Literatura paranaense, saudade de óculos e um Dalton mulher

Notas de leitura
Por Ademir Demarchi

LITERATURA PARANAENSE EXISTE?

Marco Aurélio de Souza (organizador). Diálogos com a literatura paranaense. Ponta Grossa: Lambrequim, 2025. Projeto gráfico: Carlos Bauer. Capa e diagramação: Carlos Garcia Fernandes.

Nesse livro, o escritor e editor da Lambrequim, a partir de uma disciplina em sala de aula na Universidade Estadual de Ponta Grossa, juntamente com seus alunos, reúne uma série de entrevistas com escritores paranaenses, feitas para indagar a eles sobre como concebem a noção de literatura paranaense, a questão regionalista, sua relação com uma pretensa tradição literária paranaense, as possíveis influências e a singularidade do espaço geográfico. O resultado, ainda que irregular no geral, alcança ótimos momentos reflexivos por parte dos escritores Ademir Demarchi, Luci Collin, Ricado Pedrosa Alves, Alvaro Posselt, Chris Vianna, Daniel Osiecki, Felipe Teodoro, Karen Debértolis, Otto Leopoldo Winck, Róbison Benedito Chagas e Sergio Batistel. Alguns tergiversam evitando criar um monstro, salvando-se pelo critério geográfico, já outros arriscam dizer que a literatura paranaense existe, como Luci Collin que lembra da forte imigração que gerou características culturais no Estado, impactando a literatura criada; os apreciadores e criadores de haicais, como Álvaro Posselt, também lembram a forte presença japonesa no Paraná para justificar o grande interesse e disseminação desse gênero localmente. É elogiável também a iniciativa de Marco Aurélio de Souza de gerar esse debate dentro da sala de aula e da experiência de publicar um livro de forma a difundir a reflexão, sempre indispensável neste Paraná em que antes de se perguntar o nome de uma pessoa, de cara já se pergunta de onde ela vem.

EU USO ÓCULOS

Maria Mion. da Saudade não se perde nem o grito. Ponta Grossa: Lambrequim, 2025. Edição e revisão: Marco Aurélio de Souza. Preparação de originais: Lilian Sais. Capa, projeto gráfico e diagramação: Carlos Bauer.

            Quem atenta para a foto sisuda dessa autora curitibana na orelha do livro logo constata o contraste com o senso de humor marcado por gracejos dessa experiência de escrita que se faz nos influxos dos anos 1970, no estilo de Ana C e toda uma gama de escritoras da cena contemporânea para as quais é primordial expressar-se poeticamente no feminino. Maria Mion se põe, pois, sob o guarda-chuvas, ou, melhor dizendo, seguindo a lógica do feminismo militante do momento, se põe sob a sombrinha desse feminismo para falar no feminino, numa forma de espelhamento de si, que se desdobra também na criação de uma personagem, a Saudade do título. Essa personagem percorre praticamente todo o livro sendo submetida aos trocadilhos que a palavra “saudade” possibilita, dada sua marcada existência na língua portuguesa. Outra temática que entrecruza esses textos é o da miopia, miopia física mesmo (“sem os óculos não acho meus óculos”), não estética (essa bem explorada por Carlos Bauer no projeto gráfico), que se associa aos equipamentos a ela concernentes, como os prosaicos óculos e até os antiquados monóculos, que foram muito usados nas performances de apresentação do livro pela autora. Daí que é de se perguntar se seria devido a alguma miopia, tanto da parte da autora quanto do revisor, certa insistência na escrita de palavras de grafia errada (o reiterado uso da palavra “porque” em perguntas no poema “as pessoas também perguntam”; ou o uso da palavra “ter”, em vários poemas, flexionada no plural [têm”] em vez de usá-la na primeira pessoa, como seria adequado, no singular, sem o acento circunflexo que a remete para a terceira pessoa do plural: “a perda do olho de Camões têm algumas” [versões]). Esperando não estar com as lentes dos meus próprios óculos embaçadas, escolho um dos poemas do livro:

pestanejar

a/c Remedios Varo

 

sobre a mesa

que flutuava

virou

o par de olhos

mirando

os óculos

com cílios

que piscavam

E SE DALTON FOSSE FÊMEA?

Léia Leite. Dalton Fêmea. Curitiba: Anarco Vigaristas Editores, 1995, Coleção Publica Quieto.

Quando um escritor cresce em importância e infesta a imaginação dos leitores, é inevitável que ele mesmo se transforme num personagem de outros livros, vampirizado por leitores fanáticos que o recriam, reinventam e o transformam ao bel prazer da admiração. As prateleiras das bibliotecas estão cheias de livros assim. Mas fiquemos com Dalton Trevisan, que é um dos mais notáveis escritores do Paraná, e que não tem escapado a essa sina.

Um caso curioso em que ele, de autor, foi parar nas páginas de um livro como personagem foi Chá das cinco com o Vampiro, romance escrito por Miguel Sanches Neto, que fantasiou o que poderia ser sua própria história de vida, a de um jovem interiorano que quer ser escritor, muda-se para a Capital e se torna amigo do escritor renomado e depois um rival.

Um dos casos mais curiosos envolvendo Dalton Trevisan, porém, é o de uma escritora, Léia Leite, que em seu primeiro e único livro já no título se saiu com uma ideia impagável: Dalton Fêmea. O livro reúne contos curtos e bem escritos que muito lembram o estilo cortante e irônico de Dalton, porém narrados por uma mulher, a tal Dalton Fêmea.

Poderíamos até acreditar que essa mulher realmente existiu se ela, escrevendo tão bem, tivesse publicado mais livros e se esse livro não tivesse sido urdido na OSS Propaganda, notável antro de publicitários, escritores, músicos, punks e alcoólatras, sediado em Curitiba. Não à toa o livro foi publicado por Anarco Vigaristas Editores, em 1995, na Coleção Publica Quieto com o habitual capricho gráfico de outros livros saídos da OSS, que se caracterizou pela criação musical e literária coletiva, sendo raros os livros ou textos que os escritores desse grupo tenham publicado individualmente.

Lembremos alguns, de sugestivos títulos, escritos em equipe pela mesma época: Os catalépticos, Pérolas aos poukos e OSS – Poemas a 2, 4, 6 ou 8 mãos. Os autores: Antonio Thadeu Wojciechowski, Roberto Prado, Marcos Prado, Edilson Del Grossi, Sergio Viralobos. Léia Leite? Hummmm. Esse nome ressoa aquela brincadeira felliniana num média metragem incluído em Bocácio 70, que Fellini dividiu com Visconti, De Sica e Monicelli. Nesse filme há um jingle que o intitula, Bevete più latte, que é memorável a ressoar na memória: “beba mais leite!”, “beba mais leite!”. Léia leite? Hummmm.

No entanto, Roberto Prado quando leu a primeira versão deste texto confirmou que Léia Leite existiu mesmo. Daí que só nos resta lamentar que ela tenha sido acometida por uma síndrome rimbaudiana e abandonado a literatura indo para alguma África fantasiosa distante de um novo livro que ficou nos devendo.

Constante o leitor: vamos a uns continhos dela então, já que esse livrinho é uma raridade que, existindo mais que ela, consegui num cemitério, puxado pela fresta de uma lápide onde ressonava o vampiro…:

 

Vovó é virgem 

O amor que eu sinto, pior que o amor da vovó.

Ainda virgem.

Cedo o TB morreu.

Para cada beijo, um acesso de tosse.

Cada abraço, golfadas de gosma.

No cinema, a cena ridícula:

engasgou com catarro pela tristeza de Carlito.

Sou como vovó. Mulher feita, três filhos e ainda virgem.

Qual dos três diabinhos é Jesus?

 

Corvo é urubu? 

Ouço o barulho das asas do corvo, para não dizer urubu, pousando no telhado.

Ele, ali morrendo, e eu, a tonga, a mocoronga, esperando.

Por que não vai de vez?

Até quando os pregos da cruz nas minhas mãos?

Quando moço, antes do advento da cachaça, robusto e potente.

Hoje aquela pasta estirada no colchão.

Ouço barulho de bico na janela.

Abro e entra o corvão.

 

Dalton Fêmea 

Tão longa minha história de amor, não pode ser contada aqui.

A do ódio sim.

Um jornalista barbudo e idiota disse que imitação de Dalton deveria criar estilo.

A troco de?

Que Jesus Santíssimo e Maria Beatíssima protejam o vampiro para que ele sinta o gosto de sangue dessa bala azedinha.

Sobre Ademir Demarchi

ademir_demarchi


Convidado da Querela para escrever mensalmente sobre as novidades das letras das Araucárias, Ademir Demarchi é poeta (ver os poemas reunidos em “Pirão de Sereia”), ficcionista, crítico literário, editou a revista Babel e importantes antologias da poesia paranaense.
Natural de Maringá (1960), Ademir vive com a família em Santos, SP.

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