Por Adriana Sydor
O escritor, músico e roteirista Flavio Jacobsen voltou a agitar a cena cultural curitibana com o lançamento de Passo Bacana – Uma Viagem pelo Universo da Cultura Pop, publicado pela Kafka Edições. A obra reúne textos que atravessam décadas de arte e entretenimento, conectando música, cinema, literatura e outras expressões com a ironia e a elegância que marcam a escrita do autor.
O evento de estreia, realizado em Curitiba, teve o clima de celebração: público lotado, amigos reunidos e um entusiasmo que esgotou rapidamente a primeira edição. Mais do que uma coletânea de artigos, Passo Bacana propõe uma conversa aberta com o leitor sobre as referências que moldaram a cultura contemporânea — um convite à curiosidade, à memória afetiva e à descoberta.
Lançamento
Perfil
Foto: Mario Augusto
Flavio Jacobsen (Santos, 1967)
Flavio Jacobsen nasceu em Santos, 1967, e vive em Curitiba desde a infância. Trabalha como redator, assessor de imprensa e roteirista. Artista de rock, integrou diversas bandas do cenário pop rock da capital, com destaque para o Gruvox, supergrupo que liderou entre 2003 e 2016, em quatro álbuns. Publicou “Uns Contos no Bolso” (Kotter, 2015). Foi diretor artístico, redator e apresentador na Rádio Cultura entre 2017 e 2018. Está em fase de finalização o livro de receitas de família intitulado “Espicula de Rodinha”, com receitas de sua mãe Silda Jacobsen e ilustrações do seu irmão, o cartunista Marco Jacobsen.
Tenho um apego pela narrativa curta desde sempre, involuntariamente. Tomei consciência estética acerca disso quando li “Crônicas de Motel” (1983), de Sam Shepard, uma coletânea de textos deste escritor, dramaturgo, roteirista e cineasta que admiro sobremaneira. Este livro foi editado no Brasil pela LPM, e não foi pensado como uma obra, dado que é uma seleção de textos. Meu contato com a obra se deu no final dos anos 1980, começo dos 1990, por aí. Eu já cometia textos artísticos e me encontrei na narrativa do norte-americano. Mas logo percebi que já tinha referência anterior na narrativa mínima, com Paulo Mendes Campos, Dalton Trevisan, Roberto Drummond (este me pegou na cultura pop primeiro, com seu “A Morte de DJ em Paris”, de 1975), também particularmente o Hemingway de “Paris é uma Festa”, Luis Fernando Verissimo, Rubem Braga, o Leminski dos “Anseios Crípticos”, entre outros cronistas, articulistas e contistas.
Ou seja: quando tomei, digamos, ciência da existência de um “gênero” (aspas por minha conta) de narrativa curta, eu já o praticava de alguma forma. Hoje posso dizer que é contingencial. Depois que a gente começa a viver de escrever, e atende por encomenda todo tipo de demanda, entra naquela seara do “o que vier eu traço”. Mas sim, dá pra dizer que é parte de uma energia pessoal, verdade. Acho que a brevidade é minha amiga.
E sim, tenho romance em curso, e tenho escrito contos cada vez mais longos, eu diria. Há um livro novo com o título provisório de “Vurmo de Som e Fúria”, nome de um dos contos (já publicado no jornal Cândido nº 147 de fevereiro de 2024). Trata-se de uma série de narrativas que tem como temática a música erudita — orquestras, solistas, maestros, ópera, tenores, etc. —, e as histórias (a exemplo do meu “Uns Contos no Bolso”, de 2015) se interligam, como numa colcha de retalhos. Os contos são um tanto mais longos que aqueles do meu primeiro título. Mas tudo isso é involuntário. Aconteceu assim.
Quanto às narrativas sobre cultura pop, incluídas neste “Passo Bacana”, de 2025, tratam-se de artigos publicados na minha coluna em ambiente de imprensa, com temática acerca de livros, discos e filmes, basicamente. Por ser uma coluna, naturalmente a extensão é curta. Mas nem tanto. Há artigos que considero longos, para os meus padrões, talvez (risos).
Este livro é fruto de trabalho, remunerado e periódico (semanal), algo que até então — apesar de minha já longa carreira como autor, roteirista, redator e jornalista — ainda não havia acontecido comigo. Não com periodicidade, digo. Dá pra dizer que o livro saiu por absoluta impossibilidade de não acontecer. É uma celebração, um luxo, reunir o que foi considerado o suprassumo do que escrevi no período que fui pago para escrever.
De início, ante a insistência de amigos, leitores e editores para que eu publicasse uma reunião dos artigos, fui um tanto avesso à ideia, confesso. Mas logo cedi. O resultado me impressionou. E, de fato, é um sucesso. O livro está vendendo muito bem, e o pessoal da editora vai precisar levantar novas e maiores tiragens.
Está sendo ótima a experiência.
Foi da maneira mais popular, natural e comum que sói acontecer: lendo. Gibis, revistas, jornais, livros. No meu fabulário pessoal, acho que desde que descobri, de alguma forma, que os livros “não nascem em árvores”, ou nas livrarias, ou banquinhas, a revelação de que alguém escrevia aquelas histórias me foi definitiva. Sempre adorei a figura do autor. Especialmente os mais fuleiros, estes de livros de bolso (minhas primeiras leituras, depois dos gibis), autores de novela, sob pseudônimos, etc. A ideia de um editor furioso ligando e cobrando o sujeito uma história que está atrasada, sempre me fascinou. Sou fascinado pela chamada “baixa literatura” (termo controverso, né?), pois no fim das contas, em quase 100% dos casos, é ela quem iniciou os grandes leitores, e por ventura autores futuros e profissionais da escrita em geral. Ninguém começou lendo “Guerra e Paz”, na boa.
Quando comecei a trabalhar, eu já escrevia artisticamente. Foi natural me transformar em um redator.
Gosto de escrever a partir de uma ideia pronta, que posso estar amadurecendo há dias, meses, às vezes anos. Nem sempre isso é possível — a ideia pronta —, pois sempre estamos lidando com emergências, prazos, mudanças de planos, dinheiro, tempo e, especialmente, pessoas e situações confusas. Quando acontece, é perfeito, e tudo flui.
Quanto ao “quando”, meu período favorito é pela manhã, depois de uma noite bem dormida, uma pedalada no parque e uma boa hora de academia (faço musculação), um bom café reforçado, com bacon, ovos, pão integral e suco de laranja, lá pelas 9h30. Daí começo a escrever. Quando acontece, é perfeito. Mas essa conjunção de fatores é mais rara ainda que a “ideia pronta” (risos).
O Passo Bacana vai se realizar em lançamentos onde for possível. Bate-papos estão sendo agendados na UFPR e alguns eventos e feiras literárias. Devem acontecer tardes de autógrafos no eixo Rio-SP, e também em Londrina, ainda a confirmar. É um livro que rende neste quesito: boa conversa, pois ele é fruto de conversas infindáveis em mesas de bar, pátios de colégio e faculdade, rodas de amigos ao longo de décadas, essa divisão do conhecimento acerca das artes todas, enfim.
Sim, está no forno um livro de receitas de família, com histórias que têm como pano de fundo a gastronomia e causos diversos, a partir das receitas de minha mãe, a professora Silda Jacobsen, ilustrações do meu irmão Marco Jacobsen e textos meus. São crônicas, com as receitas inseridas na narrativa. Um livro afetivo, nada profissional do ponto de vista culinário. Foi uma ideia que surgiu da minha amiga, editora e poeta Luana Vignon em 2019, pouco antes da pandemia de covid-19, quando estava em São Paulo em um pequeno convescote com ela. Veio a pandemia e tive de voltar a Curitiba, no início de 2020.
De retorno ao velho seio familiar, a feição do trabalho se deu de forma serena e tranquila, dada a companhia da mãe, de quem tive que cuidar no período, como aconteceu com tanta e quase toda gente ao redor do mundo. O nome do livro é “Espicula de Rodinha”, um velho termo caipira que minha avó materna proferia sempre, quando ficávamos crianças em torno dela na cozinha, atazanando. Significa “conversa fiada, encher o saco, troça, bobagens”, algo assim. O livro está pronto há dois anos, já. E desde então está na mão do desenhista, o que significa ainda mais demora em sua conclusão (risos). Espero ver pronto em 2026.
E vem aí o “Vurmo de Som e Fúria”. Devo concluir neste verão. O romance vai demorar, creio. A maldita “ideia pronta” muda toda hora.
Ficha bibliográfica
Passo Bacana – Uma Viagem pelo Universo da Cultura Pop, de Flavio Jacobsen, 250 páginas. Foto de capa de Gianluca Sandrini, projeto gráfico de Paulo Sandrini , diagramação de Luciano Popadiuk. Editores: Daniel Osiecki e Paulo Sandrini. Curitiba: Kafka Edições, 2025.
Trechos
Roqueiro velho é algo novo | pág. 81
Se olharmos bem, veremos que o rock ainda não tem idade para gerar tanta controvérsia quanto a idade de seus fãs, que não escaparam das garras de Cronos.
O rock surgiu, no pau da goiaba, no limite, como o conhece- mos, em 1954. Um garoto branco do Tennessee, fanático pela música tocada na “zona proibida” de sua cidade, a então pacata Memphis, do outro lado do trilho de trem, resolve gravar um registro sonoro. Praticada pelos negros, a música que o garoto ouve é sinuosa, quente, sexy e envolvente.
Elvis Aaron Presley adentra as portas do estúdio Sun Records e sai de lá com um acetato, pelo qual pagou quatro dólares, emprestados de um amigo. My happines do lado A, Thats when heardaches begin no lado B. Pouco depois, gravaria Thats all right. E o mundo viraria de ponta cabeça.
Com toda controvérsia quanto à real origem daquilo que passou a ser chamado de rock’n’roll, é fato que ele surgiu naquela década, pouco antes ou pouco depois. E conta hoje com 70 anos. Mais ou menos.
Símbolo máximo da fúria juvenil, sem dúvida seu maior representante, o rock deu o tom e embalou as gerações futuras. A primeiríssima geração de Elvis, Bill Halley, Bo Diddley, Chucky Berry, Little Richards, Buddy Holly deu vez aos cabeludos Beach Boys, Beatles, Stones, Kinks, The Who, Led Zeppelin e Black Sabbath. Desde então, as “sucessões” são mais escassas, pois pouca gente largou o osso, vieram o punk e a new wave, depois a turma de Seattle e a new british invasion, e “aqueles” ficaram velhos. Nada mais natural.
Como é natural que muita gente fique impressionada com um fenômeno inevitável. Mesmo deuses como Mick Jagger e Paul McCartney já contam 80 anos. A geração que não confiava em ninguém e que tinha mais de 30 anos se vê com mais que o dobro da “idade-limite” imposta pela velha máxima e conti- nua embalando gente da mesma idade, ou mais nova, com os velhos três acordes.
Mais que isso, toda gente fica impressionada com o fato de muitos daqueles jovens rebeldes de outrora serem donos de posições conservadoras de fazer corar seus avós. Não neces- sariamente imbecis do tipo Ted Nugent, que, a bem da ver- dade, sempre foi imbecil. Mas sujeitos como Morissey e Johnny Rotten, tomando posição política favorável a Donald Trump e anti-imigração. Mesmo caso de Eric Clapton (reincidente, o que a internet não nos deixa mentir, já tomara posições idiotas no auge, em meados dos 1970s).
Não se trata de nada demais. O fato é que esse negócio de “roqueiro velho” é, na verdade, algo novo. Pode até não parecer, mas pela própria idade do rock como um todo, é natural que os primeiros “velhos” apareçam mais evidentemente agora, na última década. Apenas e tão somente pelo fato de antes disso o rock não ter idade para isso. Ainda. Mas como diria, nos 1970s, outro roqueiro cearense todo desiludido: “o novo sempre vem”.
Além disso, posições conservadoras, se formos cutucar um pouco mais fundo, não são nenhuma novidade. Elvis foi ao exército. Muita gente credita o “fim do rock” a esse evento. Voltou quase esquecido. Foi para Las Vegas ganhar mais dinheiro que antes e de lá amargurava, em seu quarto de hotel, o costume de colecionar (e usar, na prática) armas. É famoso o episódio no qual o “rei do rock” atira em um televisor. Mais: foi abertamente a favor de Nixon e da intervenção americana no Vietnã.
Para além do rock, Jack Kerouac agonizava em questões semelhantes a Elvis, vivendo com sua mãe, defendendo a moral e abertamente republicano. Os Hell’s Angels todos sabem, uma gangue roqueira e racista. E a coisa toda do southern rock e sua exposição de bandeiras confederadas, mais por folclore que por racismo, certo. Mas os “velhos costumes” conservadores estavam todos ali.
Sujeitos como este que vos escreve, que detesta música ele- trônica, podem ser considerados conservadores. Que tal? Vá lá, tenho todos os álbuns do Kraftwerk e agitei muito Depeche Mode, Erasure e Human League. Não é bem assim. O pro- blema sempre foi música ruim. Dane-se se ela é tocada por músicos ou “milhões de japoneses”, como aludiu a moça do Pato Fu certa feita.
Só saberemos a real de tudo isso quando o rock estiver real- mente velho. Vá lá, quando em 2056 aquele disco do Elvis (o LP, não os “compactozinhos” de 4 doletas de 1953/54) com- pletar um século.
Vamos deixar assim. Já que nada será como antes.
SERVIÇO
Para adquirir o seu exemplar de Passo Bacana – Uma Viagem pelo Universo da Cultura Pop, clique no botão abaixo: