Trecho de Grito Distante, novo romance de Bruno Nogueira

Ilustração: J. Lamarca

Em Grito Distante, Bruno Nogueira recria Curitiba como palco e personagem. A cidade aparece em ruínas e em delírio, atravessada por memórias, ecos musicais e fantasmas noturnos, ao mesmo tempo em que se impõe como matéria viva para a imaginação do narrador.

No trecho que publicamos, o leitor acompanha uma deriva onírica pelas ruas e bares da capital paranaense, até o encontro com a estátua do Cavalo Babão. Entre ruídos invisíveis e lembranças sensoriais, o texto convoca uma Curitiba simultaneamente íntima e espectral. Entre sonho, memória e testemunho, Bruno Nogueira redesenha Curitiba como uma cidade múltipla, ora etérea, ora brutal.

O Cavalo Babão

Às vezes, quando caminhava, me desviava do trajeto rumo ao supermercado ou outra necessidade qualquer, e passava pelo Largo, pela São Francisco, pela Trajano, lugares que gostava de frequentar e que agora ganhavam a importância das coisas ausentes na República Fantasma de Curitiba. Acho que foram esses pequenos passeios e pensamentos que motivaram um sonho estranho que tive. Era uma noite intensamente iluminada pela lua, e eu andava por uma Curitiba invadida por musgo, fuligem, sob um calor que uma chuva flutuante compensava. Subia pelas ruas e bares conhecidos, destruídos, e tive a impressão de que havia alguém nas construções, mas aos poucos percebi que não: era só um tipo persistente de eco. O Laboratório estava deserto, decrépito, mas ao passar em frente eu ouvia o som de forró, de choro, de bossa, vozes sobre as outras, incompreensíveis, como se uma festa invisível acontecesse; em frente ao Purple Reis vazio eu ouvia o jazz, e os músicos excitados puxando palmas uns para os outros antes que a plateia pudesse. Nas esquinas iluminadas por lustres antigos e repletos de teias de aranha, ouvia o psiu de prostitutas invisíveis e a voz etérea de moleques oferecendo verde ou raio. De um segundo andar me chegavam vozes esganiçadas num karaokê. Sentia o cheiro de cigarros e baseados fumados na calçada, e segui até chegar no lugar que, no sonho, era o topo da rua: a fonte em que ficava a estátua do Cavalo Babão, um bloco retangular de pedra atravessado pela imagem distorcida da cabeça de um cavalo, que babava água como o anjo de uma fonte antiga. Até então, nunca entendera ou tentara entender aquela estátua, mas no sonho, era como se eu a sentisse. Sentia a agonia, a dor daquela imagem, e sabia que não tinha sido feita por um escultor: o espírito do cavalo, aprisionado na pedra e desesperado com a própria imobilidade, deformara a pedra ao longo de décadas, até que ficasse visível a alma que se escondia ali dentro. Era natural a loucura de um cavalo impedido de correr. Eu tinha medo e admirava aquele cavalo, que continuava buscando nudez e fuga mesmo preso como estava, e decidi que mostraria a ele meu sentimento, minha empatia. Sei que todo cavalo é selvagem e arisco quando mãos inseguras o tocam, então respirei fundo, reunindo coragem. Tirei minhas roupas, deixei-as na beira da fonte, e entrei. A água, quente como sangue, me encheu de ainda mais ternura por ele, e a atravessei a passos lentos, fazendo ondular o reflexo da lua. Quando toquei a cabeça do cavalo, um arrepio forte, quente e líquido me atravessou, e senti o poder escondido na vibração daquele corpo invisível. Encostei minha cabeça na dele, fechei os olhos, e ouvi, por trás do ruído da água, o som de um trote calmo e poderoso.

Foto: Marina Scalon (@scalonmarina)
Bruno Nogueira
Bruno Nogueira é um escritor e tradutor nascido em Lagoa da Prata (MG). Em Curitiba, estuda a literatura de David Foster Wallace num Doutorado em Estudos Literários pela UFPR, sob a orientação de Caetano Galindo. É autor da coletânea de contos A Síndrome do Impostor e do romance Grito Distante.

Serviço

Grito Distante, de Bruno Negueira, 192 páginas.

Curitiba: Kotter Editorial, 2024.

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