O quintal “onde o menino cria seus mitos para viver num mundo de sopros e epifanias” e de onde “o poeta constrói a sua vida de frutos, contando mitos para que a sua herança sobreviva” se transformou em livro. Quintares, de Hamilton Faria, foi lançado pela Vespeiro Edições, no final da tarde de 12 de junho, no saguão da Biblioteca Pública do Paraná.
Sessão de autógrafos, bate-papo, leituras de trechos e música fizeram parte do evento.
Os registros são de Miguel Martinez-Flecha (@mmflecha).
Perfil
Hamilton Faria
É curitibano de 1948. Sociólogo formado pela PUC-SP, foi professor em universidades no estado de São Paulo. Escreve desde a adolescência e publica desde a mocidade: Diavirá (1977), Encântaros (1995), Passarais (2019), entre outros. É um dos autores incluídos na antologia 4 Poetas, em 1976, juntamente com Reinoldo Atem, Domingos Pellegrini e Raimundo Caruso. Desde então, tem participado de dezenas de antologias no Brasil e no exterior. Quintares é seu décimo quinto livro de poemas. Atualmente mora em Curitiba.
Resenha
Pai palavra, mãe quintal
Há livros que parecem nascer de uma paisagem. Em Quintares, de Hamilton Faria, essa paisagem é, antes de tudo, um quintal: lugar de árvores, frutos, bichos, chuvas, vozes familiares e descobertas que atravessam o tempo. Ao longo de cinquenta anos dedicados à poesia, em uma trajetória que reúne quinze livros individuais e participação em mais de quarenta antologias no Brasil e no exterior, o autor retorna a temas que também estão presentes neste volume: a memória, a infância, a família, a linguagem e o diálogo entre o cotidiano e o imaginário.
O título sugere um movimento de divisão e partilha. Se, em seu sentido formal, “quintares” remete ao ato de repartir, o livro parece distribuir suas lembranças, afetos e imagens em diferentes porções de uma mesma matéria vivida. Reunidos em três partes (Memória de frutos, De mães e águas e Hoje ontem), os poemas percorrem tempos distintos, mas permanecem ligados por fios comuns: a presença insistente da memória, a força das palavras e os vínculos familiares.
Desde os primeiros textos, surgem as figuras do pai e da mãe como referências centrais. Em presença (pág.18), o poeta escreve: “mãe era quintal pai palavra”. A partir dessa imagem, desenha-se um universo em que a mãe alimenta “a vida / com pão e chuva”, enquanto o pai “nomeava o nomeável”. Não se trata apenas de personagens recordados, mas de presenças que organizam a experiência do mundo e da linguagem.
Os poemas visitam uma infância povoada por árvores, frutos e animais. Pêssegos, pitangas, amoras, goiabas e abacates aparecem como partes de uma memória viva, ultrapassando as figuras de uma paisagem, onde as fronteiras entre realidade e imaginação permanecem abertas. O quintal torna-se espaço de convivência entre pessoas, plantas, bichos, sonhos e mitos, formando uma espécie de comunidade afetiva em que tudo parece conectado, até o que não aparece diretamente no texto.
A figura materna atravessa grande parte do livro. Surge em cenas cotidianas, em lembranças domésticas, em medos, conselhos e gestos de cuidado. Em os medos da mãe (pág. 48), a mulher que reza e sonha convive com o receio do julgamento divino e com o temor de que os sonhos não se realizem. Em outros momentos, reaparece em frases breves que permanecem ecoando na memória do filho, como no poema extraordinário (pág. 10), quando aconselha: “— seja mais prático / e menos poeta, filho!”. A resposta do poema vem logo depois: “o encantamento / não se dissipou”.
O pai também ocupa lugar importante nesta cartografia afetiva. Associado muitas vezes às palavras, à nomeação e à herança transmitida entre gerações, ele ressurge em poemas que interrogam a permanência dos laços familiares. Em dois em um (pág. 63), a pergunta final aproxima corpo e memória: “pai — de quem são estas / minhas mãos / que eram tuas?”.
Ao lado das figuras familiares, o livro também reúne parentes, vizinhos, religiosos, amigos, animais e personagens da vida cotidiana. Muitos deles aparecem em poemas que preservam nomes próprios, modos de falar e pequenas histórias. Em o guardador de julibia (pág.49), cada personagem guarda algo precioso: palavras, canções, orquídeas, relíquias. O menino, por sua vez, guarda a mãe “no julibiário / e ali fica lá para ser de sempre”.
A memória, contudo, não surge como simples recuperação do passado. Em vários poemas, ela aparece como uma força que transforma aquilo que recorda. “viro a página. / em toda história / a memória se encanta”. O passado permanece ligado ao presente por um fio que não se rompe, mas também não permanece imóvel.
Quintares integra uma obra construída sob a convicção, frequentemente expressa por Hamilton Faria, de que “a poesia reencanta a palavra e a vida”. Neste livro, esse reencantamento acontece por meio de lembranças familiares, paisagens de infância, frutos, águas, vozes e silêncios que atravessam o tempo. Entre o menino que observa o mundo a partir do quintal e o poeta que revisita essas imagens décadas depois, os poemas registram a continuidade de uma experiência em que viver, lembrar e nomear permanecem profundamente ligados.
Entrevista
Quintares é, além de uma poética da memória, uma cosmogonia da infância. Não se trata de um livro infantil ou infantojuvenil, mas a ingenuidade está presente: toda arte verdadeira traz ingenuidade, um abandono infantil, uma certa suspensão voluntária da incredulidade, fé poética – como diz Borges ao comentar a leitura da Divina Comédia. No meu livro Haikuazes, (Escrituras, São Paulo, 2006) publiquei um poema que traduz este sentimento: “Entre gênios e engenhos/ Concede-me, ó Deus, / a pureza do ingênuo.”. O menino vê com olhos de espanto o seu território sagrado, trata da natureza como parte da sua essência. Assim, o pinheiro sentia dores quando descascado, as roupas riam no varal, meninos debruçados em horizontes das tardes ouvem mãe cantar, o pai penteava-se à noite para conversar com os anjos, a cadela violeta tinha ternuras de mãe, a irmã tinha dentes de espiga de milho; bêbados loucos e animais falavam a língua das crianças. Pai era palavra, mãe quintal; tudo se relaciona neste território metafórico que vai além da memória de uma casa no Alto da Rua XV, em Curitiba. O menino inventa o seu mundo para suportar o alumbramento e a dor para ser inteiro. Após 50 anos de poesia só aprofundei esta visão e sentimento de mundo: sou filho da poesia, acredito no mundo mágico dos nomes e das coisas, invento um mundo para viver: o menino ofereceu ao mundo suas maçãs mais ternas e, em paz, amanheceu.
O pai Rômulo era um jornalista, intelectual, diretor de jornal, vítima da ditadura Vargas. Desde pequeno nasci no mundo das palavras. Nossa casa era praticamente um centro cultural, com saraus aos sábados, tinha uma escolinha informal onde a minha irmã ensinava aritmética com frutas, os meninos decoravam textos de Rui Barbosa, Euclides da Cunha, Antônio Vieira; declamavam em cima do muro para o espanto dos passantes e vizinhos. Fui saudado ainda no berço com um poema pela irmã Vitória. Com 13 anos eu e meus irmãos, incentivados por papai, escrevemos um livro sobre caçadas na África. Imaginem, matei 14 leões, hoje, por ironia da vida sou vegano. Mamãe era dona de casa, como se dizia na época, era a rainha do quintal, conversava com os bichos, com as árvores, cantava boleros, guarânias e tangos, enquanto lavava a roupa, estendia-as para quarar, fazia pães no forno naqueles invernos chuvosos. Pai palavra, mãe quintal. O pai tinha Homero, a Ilíada no seu coração de palavras, e romanos na língua. Lá pelas tantas dizia: “In vino veritas!” e “Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra“, discurso de Cícero em 63 a.C. E assim nascia a poesia e a criação de mundos encantados.
Sem dúvida, a poesia capta o sensível, o invisível, o submerso, o não-dito. Revela um mundo e cria outro. Freud dizia que por onde tenha passado, um poeta chegou antes. A poesia é uma forma de compreender o mundo além dos limites da matéria e do olhar curto que temos na pressa e na racionalidade do cotidiano. Quando desregramos os sentidos, como dizia Rimbaud, estamos entrando no mundo poético. A poesia é modo de não esquecer, de celebrar a vida, de reencantar a palavra e a vida. Nesse sentido registramos nossos afetos e mantemos viva a nossa herança de seres vivos.
Em 1976, quando lançamos 4 Poetas, foi um momento importante para a literatura e para a poesia. Anos de chumbo. O cotidiano era a resistência. Sofri muito sendo preso e torturado pelos militares do DOI_CODI do Rio de Janeiro, passei fome, frio, fugindo da polícia, quatro irmãos presos, a mãe e a irmã ameaçadas, isoladas por boa parte dos parentes e vizinhos. Era um tempo duro, tive 10 companheiros assassinados pela ditadura. Era isso que vivíamos. Recebi um prêmio num concurso realizado pelos presos políticos da Ilha das Flores, no presídio dos fuzileiros navais. Tudo isso, porque nunca peguei em arma, mas a minha palavra tinha força poética e política. Em 1976 um poema meu foi censurado na Tribuna da Imprensa, no Rio de Janeiro. A vida era a resistência. Como que os poemas seriam diferentes? A minha alma sangrava, o corpo sentia os eletrodos cavalgando nos neurônios, os sonhos eram de tortura. Os poemas falavam muito do tempo, mas não eram manifestos políticos, tínhamos um compromisso com o lirismo, com a beleza da palavra poética, com ritmos e musicalidade da poesia. Foi um momento mágico, foi a minha sobrevivência psíquica. Passei a acreditar na frase de Dostoiévski, “a beleza salvará o mundo”. A Cooperativa rompeu um silêncio literário do Paraná, fui publicado em páginas nobres da Folha de São Paulo, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil, revistas e antologias no Brasil e no exterior; agregamos escritores de todo o país, recebíamos, convites para antologias, para entrevistas e debates no Brasil inteiro. A poesia fortaleceu o campo da resistência sendo poesia e não um álibi para a atividade política. Tenho imensa honra de ter criado, junto com os escritores citados, este movimento da Cooperativa de Escritores, talvez a primeira e única cooperativa de escritores do país.
Estou com um livro em edição denominado Poemas quando Exílio, o exílio que vivemos dentro do país, poemas escritos durante os 21 anos de ditadura. A poesia não tem limites, lugares, temas pré-definidos. É certo que os poemas políticos têm facilidade de virar panfleto, literatura sem encantamento. Muitos poetas consagrados praticaram poemas assim em sua obra: Neruda, Moacyr Félix, Ferreira Gullar, Drummond, o próprio Maiakovski etc. Mas tem poemas políticos antológicos destes mesmos poetas. A poesia é um lugar muito generoso da alma humana. Depois da ditadura a minha filosofia de vida e a minha visão de mundo mudaram muito. O meu mundo é o da diversidade: escrevo haikuazes (palavra que criei para dizer que faço poemas com espírito de haicais, mas não são haicais, pois estes nascem de um contexto cultural do Japão e têm uma forma própria). A maior parte da minha poesia é livre, com musicalidade, aliterações, assonâncias, mas não com métrica rígida. Escrevo sobre a minha condição existencial, o desafio de ser de carne e osso em um mundo embrutecido, sobre o sagrado e o profano, sobre o drama de querer a beleza num mundo insano, sobre o amor, a solidão, a precária condição humana. Criei uma coleção denominada Potlach (doação, na língua indígena americana) para doar os meus livros. Poesia não deve obedecer a lei da oferta e da procura, do mercado; poesia é recebimento e dádiva. Esta coleção – já saíram cinco volumes – é feita para doar, não está nas livrarias e nem perdida nas estantes. Ela deve circular, o livro deve ser “esquecido” em qualquer lugar – é a proposta mais gratificante da minha trajetória como poeta.
Morei em São Paulo durante 42 anos, fui professor universitário na PUC (diretor de Instituto), na Faculdade de Artes da Faap e na Universidade Metodista, onde ajudei a criar um curso de mestrado em políticas culturais. Criei institutos, associações e movimentos culturais, publiquei mais de 50 livros de poesia e cultura. Depois de tanto tempo é difícil me adaptar em outro lugar, embora tenha nascido em Curitiba. Participei ativamente da vida literária e cultural de São Paulo, criei com o poeta Pedro Garcia (RJ) a Rede Mundial de Artistas, estive em eventos poéticos e culturais em mais de 30 países de todos os continentes. Estou ainda me adaptando ao clima, ao humor e ao modo de vida ensimesmado do curitibano. Mas sei que o paraíso está dentro de nós, fora é o teatro dramático, é a vida ilusória da pressa e do individualismo. Busco a poesia da palavra e da vida. Busco o mundo do bem viver com as poéticas mais generosas da vida.
Ficha bibliográfica
Quintares, de Hamilton Faria, com 84 páginas. Livro estruturado em três blocos (Memória de frutos, De mães e águas e Hoje ontem). Ilustração de capa de Rogério Dias; design editorial e ilustrações internas: Érica Dubena Nagorski; capa: Carlos Garcia Fernandes; Coordenação editorial: Daniel Osiecki.
Curitiba: Vespeiro, 2026.
Trechos
quintais
(pág. 14)
cedo aprendi a poesia dos quintais:
o sol no zênite era meu e dos telhados
a chuva tinha a memória dos meninos e brincava
o pinheiro sentia dores quando descascado
vizinhos se debruçavam nas tardes a ouvir mãe cantar Júrame
a voz de capinzal
a cadela violeta tinha ternuras de mãe
pai penteava os cabelos antes de dormir para conversar com os anjos
bêbados loucos e animais falavam a língua das crianças
pitangas sentiam-se felizes quando as apanhávamos maduras
as roupas riam no varal naqueles invernos de sol
no espelho com mamãe
(pág. 55)
mãe tinha medo dos espelhos
pois mostravam a face o poço
e da vida o gosto o desgosto
no espelho sempre habita monstros
a cruel vida presa: o sonho o medo
e destampado ali o não caminho
a face triste coração que não existe
a vida mentirosa diz que sim
o espelho diz o que não — o inverso oculto
o que passa o finito a solidão
paiterno
(pág. 74)
não devolverei o olhar do pai
daquela noite de despedida
ficou comigo o triste ontem
as horas dolorosas
a frágil sina
que jamais consola
mas faz inventar
outros destinos
olhar no espelho iludido
e ver outra criatura
Textos e edição: Adriana Sydor
É jornalista, cientista cultural e escritora. Doutoranda em Ciências da Cultura, atua também como editora, curadora de projetos artísticos e professora de escrita | www.milcompassos.com.br.