Publicado em 1976, 4 Poetas reúne Reinoldo Atem, Domingos Pellegrini Jr., Hamilton Faria e Raimundo Caruso em uma coletânea marcada pelo compromisso literário e político da época. A reunião de vozes evidencia tanto a diversidade de estilos quanto a convergência em torno da denúncia social e do olhar atento ao cotidiano popular. Embora cada autor desenvolva percursos próprios, esta resenha se concentra na fatia assinada por Atem, como parte de um inventário de sua produção poética. Ainda assim, é no diálogo entre essas quatro vozes, distintas, mas afinadas pela urgência histórica, que se revela a força coletiva do projeto. Nos poemas de Atem, em particular, destacam-se a economia verbal e o modo direto de expor as tensões da vida urbana, os impactos da violência e a persistência da memória coletiva.
(AS)
Ficha bibliográfica
4 Poetas, de Domingos Pellegrini Jr., Hamilton Faria, Raimundo Caruso e Reinoldo Atem, com 69 páginas. Curitiba: Editora Cooperativa de Editores, 1976.
O livro foi impresso por meio de um financiamento coletivo, tem capa de João Urban e é dividido em quatro partes com espaços parecidos para cada um dos autores: Domingos Pellegrini Jr.: 4 poemas (sendo um bastante extenso) (pág. 3 a 15 | 12 páginas); Hamilton Faria: 11 poemas (pág. 19 a 34 | 15 páginas); Raimundo Caruso: 10 poemas (pág. 37 a 52 | 15 páginas); Reinoldo Atem: 13 poemas (pág. 55 a 69 | 14 páginas).
Resenha
Reinoldo Atem em 4 Poetas: cotidiano, luto e denúncia
O livro 4 Poetas, publicado em Curitiba em 1976, reúne textos de Domingos Pellegrini Jr., Hamilton Faria, Raimundo Caruso e Reinoldo Atem, que se organizaram para criar a Editora Cooperativa de Escritores. A editora independente foi fundada como alternativa à indústria editorial tradicional e como forma de resistência cultural durante a ditadura militar. Inspirada em experiências semelhantes, a iniciativa tinha como objetivo publicar tanto as obras dos fundadores quanto de outros escritores, constituindo um espaço autônomo de circulação da literatura.
A coletânea insere-se no campo da poesia brasileira da década de 1970, marcada por tensões entre experimentação estética e engajamento político. Nesse cenário, surgiram debates sobre a função social da poesia e os limites entre ética e estética. Um dos episódios mais significativos foi a polêmica travada entre os quatro poetas e Paulo Leminski, publicada em artigos no jornal O Estado do Paraná. Leminski criticou a predominância do conteúdo sociopolítico e a aproximação com a prosa, enquanto os autores defenderam a necessidade de uma poesia comunicativa, capaz de expressar vivências coletivas e denunciar desigualdades.
Enquanto coletânea, 4 Poetas contribui para compreender uma versão da literatura brasileira em que a palavra poética se propõe como ferramenta de resistência cultural e de intervenção social. Este texto se concentra na participação de Reinoldo Atem, parte final do volume, como parte de um projeto de inventário e reconhecimento de sua obra, sem com isso menosprezar a relevância dos três outros autores, cada um dos quais desenvolveria trajetórias literárias significativas nos anos seguintes. Atem dá continuidade, aqui, à temática já presente em seu livro de estreia, Dia de Trabalho (1974), aprofundando preocupações com condições de moradia, acidentes de trabalho, repressão política e luto social.
A seção de Reinoldo Atem reúne poemas que se articulam em torno da experiência popular e do cotidiano marcado pela precariedade. Textos como Ambiente e Lares descrevem com minúcia objetos, espaços e corpos, compondo um inventário de pobreza: tábuas soltas, pratos rachados, roupas gastas, dentes caídos. O espaço doméstico aparece em ruína, transformado em cenário de esforço físico e carência material.
Outros poemas deslocam o olhar para a esfera coletiva. Em Os Homens e A Noite, o poeta retrata grupos em deslocamento, trabalhadores que buscam ar, descanso ou diversão. A noite de sábado, descrita em dois momentos, mescla festa, música e corpos, mas também evoca alienação e desgaste. Em As Viúvas e Os Homens Empoeirados, Atem compõe quadros de violência política e repressão, nos quais trabalhadores assassinados deixam viúvas, órfãos e cidades devastadas. A linguagem é carregada de imagens de guerra e destruição, aproximando a poesia de um relato coletivo de perdas.
A denúncia da exploração no trabalho é recorrente. Acidente de Trabalho narra soterramentos de operários, enquanto Saque e Enganos expõem invasões, perseguições e fome. Em Curso de Aperfeiçoamento Profissional, o tom é de ironia, descrevendo um suposto treinamento de operário que naturaliza a submissão e a exploração, revelando um discurso crítico às relações de poder. Nos dois poemas intitulados Medicinal (I e II), médicos e instituições de saúde aparecem como figuras distantes e indiferentes diante da morte e da precariedade dos mais pobres.
A organização da seção não segue divisões temáticas rígidas, mas há recorrência de alguns núcleos: o lar precário, a morte de trabalhadores, o luto coletivo e a crítica à exploração. A linguagem é marcada por descrições objetivas e imagens de forte impacto. Se por um lado a estrutura lembra a prosa documental, por outro, conserva ritmo e imagens poéticas, compondo uma tensão entre narrativa e lirismo.
A parte de Reinoldo Atem em 4 Poetas é representativa do espírito de engajamento literário presente na Cooperativa de Escritores. Seus poemas abordam diretamente as condições de vida e trabalho da população mais pobre, a violência política e os impactos da ditadura sobre a coletividade. A escolha de imagens concretas e um léxico cotidiano aproxima os textos de um registro documental, o que explica a crítica de Leminski sobre sua natureza prosaica, mas também evidencia a intenção de registrar, denunciar e preservar a memória de uma época.
Adriana Sydor é jornalista, cientista cultural e escritora, publicou seis livros entre poesia e crônica. Doutoranda em Ciências da Cultura, atua também como editora, curadora de projetos artísticos e professora de escrita.
Trechos
AMBIENTE
(p.55)
Dez tábuas soltas de pregos
canto apertado de sala
rachados pratos de louça.
Tanque de espuma e tijolos
capins de barro amassado
lama de agua e sujeira.
Suor de poeira nos braços
dentes caídos no copo
fracas lâmpadas no corpo.
Barriga escura e escaldada
unhas sujas e amassadas
rugas de ferro no rosto.
Crianças soltas no mundo
uma vida de pedreira
boca vazia de gosto.
Seis panelas na parede
anos de prego e esterco
tortas vértebras de esforço.
CURSO DE APERFEIÇOAMENTO PROFISSIONAL
(p.69)
O operário será treinado para a malícia.
Ele vai aprender a olhar com safadeza
para as pernas da mãe grávida
e a dizer bom dia para as barbas do patrão.
Ele vai aprender a gostar do umbigo da prostituta
e a rejeitar os beijos imutáveis da esposa.
O operário vai dizer que está satisfeito com a vida
só porque pode ir uma vez por ano ao cinema.
O operário vai dizer que a vida é muito boa
só porque pode andar livremente pelas ruas
quando dirige-se ao trabalho?
O trabalhador vai considerar a vida muito bela
apenas porque pode malhar com força sua bigorna?