Em toda parte, a crítica costuma ser recebida a pedradas e, no entanto, muita falta faz a criteriosa crítica, especialmente na província, onde o menor reparo ainda pode ser tomado como afronta digna de rompimentos e inimizades. O que se segue, contudo, não chega a tanto; são notas soltas sem a pretensão de julgamento, simples aproximação e bosquejo de aspectos da paisagem literária ou mero borboletear pelas letras recentes em Curitiba e arredores.
Os sinos dobram por Reinoldo Atem
“É meu o coração de pedra na avenida!”
Reinoldo Atem, “Urbe Urge”

Os sinos dobram nas Araucárias por Reinoldo Atem, poeta de longo alento, autor de “Urbe Urge”; poema que está no centro da poesia escrita em Curitiba na última quarta parte do século XX e inícios do XXI; e que deverá integrar qualquer seleção do melhor aqui da terra. Aquariano de 1949, nascido em Teresina, no Piauí, o pai juiz, Reinoldo faleceu aos 75 anos, neste último julho, de causas não divulgadas. Sabe-se que desde gravíssimo acidente, décadas atrás, dirigindo uma Kombi, depois de noitada no bar da Mara, o Kapelle, ali na Saldanha Marinho, o poeta se resguardava, vivendo boa parte do tempo fora dos circuitos sociais e literários, em sítio ou fazenda da família. Uma sessão memorável de poesia, nas terças do Wonka Bar, lhe foi inteiramente dedicada, não faz muito, na sua presença, com a declamação do texto integral de “Urbe Urge” por Paulo Ugolini, professor e cantor lírico. Essencialmente poeta, Atem mostrou boa mão para a prosa de ficção, entre outros com o romance “1971” que evoca os tempos mais trevosos, arbitrários e violentos do regime militar, e também escreveu uma história da literatura curitibana como dissertação em programa de mestrado, creio que inédita. Deixou mulher, ex-mulher e filhos do primeiro casamento. Reinoldo Atem bem merece que lhe escrevam a biografia cheia de peripécias. Merece igualmente um inventário crítico e a reedicão de suas realizações em literatura. Para ler na íntegra o tempestuoso e profético ‘Urbe Urge”, ir no link reinoldatem.blogspot.com
Leminski aos oitenta virou paisagem
A celebração dos oitenta anos virtuais de Paulo Leminski, morto em 1989, ocupa minuciosamente as burocracias da cultura, como as do SESC e da Fundação Cultural, que prepararam performances para o final deste agosto não apenas em Curitiba como nas cidades maiores do Estado.
O poeta, que nos últimos tempos de vida não tinha muita certeza da próxima refeição, ficaria abismado se soubesse dos investimentos que se fazem em seu nome, alguns por sinal com resultados razoáveis em termos de nutrição e finanças pessoais para os poetas e ficcionistas palestrantes. Leminski, muito à sua revelia, tornou-se um poeta-instituição, com lugar no calendário permanente da cidade e agora também do Estado.
Em meio ao auê e à intensa lacração, inevitáveis quando se trata de nome absolutamente central da poesia brasileira dos nossos dias, será essencial que não se percam de vista algumas lições do autor de “Catatau”. Entre elas a de que a qualidade da nossa cultura e civilização depende, como questão de vida ou morte, da qualidade da nossa poesia, questão equivalente ao desenvolvimento da matemática e da pesquisa científica; o que pra ele significava também forte ênfase na renovação formal do poema.
As letras da província, um campo desarrumado
A poesia brota como olho d’água, dos que surgem nos quintais da cidade, inexplicavelmente. Ainda não inventaram a receita para o aparecimento dos grandes poetas. Mas já sabemos, contudo, da receita para que desapareçam, míngüem ou desanimem. Essa receita é principalmente o silêncio, a indiferença.
Sabemos dos problemas do campo literário na periferia dos sistemas. Entre nós, na falta de uma classe dirigente que em sua impetuosa marcha para o poder criasse as instituições que configuram uma hegemonia, no sentido de direção moral da sociedade, tudo se espera dos governos e das políticas públicas de cultura.
O mais curioso é que todas as instituições (ou instâncias) que poderiam constituir o campo literário estão presentes, sem que atuem propriamente na constituição de um campo literário ativo e operante. Lá estão os jornais, que poderiam resenhar a obra nova; os departamentos de letras, que deveriam criticá-la; as academias, que deveriam zelar pela tradição (para além dos patronos) e pelo corpo bibliográfico; as editoras, as livrarias, os circuitos de distribuição, o público leitor… Exceção dos esforçados agentes comerciais, tudo se passa como se as instituições existissem apenas pra inglês ver, simples miragens, mera fenomenologia ou jogo de aparências de um campo literário, sem que o essencial de suas funções se cumpra, a saber: 1. a recepção da obra nova; 2. sua apreciação crítica; e 3. sua integração a uma tradição. Os departamentos de letras, do ponto de vista da produção local, com exceções, gostam de chover no molhado. As academias não vão além de clubes para a congratulação mútua.
Dois efeitos também curiosos resultam dessa desarrumação (digamos) do campo literário nas sociedades periféricas. Um deles é que todos os poetas aparecem como malditos desde o primeiro instante. É que não existe propriamente um sistema contra o qual se opor e toda poesia, num paradoxo, é desde logo desvio, maldição. O outro é que a fama literária, a atenção pública, se obtém por assim dizer no grito, exatamente porque as instâncias de recepção da obra nova não atuam pra valer.
Neste contexto, ai dos poetas tímidos, introvertidos, arredios, modestos e auto-depreciativos; e que não falam alto, antes murmuram seus poemas. Um Drummond, entre nós, morreria inédito e seria reconhecido postumamente. O mineiro de Itabira teve, para compensar a timidez, a imensa caixa de ressonância do Rio, hoje desconstruída.
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Ora, tudo que dissemos acima (em linhas muito simplificadas) acha-se, felizmente, ameaçado (mas não ainda revogado) pela internet e redes sociais.
Verdade também que, mesmo antes da revolução digital que se desenvolve espantosamente diante dos nossos olhos, uma exceção se verificava a todas as regras. A exceção da alta qualidade. Cedo ou tarde, mesmo num vazio literário ou num sistema distorcido, a alta poesia ou prosa se afirmava, contra tudo e contra todos, com o risco, porém, de se afirmar tardia ou postumamente. Veja-se o caso do reconhecimento de Jamil Snege, Manoel de Barros e outros, que lhes chegou quase na hora da extrema unção.
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Criatura implausível em qualquer sociedade, qualquer organização, o ótimo poeta aparece, mesmo em contextos adversos, com a força das coisas que são orgânicas, profundamente verdadeiras, como são as manifestações da própria existência. Como as forças da terra na criação do olho d’água.
Novo livro de poemas de Rodrigo Madeira
Num Único Dia, o quarto livro de poemas de Rodrigo Madeira, lançado pela Primata (de São Paulo) no primeiro semestre de 2024, vem para confirmar a alta promessa dos seus três primeiros.
A estréia com Sol sem pálpebras, publicação da Imprensa Oficial, em 2007, reúne 45 poemas, entre breves e outros longos e segmentados, marcados por alta tensão e linguagem clara. A nota de recomendação (e de admiração) dos pareceristas da Secretaria da Cultura está assinada pela poeta Marise Manoel. A orelha, boêmia e amável, é do dramaturgo e romancista Alexandre França.
O conjunto é bem um livro de apresentação, com a declaração de uma poética, a admissão de influências, as equações do desejo e da vontade, a homenagem à infância em Foz do Iguaçu (onde o poeta nasceu em 1979), a evocação do amigo morto, os choques do amor, a certificação do mistério, a de um estado d’alma:
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lá, destalado entre o sol e a ardentia, / quem quer tentasse não me alcançaria… / o futuro ia erguer gradil estável //ali, donde morrem aves regressas…./ hoje não! sou fortim inexpugnável,/ porque minhas portas estão abertas
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Já em 2009, pela Medusa, sai o segundo, Pássaro ruim, título que rapidamente se propaga e vai denominar a série de vídeos sobre poetas contemporâneos do Paraná, realizados sob a direção de Adriano Esturilho e Ricardo Pozzo. O pássaro ruim seria na acepção madeiriana um mero inseto, “mundo de significações e insignificâncias contidos numa máquina vital especialmente ínfima e efêmera”, conforme nota do autor, escrita à guisa de prefácio. “Em lugar da envergadura do albatroz, três centímetros de asas”.
As quatro fases do gafanhoto em hebraico inspiram as quatro partes deste “Pássaro…”, conforme a citação do profeta Joel (1:4) na versão Almeida: “O que ficou da lagarta, o gafanhoto o comeu, e o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu, e o que ficou da locusta, o pulgão o comeu.” São 52 poemas em 147 páginas, mais posfácio do editor.
O segundo livro já abre com um clássico: a “balada da cruz machado”:
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“uma rua à queima-roupa / louca, brilhante, sem fôlego / rua-vício, rua-oxímoro / de não ir a parte alguma / de uma miséria ancestral / a cruz machado termina / depois da última esquina / aos pés de uma catedral. (…)”
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Longo intervalo de mais nove anos se passa até o terceiro, Baldio, que saiu pela Kotter. A breve orelha vem assinada por Guilherme Gontijo Flores, o poeta e professor de Letras Clássicas da Federal. Gontijo reconhece na poesia madeiriana uma vertente de lamentação (o “lamento amoroso, místico, político”) ao lado de outra de afirmação e celebração vital. São cerca de 70 poemas em perto de 110 páginas, nas quais novamente se afirma a destreza técnica, a habilidade com metros, que agora alcança a perfeição dos decassílabos como em “Dafne”, com epígrafe seqüestrada de Rilke sobre a deïdade (permitido aqui o trema) e abre assim:
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“No bosque fundo, o mundo canta e é mudo / (e o mito que nos mente funda tudo.) / as ninfas são, as ninfas dão… mas uma, / não – aquela: a ninfa-nunca, a fulva dafne, / filha de peneu, pomba sem milhafre, / que nunca amou ninguém por nada, em suma. (…)”
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Emblema ou alegoria do conjunto da obra de RM até agora.
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02 // A estradinha para o oeste / é só mais um teste. // Colheremos flores, contaremos salgueiros / e saltaremos dos penhascos. / A estradinha para o oeste / é só mais um teste. / A estradinha para o oeste / é só mais um teste. // Amaremos pessoas, perderemos pessoas / e as enterraremos à tarde nas escarpas. / A estradinha para o oeste é só mais um teste. / A estradinha para o oeste / é só mais um teste. // Haverá o Evereste, o pisão nas formigas, / as comissões imerecidas, as histórias mal contadas. / E a estradinha para o oeste / será só mais um teste. // Como esses marombeiros / que treinam para o treino de outros treinos, / o teste da estradinha / que nos leva para o oeste / também será só mais um teste, // será só mais um teste, / será só mais um teste.
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Como se vê, a despeito de contratempos e tempos contrários, persistem as musas entre nós no seu ofício de decifração e refundação da existência pela palavra. Ainda bem.
Joaquim Lamarca