Em resenha para Querela, Otto Leopoldo Winck analisa Suítes para relógio, o mais recente livro de poemas de Rodrigo Madeira – o poeta iguaçuense (Foz, 1979) vem construindo desde 2007 sólida obra poética.
A obra vem no formato digital, aberta aos interessados, e também pode ser ouvida em versão audiolivro (links abaixo).
Winck observa como o tempo estrutura a própria forma dos poemas, e registra o equilíbrio entre a densidade filosófica dos textos e o trato sensível do cotidiano, característica que aproxima a poesia de Madeira de uma reflexão afetiva e precisa sobre a vida e sua passagem.
Ficha bibliográfica
Suítes para relógio, de Rodrigo Madeira, com 70 páginas. Coordenação editorial:
Luiz Mauricio Bucholdz. Supervisão gráfica: Dyego Marçal.
Ponta Grossa: Arte Telúrica, 2025.
Resenha
O VIOLINISTA E O RELOJOEIRO
Otto Leopoldo Winck
Avesso às badalações da vida literária, com suas invariáveis fogueiras de vaidades, Rodrigo Madeira vem construindo, de forma pertinaz e consistente, desde 2007, com Sol sem pálpebras, uma das obras poéticas mais sólidas deste estado que, não obstante nomes como Dalton Trevisan e Paulo Leminski, insiste em permanecer provinciano.
Suítes para relógio, que vem a lume agora, é mais uma etapa dessa trajetória. Lançado pela editora Arte Telúrica, de Ponta Grossa, o livro foi premiado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, por meio do Edital Outras Palavras/Prêmio de Obras Literárias, no já distante e pandêmico 2020. No dicionário, suíte, entre outras coisas, é uma composição instrumental, que foi muito comum no período barroco. Aí já temos algumas chaves com as quais podemos adentrar no universo do novo livro do poeta iguaçuense radicado em Curitiba. De um lado, suíte (e barroco). Do outro, relógio: o instrumento criado para registrar e contabilizar o tempo. No primeiro caso a fluidez – o tempo que passa e a angústia por sua passagem, um dos temas caros ao barroco, dividido entre o céu (a eternidade) e a terra (a contingência e a efemeridade de todas as coisas). No segundo, o registro mecânico desse tempo que flui, intento humano não de reter esse fluxo mas de pelo menos dimensioná-lo.
Sabemos que a poesia – e a literatura como um todo – é uma arte do tempo, como a música. Já as artes visuais são constructos do espaço, ainda que tempo e espaço não raro se entrecruzem nesses dois conjuntos: um poema é também uma mancha gráfica numa página em branco, com suas estrofes e suas linhas cortadas, para não falar da poesia concreta e visual, que erigiu o espaço como um de seus princípios estruturais. Da mesma forma, o olhar se demora num quadro ou escultura, demandando tempo em sua fruição. Em Rodrigo Madeira, como em grande parte da poesia pós-concreta, o tempo retorna em todas suas prerrogativas, e junto com ele o verso, com sua “unidade rítmico-formal” e seus desdobramento “temporístico-linear”, para citar o manifesto que pretendeu encerrar/enterrar o verso. Na abertura do livro, o poeta já afiança: “O poema (como tudo na vida) / é feito de tempo.” No entanto, o tempo do poema, segundo Madeira, não é o mesmo dos marcadores temporais de nossa sociedade regida pelo mercado:
Mas o tempo do poema
não se vende
e não se compra,
não se empresta
e não se esmola.
O tempo do poema
não se conta (mas se canta),
não se cansa, esconso, escandindo-se
em suas cordas.
Todavia, como todo bom “pós-concreto”, Rodrigo não abre mão da consciência da “estrutura espácio-temporal” do poema, o que se percebe não só no corte preciso dos versos mas também em construções em que o espaço gráfico é decisivo, como se observa por exemplo na primeira parte do poema “O tempo e o artista”.
Mas Suíte para relógio não é apenas uma coletânea de composições executadas sob a batuta do tempo e do espaço. É antes de mais nada um conjunto organizado em torno do primeiro polo: o tempo. Nesse aspecto as peças aqui reunidas podem tanto ser vistas como espécimes enfeixadas por uma unidade temática quanto seções de um único poema: uma longa suíte fracionada em 34 pequenos movimentos. Aliás, Rodrigo já se mostrou mestre na categoria do poema longo, com Paraguay, de 2023.
Aqui, o tema do livro, que não aparece explicitamente no título, compõe todos os nomes dos poemas/movimentos: “O poema e o tempo”, “O tempo e o cão”, “O menino e o tempo”, “Meu tio e o tempo”, e assim por diante. Nesse sentido, não são apenas poemas “grafados no tempo” mas poemas que tematizam, muitas vezes filosoficamente, o tempo, como no belíssimo “Santo Agostinho e o tempo”:
Então, quando ele diz
que só sabe o que é o tempo
quando não lhe perguntam,
eu entendo perfeitamente.
E entendo que só haja o presente,
ou três tipos temporais de presente:
o dos fatos presentes,
o dos fatos passados,
o dos fatos futuros.
(…)
Resumindo:
tudo é feito de tempo, todo tempo é presente,
e o tempo presente, no fundo,
nem existe.
O que também, de certa forma, significa dizer:
este poema que acabo de escrever
nunca foi escrito.
Se suíte é melopeia, para falar como Pound, ou seja, poemas dotados de musicalidade, as suítes de Madeira, como se vê, também incursionam pela logopeia, isto é, também são “cosa mentale”, elaborada com “hostinato rigore”, para citar Da Vinci. Todavia, o poeta logra se esquivar de perorações meramente cerebrais. Mais do que um Monsieur Teste, de Paul Valéry, o sujeito poético de Madeira lembra mais o verso/axioma pessoano: “O que em mim sente está pensando”. Sua lira é perpassada pelo logos, seu logos é tangido pela lira. Confira-se, por exemplo, “O tempo e a filha”, tão delicado em sua apreensão afetiva do cotidiano:
Minha filha nasceu e
bagunçou completamente
os meus tempos.
Misturou minhas fotografias,
fez rabos com a gravata,
revirou minhas gavetas.
Misto de violinista (à la Chagall) e relojoeiro, Rodrigo Madeira compõe suas suítes de palavras com o encantamento de um e a precisão do outro. O Paraná pode ser uma província, e é, e Curitiba uma vila expandida, mas não na literatura – como o demostra, entre outros, Suítes para relógio de Rodrigo Madeira.
Otto Leopoldo Winck é doutor e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). É autor, entre outras obras, de Cosmogonias, Que fim levaram todas as flores, Forte como a morte e Périplo, com vários prêmios.
Trecho
UNS SOUVENIRS E O TEMPO
(pág. 27)
*
Até quando encontrar seus fios de cabelo
no meio dos meus livros?
*
Agora imagine uma caixa torácica de
bom tamanho acústica saudável onde pulsasse
bem- acondicionado
do
lado esquerdo do
peito
um baço
*
Outro dia mesmo, vadiando as gavetas, topei com uma de suas costelas.
O que um dia foi pra mim lua crescente, pente, bumerangue de marfim
(e – ainda – quantas vezes arco para violinos genoveses?),
hoje é só um souvenir de Timbuktu.
*
Depois talvez sorrissem, se um deles perguntasse, patético, aturdido,
na noite exumada:
“O único osso
que resta de nosso amor decomposto
é a lua,
essa mesma lua linda lá no alto?”
*
(Não que fosse aquela nudez o primeiro alumbramento.)
Você lembra?
Ali parados, o coração batendo, surrados
por uma corja de borboletas.
*
Não é o tempo, necessariamente. Não é da alçada dos relógios.
O vento
é que comove as árvores, despenteia o móbile das lembranças.
Serviço
Suítes para relógio | Rodrigo Madeira
Editora Arte Telúrica
Disponível gratuitamente em dois formatos: