Heliotrópico e o (necessário) rompimento das estruturas da realidade humana em (in)certas geografias
Por Adriel Fonteles de Moura
Heliotrópico, de Gilberto Caldat, publicado em 2021 pela editora Bestiário, não é um escrito que busca chegar a algum lugar ou, no específico sentido em que tanto procura algum ingênuo intérprete de literaturas poéticas ou prosaicas, ter justamente algum cenário de acontecimentos ou, para os mais apressados, construir algum sentido que dê margem de interpretação coerente à obra. Trata-se de uma obra sobre viagem, não viagem de onde ou para algum destino, mas pura e simplesmente viagem ou, melhor dizendo, Heliotrópico é uma viagem aberta, sem origem ou destino. Mas há pistas, belamente representadas nos seguintes versos: “Toda viagem é feita de espaço, tempo, convivência e imaginação” (2021, p. 16). Aqui, cabe ao leitor refletir e criar, sem cair nas artimanhas definicionais da racionalidade objetiva, sobre estas atualidades da experiência viagem.
Heliotrópico é dividido em 47 paisagens, que são referências abertas que cabe ao leitor, se quiser, traçar uma trilha ou itinerário. Em uma releitura, é altamente provável que esta trilha ou itinerário não exista mais, pois Heliotrópico não é um roteiro de viagens que se fundamenta em incursões geográficas, mas há pistas histórico-geográficas, de vital importância para evocar o elemento espacial e mnemônico e chegar em uma possibilidade interpretativa: embora as trilhas e itinerários se apaguem, uma viagem não é construída pelo esquecimento temporal e espacial.
Nesta resenha, faremos uma reflexão sobre alguns trechos de duas paisagens, a fim de provocar ao leitor para que se embrenhe na imensa taiga, um comparativo apropriado por Gilberto, logo de início:
Depois de um longo contemplar em total espanto, comecei a notar certo padrão nas excêntricas paisagens ali formadas: algumas figuras eram inevitáveis, caso algumas supostas causas aparecessem pelo caminho. Mais adiante, passei a reconhecer não só o desenrolar ascendente de tais desenvolvimentos, mas também que esses trâmites tendiam a um retorno circular: os efeitos poderiam muito bem, no desenrolar do tempo, tornarem-se causas de suas próprias causas, como se eu pudesse, de minha parte, caso feito da matéria que tais destroços, ser pai do meu próprio pai, ou ainda o homem primevo da humanidade inteira, ou um primitivo demiurgo, quem sabe (2021, p. 20).
É possível perceber, no livro, diversas referências filosóficas na construção das paisagens. Explorando o excerto da paisagem acima, a presença de conceitos gregos como contemplação (theôria) e espanto (thamazein) parecem oferecer e, ao mesmo tempo, exigir um olhar intuitivo na elaboração de nossas próprias paisagens. Dito a grosso modo, contemplar significa admirar filosoficamente a realidade, para além dos limitantes padrões humanos de pensamento restrito a modelos pré-estabelecidos como, por exemplo, o método científico. Por outro lado, o espanto significa a perplexidade em notar que a realidade possui algo a mais do que os próprios olhos humanos veem. Nas filosofias platônica e aristotélica, há algo de divino e sobre-humano no espanto e na contemplação. Contudo, depois do ato de contemplar e espantar-se, o humano volta a ser demasiadamente humano, sob o signo da observação de padrões que tentam traduzir a experiência do desconhecido e do excêntrico. Simultaneamente, o trecho também revela a experiência da circularidade do retorno.
O ser humano, enquanto presente na realidade, está incrustado a ela e não seccionado dela através de sua compreensão racional de mundo. Quando se considera que a causa pode ser a sua própria causa, remete-se ao clássico conceito aristotélico de primeiro movente imóvel. O fundamento de toda a realidade, a causa absoluta de todas as coisas, causa ela mesma, move todos os seus efeitos engendrados sem que esta causa seja ela mesma causada. Portanto, nesta paisagem já se deixa logo de cara que a realidade não possui linearidade e lógica ou qualquer determinismo metódico construído pela mente humana que deixa de experimentar a própria realidade em toda a sua estranheza.
Entretanto, Gilberto Caldat não deixa passar batido uma lúgubre viagem pelos cenários contemporâneos, montados a partir das chagas do avanço da racionalidade tecnológica, como é ilustrada a partir da paisagem 32:
(…) ali as máquinas que imitam e substituem a presença física das pessoas eram cada vez mais numerosas; assim, o próprio corpo presente de cada um vai deixando de ter suma importância nas relações interpessoais (2021, p. 70).
O que se observa nesse momento do livro é a predominância de paisagens urbanas, racionais e abstratas. Neste caso, trata-se de uma paisagem que delineia a transformação do próprio mundo humano, a partir do qual o corpo natural e a relação entre corpos dá lugar à fria e operacional relação entre máquinas. Detalhe: nós mesmos nos tornamos estas máquinas, em que a indiferença é estendida à própria morte e à morte das relações humanas, apoteose do pós-modernismo tecnocrático. Afinal, uma máquina não morre e a presença física e natural da vida se torna motivo de fastio e esquecimento da finitude, que dá lugar à insípida infinitude.
Por fim, seria necessário estender esta resenha a um outro livro se quisermos buscar uma compreensão, mesmo que evanescente, das paisagens de Heliotrópico. Desestabilizando a estrutura da realidade e de nós mesmos nos incertos e mutáveis itinerários, trata-se de um livro que deve ser lido pensando na urgência de nosso tempo em não apenas viajar, mas provocar o nosso tempo, espaço, memória e imaginação. Uma viagem que vale a pena seguir.

Foto: Deydi Dias
Adriel Fonteles de Moura
É mestre em História da Filosofia junto à Universidade Federal do Paraná e professor vinculado à Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus.
Trecho:
Não só os astros abalam o balanço das marés. A dança constante das ondas marítimas também sabe reordenar e ditar novas elipses e caminhos às caudas dos cometas e às estrelas cadentes. Nossos corpos, abandonados agora, um ao outro, decifram os enigmas da terra e apagando a luz da extensa praia deserta onde reencontram a intimidade, devolvem o sol à ilha de Sumatra.

Gilberto Caldat
Foto: Rangel Ray Godoy
Sobre o Autor:
Gilberto Caldat faz atualmente o doutorado de Filosofia (UFPR) “com projeto de tese que se prende ao mesmo tema de seu segundo livro: as viagens e seus múltiplos sentidos.” Paranaense de Laranjeiras do Sul (08.03.1987), exímio cantor, semblante de quem entretém profundos pensamentos, Caldat andou na primeira mocidade por Florianópolis, onde começou a trilhar os caminhos da criação literária e da composição juntamente com os estudos na UFSC. Seu primeiro livro, “Os amores móveis”, saiu em 2017 pela Multifoco. Já naquela obra de estréia, praticava esse gênero de dupla face, a prosa poética. Uma experiência única é ouvi-lo cantar “Mackie Messer”, de Kurt Weill, com a letra original de Bertolt Brecht no original alemão. (J. Lamarca)

Dados bibliográficos
Heliotrópico, de Gilberto Caldat, 14 x 21 cm, 100 páginas, Publicação na série Class, da editora Bestiário, Porto Alegre, 2021. Com prefácio de Alessandro Pinzani e ilustrações de Priscilla Menezes.
Para comprar:
“Heliotrópico”, de Gilberto Caldat, está à venda no site da Bestiário, por R$ 38,00 o exemplar, mais frete. Assinantes do Kindle podem baixar gratuitamente a íntegra da obra no site da Amazon. Não-assinantes podem fazê-lo por R$ 12,00.