
Em Viagens fantásticas, pesadelos cruéis Dédallo Neves reúne poemas que percorrem diferentes dimensões da experiência individual e coletiva. Organizado em cinco seções, o livro aproxima relato autobiográfico, memória familiar e reflexão sobre arte, articulando episódios concretos da vida cotidiana com referências literárias e culturais.
A resenha apresenta um panorama da obra, destacando sua estrutura, os principais núcleos temáticos e os procedimentos de linguagem que atravessam o conjunto dos poemas.
Ficha bibliográfica
Viagens fantásticas, pesadelos cruéis, Dédallo Neves, com 92 páginas, 5 seções.
Editora: Angela Ramalho, preparação e capa: Eliane Arruda. Maringá: A.R. Publisher Editora, 2024.
Sobre Dédallo Neves
Dédallo Neves tem 33 anos, é escritor, professor e doutor em sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Publica contos, crônicas e poemas em antologias e revistas desde 2013. Foi finalista do concurso Contos da Quarentena (Editora Kotter e Brasil 247), em 2020; seu livro Viagens fantásticas, pesadelos cruéis foi contemplado no prêmio Outras Palavras (Lei Aldir Blanc) no mesmo ano. Em 2023, publicou Minha bricolagem, Osvaldinho (poemas, Editora Urutau). Nasceu e vive em Curitiba.
Resenha
Entre o corpo e a linguagem: percursos em Viagens fantásticas, pesadelos cruéis
Adriana Sydor
Publicado em 2024, Viagens fantásticas, pesadelos cruéis reúne uma coletânea de poemas organizada em cinco seções. O livro estrutura-se a partir de núcleos temáticos que articulam experiência corporal, memória familiar, reflexão sobre arte e observação da vida cotidiana. A divisão interna orienta o percurso do leitor e estabelece diferentes campos de abordagem para a voz poética.
O volume abre com a seção Mais medos que perigos, precedida por uma epígrafe retirada do romance O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, em que menciona a sensação de lucidez extrema associada à epilepsia. A referência introduz um conjunto de poemas centrados na experiência da doença. Os textos descrevem episódios de crises convulsivas, quedas e momentos de perda de consciência. O corpo aparece como lugar de ruptura do controle e de alteração da percepção do tempo. Diversos poemas registram a duração mínima do ataque e o retorno gradual à consciência após a crise.
A experiência corporal é apresentada em ligação com situações concretas: deslocamentos pela cidade, permanência em espaços públicos e o contato com desconhecidos que testemunham o episódio. Em vários momentos o sujeito lírico descreve o momento da queda e a reação das pessoas ao redor. A memória do acontecimento aparece fragmentada, composta por imagens descontínuas, objetos perdidos ou deslocados e relatos posteriores de familiares ou conhecidos.
A cabeça no chão
O sangue pelos cotovelos
A palma da mão
A rasgar sem piedade
As pedras
Mesmo assim
Alguém me assaltou
Levou minha carteira
Eu era ali um indigente
Convulsivo
[…]
Era tudo branco em volta
Embaçado
Eu tinha a vista prejudicada
O bandido me chutou a cara
As mãos perderam
a sensibilidade
Eu era
o Bicho
o Excomungado
Aquele-lá-debaixo
A senhorinha viu e não fez nada
(Porque quando, pág. 18)
A segunda parte do livro, intitulada O artista venceu a arte, desloca o foco da experiência física para reflexões sobre cultura e produção artística. Os poemas dessa seção discutem a relação entre arte, tradição e público. Em vários textos aparecem referências a debates estéticos e a autores da tradição literária e filosófica europeia. O discurso incorpora menções a correntes culturais, reflexões sobre o papel do artista e observações sobre a circulação da arte em diferentes meios sociais.
Alguns poemas dessa parte utilizam procedimentos de intertextualidade. Um dos textos apresenta-se como resposta a um poema de Wisława Szymborska, reorganizando imagens presentes na obra da autora. O poema constrói comparações entre formas de organização social e estruturas observadas na natureza, utilizando imagens de insetos, enxames e organismos coletivos para pensar a relação entre indivíduo e sociedade.
[…]
Papel-ano-zero das luzes
Ninguém estava decidido sobre as cifras
Papel dos czares degolas e vacinas
Papel-opulento
Papel-nenhum pitada, já julgo o erro
Papel da força a ser usada na formação intelectual
dessa nova raça.
[…]
(137, pág. 34)
A terceira seção, Poemas de amor referenciado, reúne textos centrados em experiências afetivas. As relações amorosas aparecem associadas a lembranças, encontros e separações. Em vários casos, os poemas estabelecem diálogo com referências literárias ou culturais, aproximando episódios pessoais de textos da tradição literária. O discurso alterna fragmentos narrativos e reflexões sobre a memória das relações.
A sua língua
preenchia a
minha boca
nos debates
antigos
em que ambos
éramos derrotados
ainda que
gritássemos
verdades
inegociáveis
(s/t, pág. 52)
Na quarta parte, A poesia existe nos fatos, os poemas aproximam a escrita poética da observação de acontecimentos cotidianos. Situações comuns (conversas, deslocamentos urbanos, encontros ocasionais) são registradas e transformadas em matéria do poema. Os textos apresentam cenas breves e comentários sobre essas experiências, sugerindo a ideia de que a poesia pode surgir da atenção a eventos ordinários da vida diária.
[…]
como meu patrão é velho
estou ansioso pelo dia de sua morte
vou ficar pelas boas
mas como sou empregado sempre haverá outro patrão
para repetir as maldades
será́ um patrão a menos no mundo, torço!
Mussolini pelos pés
(É só um poema, pág.58)
Mussolini pelos pés
(É só um poema, pág. 58)
A seção final, A concretude do ser está na arte, retoma temas anteriores e os articula com reflexões sobre o próprio ato de escrever. Os poemas discutem a relação entre experiência pessoal e criação artística, aproximando vida e linguagem. O sujeito poético comenta a atividade do poeta, a construção do poema e o modo como a arte pode reorganizar acontecimentos vividos.
Criou aquilo que gostaria de ter vivido
A ilusão que bate nos desvalidos
Não é bem verdade tudo o dito
Dos desejos escritos
É uma história daquilo que foi
e não que poderia ter sido
[…]
(Daquilo que poderia ter sido, pág.80)
No conjunto, Viagens fantásticas, pesadelos cruéis organiza-se como uma sequência de textos que percorre diferentes dimensões da experiência. A divisão em seções delimita campos temáticos específicos, enquanto a voz poética mantém continuidade ao longo do volume, articulando relatos pessoais, referências culturais e comentários sobre a prática da escrita. O livro foi publicado com recursos das políticas públicas de fomento à cultura, por meio da Lei Aldir Blanc, iniciativa que possibilitou sua edição e circulação. Ao mesmo tempo, o processo editorial apresenta alguns problemas estruturais, entre eles a ausência de participação direta do autor na etapa de preparação do livro, o que parece ter contribuído para certas inconsistências na organização final do volume.
Há também questões editoriais que acabam interferindo na recepção da obra. Embora o livro tenha sido publicado em 2025, a ficha catalográfica registra o ano de 2024, o que pode gerar dificuldades para a inscrição da obra em concursos literários que exigem correspondência entre data de publicação e documentação bibliográfica. Além disso, a edição apresenta diversos problemas de revisão e diagramação. Erros dessa natureza interrompem o fluxo da leitura em alguns momentos e deslocam a atenção do leitor para aspectos formais da publicação, criando um ruído que se interpõe à experiência dos poemas.
Sobre Adriana Sydor
Adriana Sydor é jornalista, cientista cultural e escritora, publicou seis livros entre poesia e crônica. Doutoranda em Ciências da Cultura, atua também como editora, curadora de projetos artísticos e professora de escrita.
Trecho
100 (pág. 9)
sou uma patologia
uma doença nervosa
com manifestações ocasionais, súbitas e rápidas
sou o distúrbio da consciência
consigo ver as cores do óleo fritando
e o prisma na água mansa
volto ao tempo, e paraliso nele
perco em três minutos
antes dou uma sova suasória e ardente
a água acalma a náusea no estômago
que fervilha por não aguentar minha pressão
não adianta, sou travosa
sou uma interpretação
a invasão no corpo
um touro-mecânico
um touro espanhol
saltito, ricocheteio e galgo meu espaço
tremeleio, tremelico.
sou tremeluzente
sacudo as arestas da alma
dou uma trepada animal
são três minutos
sou ligeira
saio, deixo rastros
e lego a incerteza da minha volta
—-
Daquilo que poderia ter sido (pág. 80)
Criou aquilo que gostaria de ter vivido
A ilusão que bate nos desvalidos
Não é bem verdade tudo o dito
Dos desejos escritos
É uma história daquilo
que foi e não que poderia ter sido
Como percebeu-se
Mudanças e assuntos
não concluídos
Cozinhas que conversam
Cenários de épocas
Louças não envelhecidas
Troca-as para renovar o ar
São como as ideias
De grupos
De livros
De teorias
De amigos
Inventou para consigo soluções
estarrecedoras à satisfação
das vidas que gostaria de ter vivido
O lixo está cheio de ideias velhas
Pelas metades
A flauta
O frasismo
O poeta
O teórico
As revistas e os livros
O samba
Composições
O estrangeiro do mundo
O estrangeiro de Camus
Todas estão num lixo que tenta transformar em livro
Um livro das coisas que gostaria de ter vivido
Do Gabriel García Márquez que gostaria de ter escrito
A lata está cheia
A lua também
Dentro de si
Tem uma narrativa imensa
Onde está?
Precisa cavar
Lâmina 10
Abrir o peito e arrumar o coração
Cateterismo
Se estiver mal
ponte de safena
O problema é mais profundo
Como as ideias
Daquilo que poderia ter sido
As ambivalências dialéticas
Entre o ser e o nada
Por sê-lo permite desenhar qualquer pintura
Está justificada a criação do que gostaria de ter sido
A partir do ontem contou o futuro da sua vida
Maravilhosa e divina
Subversiva
Numa ebulição de álcool sem ressaca
O silêncio da escrita
Nos botecos
Na rua
Um amor eterno
Os filhos
O jardim
A sarjeta
Brigas literárias rendidas a socos e pontapés
Entrevistas
Querem saber o que tem a contar e tem muito
Coisas daquilo que poderia ter sido
A lata engorda
Tentou outro dia afundar o lixo
mas de tão cheio não afundava
O saco rasga e pinga por debaixo
Deixará uma marca até chegar à lixeira
O rastro mostra que por ali passou um lixo
Não se sabe o quê
nem de quem
É um dos problemas enfrentados
Pelos condôminos
Pelos fracassos
Pelos poetas
Embora saibamos:
Ali jaz uma ideia
Jazeu
já era
Entrevista
Um dia eu fui encontrar a minha companheira na estação-tubo do Passeio Público. Enquanto ela não chegava, eu fiquei pensando que precisava de um tema para escrever. E a epilepsia surgiu como um tema, não como um texto, não como uma ideia. Apenas o tema. Isso faz uns dez anos. Disso para o salto em matéria poética, foi mais um tempo. Durante a pandemia, em 2020, eu fazia parte de um grupo de pessoas que se reunia para escrever e nós criávamos desafios de escrita como exercício, e um deles foi escrever sobre tecnologia. Escrevi o poema “Porque quando”, que tem a parte que falo de “apps de saúde”, foi como consegui concretizar o desafio; e o primeiro texto em que senti o impacto daquilo que era experiência em texto.
Hoje, olhando em perspectiva, vejo que não é um livro de uma forma coesa, com um diálogo interno próprio. É mais uma reunião de poemas que escrevi durante um período de tempo e que dialoga com diferentes partes de um eu. É a expressão do caos da realidade que somos enquanto sujeitos.
Na verdade, escrevi Viagens antes de Bricolagem. Mas, por problemas de organização da Secretaria da Cultura, este livro saiu apenas no ano passado e com registro de 2024 (Viagens fantásticas, pesadelos cruéis foi financiado pela Lei Aldir Blanc via Prêmio Outras Palavras de 2020). Ainda assim vejo que algumas coisas permanecem, como o olhar para a rua e a tradução em texto, algo próprio da crônica que levo para poesia. Tem também uma ironia que se confunde com uma raiva e vice-versa, e às vezes é só uma ou só outra. Agora, por outro lado, com Viagens eu não sabia como montar um livro. Com Bricolagens também não, mas já sabia o que não fazer e aí tentei pensar num livro que tivesse um fio-condutor, o êxito da proposta é outra história. Em Viagens juntei os poemas que gostava, que outras pessoas gostavam, acumulei um número.
Sobre a circulação, é um processo complicado, porque não é papel de escritor fazer circulação de livro. O livro é antes de tudo uma mercadoria e assim se insere na dinâmica. Dessa maneira, há agentes responsáveis por isso, ou seja, a editora. Mas também compreendo que poucas são as editoras que se prezam a pensar na circulação da obra e esse trabalho acaba ficando a cargo do próprio autor. Por isso, a maioria das editoras hoje (tirando as grandes) age em duas frentes, ou sendo uma espécie de gráfica; ou focando em editais públicos. Quando este último é o caso, há uma série de obrigações que fazem o livro circular ou dão a falsa sensação de circulação, como a distribuição em bibliotecas públicas do estado e outras ações.
Agora tem uma outra coisa também, o tempo do livro é diferente, às vezes demora para ter o encontro com os leitores, pois mesmo quando há lançamento e as pessoas vão e compram seu livro, o que é um momento muito prazeroso, você só vai se encontrar com o leitor mesmo quando ele ler, e aí você pode ter a sorte de ele te falar o que pensou e o momento de troca ocorre. Mas para isso, precisa de um pouquinho mais de paciência.
Considero o projeto gráfico interessante. Acho que a Biblioteca Pública acertou em fazer um projeto único. Mas como houve um edital complementar para contratar as editoras para executar a edição, ficou a cargo delas o cuidado com revisão e diagramação. E, diferentemente do meu outro livro, eu não recebi nenhum comentário da revisão, e me surpreendi com uma porção de erros tanto de revisão quanto de diagramação, erros que foram, inclusive, adicionados. Meu nome está escrito errado na ficha catalográfica!!! O título tem duas versões: na capa há vírgula, na folha de rosto, não. Além de vários erros de quebra. Tudo sintoma de um trabalho feito sem a atenção necessária.
Não conversei com outros autores, mas no meu caso fiquei muito desgostoso com a editora e com a Secretaria de Cultura, que deu o aval.
Serviço
Viagens fantásticas, pesadelos cruéis | Dédallo Neves
A.R. Publisher Editora
Disponível gratuitamente em livro digital: