colorado RO – eram movidos a válvulas que explodiam.

            Ela faz as contas – “se eu nasci em 1941 e a Regina em 1947…”. Explico-lhe que as câmeras de alta-definição são um santo remédio para os pés de galinha: ambas contêm colágeno. Rimos. E a conversa acaba sempre na Ingrid Bergman, para quem as rugas no rosto eram o mapa do que tinha vivido. Muito lindo. O almoço está servido.

Lembro que anos atrás, num velório, a mãe reencontrou um ex-vizinho que, pelos cálculos dela, já descansava a sete palmos. Diante da visão do além, cumprimentou-o com um elogio fúnebre: “Nossa… O senhor continua velho”. Nos rachamos até hoje com a gafe. Bem gostaria de mandá-la para o filósofo Gilles Lipovetsky, para que inclua em seus escritos sobre a hipermodernidade.

            O culto à juventude se tornou, de fato, um saco. Reparem nas propagandas do Dia dos Pais. Em vez de homens com respeitáveis cabelos brancos, os modelos são rapagões nutridos com glutamina de baunilha. De minha parte, contudo, prefiro me deliciar com as cenas do “próximo capítulo” da história, das quais também já tenho o privilégio de desfrutar. Explico.

            Meses atrás, ao tosar os cabelos que me restam, o cabeleireiro me confidenciou, julgando um agrado: “Deixei mais cheinho atrás para despistar a coroa de padre”. Hã? Até então, eu gozava das benesses da ignorância: o espelho não manda notícias do cocuruto. Agora, peço “cheinho atrás” e que me arranque os pelos da orelha, sem dó.

            Escutar mal é a pior parte da, digamos, “era da expansão abdominal”. Dá rugas. Explico: a gente sempre engruvinha a cara ao perguntar “o quê?” repetidas vezes, com irritação. Além de inútil, o movimento da face usado para reativar a audição tende a imprimir sulcos do queixo à testa. O vaivém epidérmico não tem nenhum efeito comprovado no combate à papada. Nem nos deixa charmosos como o Herson Capri. O consolo é que a maior parte do que não escutamos não faz a menor diferença. Asseguro.

            No mais, para que sofrer? Restam boas pedidas nesses anos incríveis nos quais os maduros conciliam o jurássico medo de vento encanado com a ilusão de que vão tirar férias em Marte. Uma das boas é se distrair lendo aquela frase debaixo dos letreiros: “Desde 1978” “Since 1986″. Faz um bem danado à memória: em 1978 eu estava na oitava série e despistava a feiura das espinhas e penugens fingindo cantar “Stayin’ alive”, dos Bee Gees. Em 1986, estava formado, lia Milan Kundera e cantarolava feito bobo, que ironia, “Volver a los 17”: “Como el musguito en la piedra, ay si, sí, sí…”.

A bagagem do tempo também nos brinda com um estranho fenômeno. Podemos recordar muito bem como as pessoas eram em priscas eras. Eu compararia esse dispositivo a um arquivo de filmes com disparo instantâneo. A gente encontra um conhecido, pode até pensar “puxa, que estrago”, mas logo percebe que o sorriso de guria sobreviveu à tez amarfanhada; que os modos de piá desafiam as olheiras profundas.

Graças a esse bônus da vida, olho para minha mãe septuagenária e ainda a vejo secando os longos cabelos na sacada de uma casa no Novo Mundo. E também me percebo em camadas. Dias atrás, uma amiga tomou meu RG “para ver como eu era…”. Mas sou eu naquela foto. Ela debocha. OK. Mas no tempo daquele 3×4 o cabelo não parava no lugar, ó juba indomável. Quanto tempo perdido nos espelhos. Bendita calvície.

EPÍLOGO

24 de novembro de 2025

(Pág. 187)

            Gê, querida, essa é uma das poucas fotos que temos juntos. Você está tão bonita. Lembro o quanto demorou para acreditar que muitos rios cruzavam tua vida: os cabelos em fogo, os olhos azuis, a gargalhada gostosa e, sempre, sempre, o melhor papo da nossa paróquia familiar. Quando o pessoal aqui de casa voltava das festas – às quais eu era dado a não ir –, antes de perguntar se tinha sido legal, queria era saber: “A Ângela estava lá?”. Se a resposta fosse “sim”, vinha a certeza de que eu havia perdido algo de muito bom. Em volta de você, a prosa corria solta, as horas passavam, alguém sempre se acabava de rir com as tuas historietas. Desconfio que a gente nunca teve um papo sério, acredita? E por isso foi tão bom, tão leve, tão incrível todas as vezes em que estive ao teu lado.

            Era vida o que você distribuía, sem cobrar nada. Talvez por isso gostasse tanto das crianças – além dos quatro filhos, acolhia uma carreira de sobrinhos e, depois, as netas e o neto. Os pequenos, dizem, são seres encantados – e você nunca deixou de ser um deles. Nossa turminha sabia disso e vivia atrás da tua saia, pois contigo a felicidade não ficava de molho.

            Não devo escrever mais nada. Aprendi que não se deve escrever chorando. Está todo mundo puto, porque sem você, poxa, Dona Vida, vai ficar bem sem graça. As conversas divertidas no tanque da casa da vó Marta sempre serão a certeza de que, um dia, fomos muito felizes – e boa parte disso é porque você estava lá.

Tchau, Gê. Que nosso Santo Antônio te receba – era nosso amor em comum. Minha fé já não é tanta, mas hoje peço aos céus a graça de um dia te reencontrar. Beijo grande. Obrigado, minha tia-irmã.

Textos e edição: Adriana Sydor

É jornalista, cientista cultural e escritora. Doutoranda em Ciências da Cultura, atua também como editora, curadora de projetos artísticos e professora de escrita | www.milcompassos.com.br.

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