Por Adriana Sydor
O lançamento do livro Carlinhos Neves: conversas sobre futebol – 45 anos da história de um preparador físico, publicado pela editora Bremen, reuniu grande público no Don Max, o bar de Paulo Zanatta, em Curitiba, na noite de 28 de outubro deste 2025. Uma terça-feira.
Antes mesmo do início oficial do evento, marcado para as 18 horas, já havia fila desde a rua, debaixo de guarda-chuvas, para autógrafos e fotos com os autores Carlinhos Neves e Caibar Pereira Magalhães Júnior.
Foram centenas de pessoas entre jogadores e ex-jogadores, técnicos e colegas preparadores físicos, jornalistas e amigos ligados ao meio esportivo. Na multidão, testemunhas de diversas épocas da longa trajetória dedicada ao futebol.
A obra resulta da parceria entre o preparador físico e o escritor, ambos curitibanos, velhos conhecidos, e combina relatos de bastidores com reflexões sobre o esporte, a vida e o tempo.
Realizado em um espaço simbólico para os autores, o lançamento valeu como celebração de uma história que ultrapassa o campo e se transforma em registro da memória do futebol brasileiro.
Lançamento
Perfil
Caibar Pereira Magalhães Júnior (Curitiba, 1960)
É autor de sete livros de poesia e ficção, entre os quais o premiado Janela do Avesso (1997), Dizem que sou palavroso e Suposta montagem aleatória de palavras. Por muitos anos lecionou Língua Portuguesa nas especialidades de Redação e Literatura. Caibar é reconhecido por uma poesia realista e forte.
Carlinhos Neves (Curitiba, 1956)
Ostenta uma carreira de 45 anos como preparador físico de futebol. Um dos profissionais de renome da área no Brasil, é conhecido por modernizar o trabalho físico nos clubes.
No seu currículo estão o Athletico, o Grêmio, o Paraná, o Atlético Mineiro, o Botafogo e o São Paulo. Coleciona vários troféus do Campeonato Brasileiro, da Copa Libertadores e do Mundial de Clubes.
Caibar: Escrever sobre a vida do Carlinhos foi uma sugestão do Roberto Candelori, filósofo paulista e professor. Ele por muitos anos incentivou que nós dois, Carlinhos e eu, fizéssemos uma parceria nesse sentido. A ideia não foi desenvolvida de imediato, ficou cozinhando e sendo retomada a cada novo encontro (nós fazíamos parte de uma turma que pelo menos uma vez por ano se encontrava em Iguape). Só depois de muito tempo colocamos o projeto para andar. Começamos em abril de 2022 e em dois anos tínhamos uma versão parcial, que foi ajustada, aparada, trabalhada até setembro de 2025.
Caibar: Eu não consigo imaginar alguém capaz de escrever uma biografia que descreva exatamente o que o outro é. Isso é impossível — até porque, muitas vezes, nem a própria pessoa sabe ao certo quem é ou o que pensa.
No caso deste livro tudo sempre partiu de conversas, conversas que passavam pelo futebol, mas não só. Falamos de música, de cinema, de literatura. E tudo isso, num formato menos rígido do que o tradicional de entrevistas com perguntas e respostas, permitiu que chegássemos à fidelidade das histórias que o Carlinhos queria contar com a possibilidade de usar a minha maneira de contar e escrever.
É importante falar que há uma intervenção muito grande da parte dele no texto, é um livro feito praticamente a quatro mãos.
Carlinhos: Quando eu cheguei à conclusão de que as histórias que vivi poderiam compor um livro, fiquei pensando que eu não queria tratar do assunto de um jeito tradicional. Normalmente, o pessoal do futebol, numa situação assim, vai para o jornalismo esportivo, não tenho nada contra, mas eu queria um olhar diferente, não queria simplesmente falar de futebol, porque isso já tem em vários programas de TV, no rádio, em outros livros. Eu queria um registro que fosse mais sensível, que conseguisse captar sutilezas que na crônica esportiva muitas vezes passam despercebidas, porque o universo do futebol é narrado a partir de vitórias e derrotas, performances, dados, tudo muito fechado em conceitos. Eu queria alguém que entendesse que a lembrança da minha infância do som das chuteiras dos jogadores pisando os paralelepípedos do Dorival de Brito ainda ecoam em mim. E o Caibar entendeu isso.
Caibar: E também tem uma outra coisa importante a destacar, o mercado de biografias é muito grande, as pessoas se interessam bastante por histórias, mas há poucas sobre preparadores físicos.
Carlinhos: Não é uma biografia. Não considero o livro uma biografia porque eu não falo da minha trajetória de um jeito que dê para reconstruir onde eu estudei, como eu desenvolvi conhecimentos, as batalhas que enfrentei e outras coisas que normalmente têm em biografias.
Caibar: Para esta pergunta, eu respondo sim e não. Não se trata exatamente de uma biografia no seu sentido estrito, mas é a narrativa pormenorizada da trajetória de um preparador físico excepcional por todos os times por onde passou. Contamos, sim, um pouco de sua paixão por este esporte desde criança, e também o antes, o durante e o depois dos jogos importantes que de que ele participou, as grandes jogadas, as expectativas, os grandes treinadores com quem fez parceria, as conquistas antológicas e as derrotas memoráveis. Em paralelo, há várias reflexões sobre o futebol e outras questões, como o envelhecer, por exemplo.
Carlinhos: O corpo de um atleta é muito diferente. O atleta começa muito cedo com muitos cuidados: treinos, alimentação balanceada, hidratação, repouso etc. O meu principal interesse está em como lidar com tudo isso ao longo da vida, porque a gente perde colágeno, fica mais lento, enxerga com dificuldade, vai se esquecendo das coisas, mas eu acho que dá para encontrar leveza e beleza nisso tudo. Há muita gente que tem uma situação financeira confortável, mas não consegue apreciar uma música, se encantar com uma obra, olhar para a natureza, a minha concentração agora é sobre isso, sobre esse aspecto. Acho que o lado comportamental é muito importante para envelhecer bem.
Caibar: Eu não tenho time de futebol, gosto de assistir bons jogos. Depois dessa experiência aumentei um pouco meu repertório a respeito do assunto, mas não tenho conhecimento para debater sobre.
Carlinhos: Não é verdade, o Caibar pode participar de qualquer mesa-redonda. Eu não tenho mais relação alguma com o futebol. Assisto se não coincidir com o cinema, com os concertos que gosto de ver, com outras atividades. Assisto e torço pelos amigos: o Mano Menezes dirigindo o Grêmio, eu vou torcer para o Grêmio; o Rogério, dirigindo o Bahia, vou torcer para o Bahia; o São Paulo, o Galo, vão jogar, eu presto atenção. É muito diferente do que quando eu trabalhava, se meu time perdesse, eu não mal conseguia dormir e quando meu time ganhava, a pressão para a próxima partida começava imediatamente.
Trajetória e reflexões de um preparador físico do futebol brasileiro
Carlinhos Neves: Conversas sobre Futebol, de Caibar Pereira Magalhães Júnior, apresenta a trajetória profissional de Carlinhos Neves, preparador físico com 45 anos de atuação no futebol brasileiro e internacional. A obra reúne relatos e reflexões sobre as experiências vividas em clubes como Athletico Paranaense, Grêmio, Palmeiras, São Paulo, Atlético Mineiro e na Seleção Brasileira. O conteúdo foi desenvolvido a partir de conversas entre o autor e o preparador físico, resultando em um registro que combina aspectos técnicos, históricos e humanos do esporte.
Ao longo do livro, são abordados temas como a evolução da preparação física no futebol, o trabalho em equipe, as relações com treinadores e atletas, as conquistas e derrotas que marcaram sua carreira e o papel da ciência no desempenho esportivo. A narrativa inclui ainda passagens sobre o Instituto Futebol de Rua, projeto social com o qual Carlinhos se envolveu, e reflexões sobre envelhecimento, aprendizado e trajetória profissional.
A estrutura alterna relatos biográficos, trechos de entrevistas e comentários do autor, articulando episódios da carreira de Carlinhos com o contexto das principais campanhas e competições em que atuou. O resultado é um panorama detalhado do percurso de um profissional que acompanhou mudanças significativas na metodologia de treinamento e no modo de pensar o futebol no Brasil.
Ficha bibliográfica
Carlinhos Neves: conversas sobre futebol – 45 anos da história de um preparador físico, de Caibar Pereira Magalhães Junior, 574 páginas. Direção editorial e capa de Iron Junior; apresentação de Raí. Curitiba: Bremen Editoria, 2025.
Trechos
Quando olho para um atleta, não vejo apenas o jogador de futebol. Sempre penso que muito além desse atleta, há um cidadão: um filho, um irmão, um pai, um marido, um amigo. Acho muito importante você pensar nisso, porque então você consegue humanizar a relação e tentar transmitir algo que transcende a evolução meramente física ou de melhora de performance e se volta também para a totalidade desse jogador como pessoa, como ser humano.
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Mas o gênio surge quando o jogador consegue reunir uma série de habilidades específicas para o futebol. E é importante diferenciar técnica de habilidade. Técnica é executar bem um gesto, por exemplo. É saber bem os fundamentos: é passar bem a bola, chutar bem, saber cabecear, saber fazer um cruzamento. Habilidade, por sua vez, é a capacidade do improviso, de tirar o coelho da cartola, de dar uma “caneta”, de dar um “chapéu”, de estar numa situação em que há uma marcação dobrada, mas ele consegue se livrar. Ou seja, habilidade é muito diferente de técnica. Entre os habilidosos estão Ronaldinho Gaúcho, Messi, Maradona etc., assim como antes tivemos tantos outros.
Quando você consegue juntar, num atleta, a preparação física, a técnica, a habilidade, a compreensão tática e a questão mental, você tem um gênio.
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Às vezes, Carlinhos olha para o campo vazio de um clube que enfrentará e fica imaginando os tantos jogos que ali ocorreram e os tantos atletas que por ali já passaram. Fica até difícil não pensar na metáfora de que um campo de futebol não é senão, ao fim e ao cabo, um grande palimpsesto. (…) Assim é o gramado de um clube, que já assistiu e viu nele inscritas tantas jogadas, tantas estratégias, frustradas ou efetivas, que se configuraram no desenho de sua superfície.
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Se fosse possível uma comparação final, eu diria que de todos os campeonatos que eu enfrentei, [a pandemia] talvez tenha sido o mais disputado, em que cada detalhe (usar máscara, lavar as mãos, limpar os alimentos, praticar o distanciamento social) fazia toda a diferença. Se houve alguma taça a ser comemorada foi a consciência de que valorizar, respeitar e preservar a vida é a melhor estratégia e o prêmio mais valioso que a gente pode receber.
SERVIÇO
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