Oito autores e nove livros na primeira

Luiz Alceu Beltrão
Rio plano: poesia reunida


Luiz Alceu Beltrão
. Rio plano: poesia reunida. Curitiba: LABEMOL, 2025. Poesia. 204 pág. Edição e revisão de texto: Adriana Sydor. Projeto gráfico: Guinski Art Design. Ilustrações: Luiz Antonio Guinski. Fotografias das ilustrações: Marcelo Almeida. Textos das orelhas: Paulo Vitola e Roberto Muggiati.

Beltrão reúne sua poesia escrita desde 1973 “eletrificado pelos trancos da geração ‘paz e amor’, caí[do] nas confrarias dos botequins, nas infindáveis discussões sobre literatura, música e liberdade política, mas sobretudo na instigante solidão da leitura”, conforme diz no prefácio. Sua poética transparece que está menos para o beletrismo e mais para o belitrismo: “Bebo faz tempo. / Quando comecei, o ‘Velho Barreiro’ ainda era menino”, reconhecível também no espírito trocadilhesco de botequim, de que Leminski foi rei: “Kama-Sutra” – “Nas noites mais quentes a nossa cama surta.”

Samantha Abreu
Os movimentos da cabeça


Samantha Abreu
. Os movimentos da cabeça. Londrina: Atrito Arte, 2024. Poesia. 90 págs. Ilustração: Carolina Panchoni. Revisão e prefácio: Renato Forin Jr. Capa, projeto gráfico e editoração: Marco Tavares.

Reunião de poemas e crônicas poéticas sob um viés feminista e existencial, em alguns pontos estabelecendo diálogo com escritoras como Virginia Woolf, Adélia Prado e Mar Becker. 

Antologia:

Pequeno Confessionário Admiratório

“Depende de tantas palavras o amor de um homem por uma mulher,
mas uma mulher ama a outra em silêncio.”
Mar Becker

Eu escrevo sobre mulheres para imaginá-las
majestosas e donas de seus corpos caminhando em direção a um pôr do sol, sumindo no horizonte dos sonhos.

Acho gentil a poética de seus ventres quando as trompas se transformam em galhos cheios de flores. Existe tanta beleza na anatomia das ancas arredondadas, uma arquitetura sutil dos desníveis.

Admiro a deformação de seus rostos quando se emocionam; me encanta a euforia de suas vozes e o silêncio de suas dores. São seres que não passam incólumes pela cerca viva e espinhosa da grade das próprias costelas.

São jeitos de quem aprendeu sobre os contornos das existências, quem enfrentou os desvios necessários das lâminas, quem sobreviveu aos abismos diários das pequenas mortes.

Eu escrevo sobre mulheres para descobrir os segredos do mundo.



Pequeno manual para ser espectro

Eu assisto ao meu espectro que se levanta
e vive,
que se levanta e vive,
como se ensinasse outros a serem espectros.
Eu escrevo um manual:

I

Sentar-se na frente do espelho e rasgar os poros com as longas unhas,
espalhar o sangue
que escorre.
Erguer as têmporas em direção ao sol,
então fechar os olhos no silêncio honroso da graça,
o milagre
do corpo que se integra: de si mesma
em si mesma
pois em si mesma uma
reciclagem:
autofagia da carne sendo engolida pelas cavidades de onde levantam os pelos.
Sentir calafrio, suor e,
finalmente,
desistir de resistir ao gozo.

II

Quando caminhar pela rua, não abaixar um pé ao
levantar o outro, fazer da levitação
o desfile
de um corpo translúcido.
Tirar os sapatos e esfregar entre os dedos uma poeira de luz, espalhar
o pólen dos poros, ser doador universal
de micro-organismos.
Andar como quem passeia por um bairro desertado,
ouvir
o ranger de janelas,
esperar o café das dezesseis horas em uma varanda qualquer.

Então sentar-se e sentir a matéria fixa das certezas inatingíveis.

III

Quando empalideço é como se todas as coisas que me encontrassem
de frente,
me atravessassem feito fachos de luz, clarões

é como se eu
fosse uma cortina de finas tiras transparentes
e qualquer rosto me encostasse
sentisse cócegas.

[veja como coça o nariz desse outro que me esbarra,
mas segue adiante
sem ser impedido pelos filetes de brilho]

Paulo Sandrini
Santa Bula de Todos os Remédios ou diário de um suicida


Paulo Sandrini
. Santa Bula de Todos os Remédios ou diário de um suicida. Curitiba: Máquina de Escrever, 2025. 96 págs.

Dedicado à memória de Manoel Carlos Karam, sua forma de escrita que mesclava senso de humor irônico, absurdo e surrealismo inspiram a escrita desse romance. Nele, Sandrini usa o artifício do gênero diário para desmontá-lo com a suspensão temporal abalada pelo vício contumaz de consumo de psicotrópicos pelo personagem narrador, ao mesmo tempo em que tripudia outro cacoete do contemporâneo, a “autoficção”, compondo um “diário de autoficção dos outros”. Romance escrito em forma de diário por um personagem narrador que é um escritor usuário compulsivo de medicamentos para transtornos, o personagem acaba enterrado e ainda falante no Cemitério Comala, remetendo ao cenário do clássico romance mexicano Pedro Páramo, de Juan Rulfo, agora em seu último purgatório literário: dentro de um túmulo em que chove torrencialmente e espremido por uma bananeira com a constatação surreal: “‘Será que essa chuva vai passar logo?’, perguntei. ‘Pelo jeito vai levar uma eternidade’, ela respondeu rindo” – ela, no caso, é a personagem Marta Tarma, “famosa escritora de bilhetes com mensagens de despedida para suicidas”. O livro termina, o tempo passou, mas a chuva existencial continua com a sensação compulsiva da goteira na cara… E nos deixa com a ressonância do nome da personagem Marta Tarma que é a protagonista vitimada pelas goteiras num túmulo, ecoando a semelhança com o nome da crítica e escritora argentina, que foi casada com o escritor Angel Rama, Marta Traba, morta num acidente aéreo junto com o marido e mais o escritor mexicano Jorge Ibargüengoitia, o escritor peruano Manuel Scorza e a pianista catalã Rosa Sabater no Voo 11 de Avianca, num Boeing 747, em 27 de novembro de 1983, quando iam à Colômbia para assistir ao «Primeiro Encontro da Cultura Hispanoamericana», convidados pelo presidente Belisario Betancur.

Luiz Rebinski
Um pouco mais ao Sul


Luiz Rebinski
. Um pouco mais ao Sul. Curitiba: Edições, 2016. Capa: Pedro Franz. Projeto gráfico: Alexandre de Mari. 216 pág.

Tendo por cenário um submundo curitibano pós-apocalíptico situado nos esgotos do Rio Ivo em que sobrevivem transviados de toda espécie, esse romance soa como um subproduto da indústria cultural de massa, relacionando-se, nisso, a séries, filmes, livros etc., e explorando a temática zumbi/terror e de violência em que sexo e drogas se misturam com naturalidade. Outra característica interessante é a de explorar aspectos da colonização polonesa no Paraná (“a polacada, gente ensebada”…) a partir de dois personagens poloneses que se relacionam com os dois personagens curitibanos que protagonizam o romance.

“Diante da recusa histérica do Noia em ceder aos caprichos da anfitriã, Vlad automaticamente virou alvo da mulher-homem. Ela, que era ele, disparou uma saraivada de beijos para cima de Vlad, que tentava se desvencilhar como podia das investidas.”

“Veja, minha senhora, eu e meu irmão realmente apreciamos muito este ambiente receptivo. E só posso imaginar que grande parte do sucesso alcançado nesta noite se deve à sua figura. Do bolinho alucinógeno, até os drinks aqui servidos, tudo, eu disse absolutamente tudo, estava divino.”

“Então, gostoso, vou te mostrar algo ainda mais divino. Vamos terminar a noite com chave de ouro, vamos lá para o meu bangalô, vou te mostrar que sou uma mulher de muitos atributos. Você vai se surpreender. Já saquei que você faz aquele tipo de intelectual de meia tigela. Pois bem, amoreco, tenho repertório para homens como você. Vou te mostrar os meus morangos silvestres, vamos fazer desta noite um verdadeiro apocalipse now. Vamos?”

Ricardo Corona
espero pelo fim desde o início


Ricardo Corona.
espero pelo fim desde o início. Rio de Janeiro: Mórula, 2025. Coleção Diabo na Aula. Org. da coleção: Carlos Augusto Lima e Manoel Ricardo de Lima. Projeto gráfico: Patrícia Oliveira. 88 págs.

O livro reúne um conjunto de poemas de formas e temas variados, destacando-se os sonetos iniciais (“serial” e “fáustico I, II e III”) em que se experimenta uma retórica poética, e os que exploram um tom apocalíptico (como “o mundo está cheio”: “tem mais poemas/ do que pessoas/ no mundo”) e, nessa mesma ótica, os que dão título ao livro, de cujo poema “e a manhã tropical se inicia”, transcrito a seguir, é exemplar dessa poética crítica. 

e a manhã tropical
se inicia

Torquato,
vivo com prazer
cada minuto do fim
é um privilégio
findar a vida
no final do fim
do mundo
que se iniciou
antes de mim
é um privilégio
saber que o planeta
seguirá sem nós
vivo, vivinho no ócio
com uma vasta
e exuberante
cabeleira verde

Ricardo Schmitt Carvalho
Geração zonza


Ricardo Schmitt Carvalho.
Lascas (1992-2002). Curitiba: Medusa, 2002. 88 págs. Posfácio: Marcelo Sandmann. Orelha: Luiz Roberto Guedes. Coleção Ruptura Réptil, dirigida por Ricardo Corona. Capa e projeto gráfico: Eliana Borges. Revisão: Angelo R. L. Zorek. Impressão: Gráfica Palotti.

Geração zonza – 50+ poemas sobre homens 50+. Curitiba: ed. do autor. 2025.100 pág. Posfácio: Luciana Martins. Orelha: Mário Henrique Domingues. Ilustrações: Cesar Marchesin e Karine Kawamura. Capa e projeto gráfico: Karine Kawamura – Lumen Design. Revisão: Jairo Rodrigues e Luciana Martins. Impressão: Gráfica Mult Graphic. Fomento: Lei Paulo Gustavo / Fundação Cultural de Curitiba.

Vinte e três anos após seu primeiro livro lascas, Ricardo Schmitt Carvalho publica o segundo: Geração zonza, quem sabe, com isso, mudando a pecha de desistente para poeta bissexto, dado o hiato expressivo entre os livros. Comparados, mantém-se no novo um senso de humor que já era cortante no primeiro, agora um tanto amenizado pelo fato de que os poemas atuais estão muito mais palavrosos, por isso perdendo o impacto antes constatado. Em lascas eram notáveis os poemas econômicos na linguagem: “anticristo // Olhai os delírios do campo/ de refugiados.”; “influenza // poeta douto/ fechou o soneto / com chave de outro”; “jóquei cru// hoje fui ao prado e vi/ montado em si/ cabeça de vantagem/ um poeta dar coices”.
Geração zonza, diferentemente daquele, tem um pendor, como assinalado, mais narrativo, que o aproxima de ser uma crônica temporal, interessada no registro da idade do poeta e sua geração, 50+, ou de seus pais, sendo logicamente irônico quanto a isso, como na série “Viver para sempre”, porém sem tanto investimento numa economia poética daquele lascas. Há mesmo um senso de humor blasé, algo entediado, com essa temporalidade redundante, repetitiva, cujo poema a seguir bem ilustra com a constatação anticlimática de um Sísifo “sem paciência de negociação”, “vai rolar tudo igual”.

dias difusos

o céu é cinza e respiramos
a atmosfera das nuvens

mas eros e tânatos pesados
dificultam qualquer movimento

vontade de morrer ou prazer
sem paciência de negociação

semideus bastante burro
aprisionado num corpo mortal

morro acima a pedra empurro
e vai rolar tudo igual

João Lucas Dusi
Madame Psicose


João Lucas Dusi.
Madame Psicose. Curitiba: Madame Psicose, 2025. Capa: Leo Marino. Design editorial: Carlos Garcia Fernandes. Leitura crítica: Rafael DeGuima.

Romance narrado na primeira pessoa por um personagem escritor na faixa de 30 anos que se acha gênio injustiçado e expele lamentações, loas sobre consumo de drogas, bebidas, cigarro, filmes vistos e literatura admirada de autores como Reinaldo Moraes, Marcelo Mirisola, André SantAnna, Sérgio SantAnna, David Foster Wallace etc., sendo primorosa sua autodefinição: “Porque se tem algo que aprendi, ao longo desta vida do caralho, é que sou tipo o Rain Man sem a parte do Savant, isto é: um puta retardado incurável.”

Felipe Teodoro
A dança do jaguar dourado


Felipe Teodoro
. A dança do jaguar dourado. Ponta Grossa: Lambrequim, 2022.
Rasgo. Ponta Grossa: Olaria Cartonera, 2022.

Todos os poetas têm o mesmo cheiro

Nos poemas de A dança do jaguar dourado predomina um tom existencialista que logo se constata até mesmo no título sugestivo, ao aparecer explicitado num poema, quase ao final, como sendo o jaguar a morte. Nessa toada, o primeiro poema tem por título a menção a um mural da morte, assim como o último é “epitáfio”, se poderia dizer que, nessas similitudes de lápides, com o jaguar os sombreia. 

Talvez, não por acaso, uma das palavras mais recorrentes no livro seja “Deus”, presente em numerosos poemas, ainda que a descrição desse ente mais poético que religioso seja diminuída em relação à sua versão bíblica porque representado de forma antinômica como nos versos “a vida/ é um bate-cabeça/ ao som metálico de um Deus louco”. Nesse deserto que é a vida sob o domínio desse Deus falível, rebaixado, sujeito à escatologia, dada sua impotência, “com a boca sangrando”, é de se crer que estão todos mortos: “mas todos nós mortos/ temos o mesmo cheiro”.  

Há algo de apocalíptico, de estresse existencial, nessa poética, com esse tom metafísico, certamente porque está remarcada pelo período pandêmico em que os humanos se transformaram em coveiros: “todo mundo coveiro mães pais filhos irmãos órfãos” e, logicamente, menores ainda que aquelas versões animalizadas do Deus que vão circulando pelos poemas: “ainda somos pequenos demais/ menores que formigas/ menores que grãos de areia”.  Esse aspecto já estava anunciado num livro anterior, Rasgo, composto com poemas dessa mesma característica existencialista distópica, em que a questão da morte é enfatizada e o “Apocalipse”, título de um dos poemas, assinalado: “é preciso estar preparado /… para a queda dos santos/ … pra escolher a nova direção/ da vida que o fim ressuscitou”.

E, quanto ao poeta, ele, “como o religioso acredita em Deus todo poderoso”, “acredita na poesia/ como a criança acredita em Coelho de Páscoa/ Papai Noel & Bicho Papão”. Deveria ser engraçado, porém o tom solene desse eu poético não dá brecha; patético, pois reafirma: “o poeta acredita na poesia/ como o condenado à morte/ acredita que tudo acabou” – “o poeta acredita e isso basta”. A idealização platônica da poesia sugere: acredita como a criança, acredita em Coelho de Páscoa, Papai Noel e Bicho Papão, acredita na poesia, esse tom anunciado do apocalipse, como um condenado à morte, mais uma em meio às centenas de milhares de mortos, porém morte ungida pela poesia, se é que isso a faça melhor, se é que isso faça salvar o poeta.

O poeta menciona a mãe que, em certo poema, diz: ‘ser homem, meu filho / no fundo não é nada, nada demais’. Embora ela se refira à persona masculina, essa referência torna-se secundária diante do senso metafísico que percorre o livro. Constata-se, assim, que ser poeta, tal como ser homem, não é ‘nada demais’, ainda que se cultive uma crença idealizada na poesia. Afinal, ‘a música segue tocando / acho que a vida é o disco / favorito de Deus’, e todos guardam o mesmo cheiro: o de mortos, diga-se por epitáfio. 

Sobre Ademir Demarchi

ademir_demarchi


Convidado da Querela para escrever mensalmente sobre as novidades das letras das Araucárias, Ademir Demarchi é poeta (ver os poemas reunidos em “Pirão de Sereia”), ficcionista, crítico literário, editou a revista Babel e importantes antologias da poesia paranaense.
Natural de Maringá (1960), Ademir vive com a família em Santos, SP.

Compartilhe