Do luto dos amores findos à ressignificação da memória amorosa

Tradutor de línguas como o nórdico antigo e o grego, Théo Moosburger estréia na ficção com novela que começa ensaio e vira peregrinação a um espaço alegórico, em busca de chaves para o enigma amoroso. Leia a resenha de “O cemitério dos amores mortos” por Raphael Dias Barcellos. A foto, não-assinada, é do autor em Micenas, na Grécia, em 2023.

Dados: O cemitério dos amores mortos, de Théo Moosburger, capa de Jussara Salazar com pintura de George Frederic Watts, 96 páginas. Curitiba: Kotter Editorial, 2024.

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Sobre o autor

Théo Moosburger (Curitiba, 1981) é professor e tradutor literário. Formou-se em Letras Clássicas pela UFPR e completou mestrado e doutorado em Estudos da Tradução pela UFSC. Possui traduções publicadas do grego antigo, medieval e moderno, além do islandês (medieval e moderno) e do italiano. Dentre suas traduções publicadas, destacam-se: Papadiamántis, A Nostálgica e Outros Contos (Hedra); Aristóteles, Da Alma (Vozes); Luciano, Histórias Verdadeiras (Kotter); Tarchetti, Contos Fantásticos (Clepsidra/Ex Machina); Saga de Njáll (Dialética, Clube de Literatura Clássica); Saga de Gunnlaugr Língua-de-Serpente (Fino Traço, Clube de Literatura Clássica); Saga dos Volsungos (Hedra); Três Sagas Islandesas (UFPR); Andri Snær Magnason, A História do Planeta Azul (Hedra). Na revista de tradução Nota do Tradutor, publicou contos e poemas gregos modernos (Seféris, Karyotákis, Elýtis, Karkavitsas, entre outros). Pela Kotter Editorial, está lançando, em três volumes, um curso de introdução ao nórdico antigo (Lendo em Nórdico). O Cemitério dos Amores Mortos é seu primeiro livro de ficção autoral dado a lume.

Do luto dos amores findos à ressignificação da memória amorosa

Théo Moosburger constrói um espaço alegórico para tratar dos sentimentos que restam quando o amor termina.

por Raphael Dias Barcellos

Costuma-se erigir um memorial aos que morrem fisicamente, mas onde estão sepultados os amores malogrados? Para onde vai aquela parte do eu que sucumbe quando se encerra um amor? Seus despojos podem também ser visitados e venerados em algum lugar? Esta obra narra a história de alguém que empreendeu uma insólita viagem a esse local.

Narrado em primeira pessoa e estruturado em um fluxo narrativo ininterrupto, Cemitério dos Amores Mortos (2024) mescla elementos do ensaio e do conto, e segue a vertiginosa e arrebatadora jornada de seu protagonista a um espaço etéreo e alegórico, a Necrópole dos Amores Mortos, local onde jazem os amores que se acabam.

Em suas primeiras páginas, a obra assume um viés ensaístico e abre-se ao leitor como uma reflexão do narrador a respeito da natureza dos cemitérios, da sua função de preservar a memória daqueles que se foram, até discorrer sobre uma morte ainda mais lancinante e misteriosa: o fim das relações amorosas.

A partir desse ponto, o ensaio dá lugar à ficção e o protagonista dirige-se ao leitor na intenção de relatar-lhe uma experiência arrebatadora vivida (ou imaginada), espécie de katábasis clássica ou peregrinatio dantesca: “Desejo narrar como me perdi, certa vez, e cheguei, não sei por que caminho, a um local secreto, ao cemitério dos amores mortos, onde cada um tem o seu túmulo, e onde pairam suas assombrações”.

Descortina-se então ao leitor a ambientação da obra: um sábado ensolarado em uma cidade aparentemente indefinida com seus moradores, suas igrejas e seus cemitérios. Durante um passeio matinal e envolto em lembranças de seus amores passados, o personagem-narrador caminha pelas ruas até se deter em um lugar familiar, uma antiga e conhecida praça, junto à qual se encontram as ruínas de uma igreja inacabada. É interessante notar aqui, de antemão, que a caracterização dessas ruínas parece acenar para um ponto bem determinado da geografia brasileira, as Ruínas de São Francisco, em Curitiba, cidade do autor.

Se uma catedral em ruínas evoca a derrocada do ideal amoroso, serve também como símbolo crístico de morte e ressurreição que, no plano narrativo, anuncia o penoso e simbólico percurso a ser empreendido pelo protagonista, verdadeira via crucis do luto à ressignificação da memória amorosa (e da vida).

É a partir então desse espaço simbólico, limiar entre memória, morte e renascimento, que tem início a errância do protagonista em direção a uma imensa necrópole com seus inúmeros mausoléus, local quase feérico, indicado por uma extensa aleia e conduzido por vozes fantasmagóricas, sussurros das almas que sofreram a morte do amor.

Por seu caráter simbólico, a obra estabelece um rico diálogo com a visão medieval, gênero literário consagrado pelas narrativas de Túndalo e Dante, tanto pela recorrência de vocábulos que evocam o sentido da visão (olhar, enxergar, ver, revelar, contemplar, abrir os olhos etc) quanto pelo sentido metafísico da viagem empreendida por seu protagonista, uma jornada entre o delírio e o sonho, entre a epifania e a catarse.
Uma vez transposto o portão do cemitério, a ambientação torna-se cada vez mais soturna, por vezes onírica, evocando uma atmosfera romântica de estilo gótico com seus tétricos monumentos sob um luar esbranquiçado. Ao percorrer o vasto cemitério, o protagonista depara-se com inúmeros mausoléus, os quais, cada um à sua maneira, representam reminiscências de antigas vivências, fragmentos de experiencias amorosas antigas e recentes, transformadas enfim em memória e sombra.

O luto do amor é excruciante e inevitável como o perfume do olíbano que se embota e se extingue. Para que a vida ressurja, é necessário que a morte do amor seja experienciada, é necessário que a longa viagem seja realizada. Cemitério dos Amores Mortos fala, portanto, desse percurso humano doloroso, transubstanciado em fabulação e arte.

Uma amostra da beleza do texto está na descrição de uma escultura que adorna a entrada da necrópole. Em seus contornos está representado o Triunfo da Morte sobre Cupido, cujo sentido resume toda a alegoria representada pelo Cemitério dos Amores Mortos. A écfrase empregada pelo autor, de beleza ímpar, é digna de nota:

Notei que eram duas figuras fundidas, uma maior do que a outra. A menor parecia ter asas, e a maior segurava uma espécie de bastão, ou lança. Aproximei-me e circundei-a, e então pude enxergar o que representava. Uma figura esquelética coberta por um manto brandia uma foice, com a qual atingia no peito o menino alado. Ele tinha a cabeça voltada para trás, com uma fisionomia de dor, e de sua mão esquerda pendia um arco, enquanto da direita ele deixava cair uma flecha. Aos seus pés jazia a aljava, que lhe escapara das costas. A lâmina da foice estava cravada no coração do menino, e suas asas pareciam perder o tônus, no instante em que se precipitaria ao solo, em seu último adejo. Era a Morte vencendo o Amor. (p. 38)

Raphael Dias Barcellos é graduado em Letras (Português / Francês) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Literatura Medieval Francesa pela mesma instituição. Atualmente trabalha como redator / revisor na Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Trecho

Enquanto essas indagações ecoavam entre as minhas têmporas, olhei para o lado e distingui, em meio à noite clara, um enorme mausoléu que se destacava muito dos demais. Era uma construção de pedra escura, ou, como constatei após chegar bem perto dela e tateá-la, enegrecida pelo tempo. Aquilo já havia sido mármore polido, e agora tinha a cor do carvão. Viam-se vestígios de um frontão com imagens em relevo, mas as representações foram tornadas disformes pela erosão do tempo, e não pude dar sentido aos seus contornos. Parecia-se com uma tumba muito velha, que devia ter muitos séculos de idade, ou até milênios. Andei à sua volta e não encontrei inscrições legíveis. Não possuía entrada. Como as tumbas dos faraós, estava completamente selada, e era mesmo difícil identificar onde havia sido encaixado o último bloco de pedra para vedar a passagem que conduziria à câmara mortuária, dentro da qual minha mente engendrava a imagem de um sarcófago. Parecia-se com a tumba de algum rei de tempos muito antigos, de uma civilização perdida, e a esse rei, por séculos já, ninguém mais prestava culto. Seu nome caiu no esquecimento. Talvez houvesse tesouros em seu interior. Talvez memórias esmaecidas estivessem impressas em suas paredes internas.

É curioso como os monumentos erigidos em honra daqueles que partem para sempre dão-nos, falsamente, a ideia de que os indivíduos neles encerrados serão de algum modo perpetuados. O que são poucas décadas ou poucos séculos frente à totalidade do tempo? Chega um momento em que os memoriais construídos para os insignes mortos são abandonados pela recordação dos vivos. Um dia serão profanados e saqueados e se transformarão em achados arqueológicos. Suas múmias, exumadas, não mais terão o local que lhes havia sido destinado em profunda consternação, e serão expostas em museus aos olhares de curiosos que nelas verão somente bonecos embalsamados, sem qualquer individualidade e despojados de sua humanidade. As suas histórias proclamarão em línguas indecifráveis a nossa própria impotência diante da vida, da morte e da memória. E a esperança vã da transcendência e do repouso eterno esfarela-se, e entendemos, por fim, que os memoriais construídos para os mortos são, na verdade, destinados aos vivos, e somente algo dos vivos se encerra em seu interior. Uma vez que os vivos não mais têm vínculo algum com os mortos, os monumentos esvaziam-se de qualquer significado. Tudo ali naquele mausoléu havia sido perdido. Talvez em suas secas entranhas houvesse ainda relíquias que pudessem narrar a sua glória passada, mas quem poderia compreender o seu real significado? Quem poderia rever o pôr do sol através daquelas retinas que já brilharam na face de um ser humano vivo e se esvaziaram, deixando de existir?

Páginas 40-43

MOOSBURGER, Théo. O cemitério dos amores mortos. Curitiba: Kotter, 2024

Serviço

O livro pode ser adquirido a R$ 34,79 o exemplar, diretamente no site da editora e também nos principais marketplaces ou portais-de-venda, como amazon.com.br

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