Cata-osso: poema em trânsito

Caibar Pereira Magalhães Junior – contista, poeta e também biógrafo, ver matéria de Adriana Sydor sobre o recente lançamento de ‘Carlinhos Neves’ sobre 45 anos da história desse treinador de futebol – diz para os leitores da revista Querela os versos do seu Minicordel do cata-osso, que integra os poemas de Quando o povo canta.

 

O próprio Caibar explica: “Cata-osso é um poema inspirado na linha de ônibus que fazia (faz) o percurso entre Jacupiranga e Cajati, duas cidades do Vale do Ribeira, SP.

O cata-osso (metáfora usada pelo povo para designar esse ônibus), na época, era um veículo com motor dianteiro, com um bico. O motorista, para abrir a porta, usava uma alavanca. Havia um cobrador que ia picotando o bilhete das pessoas durante a viagem, dependendo de onde a pessoa iria parar. Os pontos eram à beira da estrada, na época, a BR 116. Este ônibus demorava bastante para chegar, por isso as pessoas tinham que ter muita paciência para esperar a sua chegada. Era comum que essas viagens lotassem.”

Caibar Magalhães

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Minicordel do cata-osso

Ninguém conhece, seu moço,

uma história verdadeira,

se não pegou o Cata-Osso

lá no Vale do Ribeira.

Vem vagarinho na estrada

pegando um aqui, outro lá,

chacoalhando o camarada

que é pra ele se acordar.

O Cata-Osso, lhe digo,

não tem ponto, não tem hora,

mas pode esperar, amigo,

que um dia você vai embora.

Cada parada que faz

é uma história que arranca.

Cabe sempre um pouco mais

nessa porta de alavanca.

Pra entrar ninguém não paga,

mas é bom não se iludir,

que o Cata-Osso é uma saga:

só se paga pra sair.

O cobrador vai passando,

vindo de trás pra frente,

como o tempo picotando

o bilhete dessa gente.

O Cata-Osso não escolhe

pela roupa ou distinção

o cidadão que recolhe

na beira desse rincão.

Colhe amor, recolhe dor

– porque esta é sempre mais densa –

Cata-Osso não vê cor

Pra ele, não faz diferença.

O osso que vai catando

pelo esqueleto da estrada

é a história que vai contando

seu ponto em cada parada.

Mulher, moça, estradeiro,

roceiro, trabalhador,

frentista, canavieiro,

todos contam sua dor.

Vão ficando camaradas

de tanta história trocar,

esperando ali na estrada

o Cata-Osso chegar.

Às vezes, de longe, na pista,

o Cata-Osso é uma imagem

e até quem tem boa vista

não percebe que é miragem.

Só quem vive aqui na margem

aprende a esperar, seu moço,

e um dia seguir viagem

a bordo do Cata-Osso.

 

MAGALHÃES JR. Caibar Pereira. Quando o povo canta. Curitiba: Edição do Autor, 2025, p. 97-99.

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