Por Jonas Mamoré
O que significa partir? O que fica quando se vai? E o que se leva, mesmo sem querer? A escritora, jornalista e produtora cultural Adriana Sydor se debruça sobre essas perguntas no livro O que tem no fundo do rio – crônicas fora de casa, recém-lançado no Brasil depois de circular em Portugal. As 66 crônicas reunidas no volume foram escritas durante os quatro anos em que viveu fora do país e costuram reflexões sobre deslocamento, memória, pertencimento e a busca permanente por um lugar — no mundo e em si.
Nesta reportagem, você encontra um panorama desse lançamento, um perfil da autora, uma entrevista que aprofunda temas recorrentes na obra e uma resenha crítica do livro.
Lançamento
Na manhã gelada do dia 14 de junho, às vésperas do início do inverno curitibano, aconteceu o lançamento de O que tem no fundo do rio. O frio cortante contrastou com o calor humano que se formou no Palácio Belvedere e na praça em frente, onde pessoas circularam, conversaram e ouviram música.
Familiares, amigos, professores, músicos, artistas das plásticas, do teatro e da literatura preencheram o espaço, criando um clima de reencontro e celebração. A trilha sonora ficou por conta dos músicos Sergio Albach (clarone) e Lucas Melo (violão), que embalaram o evento.
Entre música, conversa e risadas, o lançamento, que aconteceu das 10h30 às 12h30, se transformou num encontro caloroso, onde a literatura, a arte e o afeto se entrelaçaram, aquecendo a manhã fria de Curitiba. As fotos são de Dédallo Neves.
Perfil
Adriana Sydor — palavras em trânsito
Há quem escolha um ofício. E há quem encontre na palavra um território inteiro para habitar. É o caso de Adriana Sydor, que construiu sua trajetória no cruzamento entre literatura, comunicação, cultura e educação.
Curitibana, licenciada em Letras, fez do idioma uma casa — ou, quem sabe, uma embarcação. Viveu quatro anos em Portugal, onde concluiu o mestrado e segue no doutorado em Ciências da Cultura pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Além do recém-lançado, ela é autora de MPB para Crianças (Quixote), Toda prosa, Salve o compositor popular, Sete confissões capitais e outros pecados (Travessa dos Editores) e O amor e outros sufocos (Urutau).
Adriana respondeu algumas perguntas a respeito de como e o que encontrou no fundo do rio.
É difícil apontar aspectos objetivos, porque a experiência e a escrita caminham juntas; então, qualquer modificação na minha vida reflete na temática e no jeito do texto. Estar em outro lugar, aprender os códigos desse lugar, ser uma pessoa sem passado aos olhos dos que estão ao meu redor, foi inaugurar uma nova forma de estar no mundo e isso exige um grande esforço interno. Como minha escrita parte do que vejo e sinto, e vejo e sinto todos os dias, pontuar tudo isso exigiria um confronto psicanalítico mais demorado.
Também tive outros tipos de experiências com a escrita: a acadêmica e a que me conferia um vínculo de trabalho. São dois universos bastante distintos com particularidades que ultrapassam a língua para se instalar nas composições culturais. Adequar o texto às exigências externas é complexo, um tiquinho revoltante e desafiador, principalmente em Portugal, em que facilmente escorrega-se nas armadilhas de um preconceito linguístico forte – mas, no final, tudo em paz, praticamente aprendi um novo idioma.
Durante o período em que vivi fora descobri uma ligação com a natureza de uma forma que eu ainda não havia experimentado. Me tornei mais suscetível ao clima, à lua, aos fenômenos naturais de um modo geral. Esta sensibilidade talvez tenha sido uma maneira de justificar algumas oscilações de humor.
No segundo verão em que estava em Portugal houve uma estiagem bastante forte, o que modificou a paisagem. O rio Corgo, que atravessa a cidade de Vila Real, quase secou e com esse fenômeno, tudo que sempre esteve coberto para mim apareceu. Era muito chocante passar pelas pontes, pelos caminhos, pelas laterais do rio e olhar as pedras, areias e lamas. Com o passar dos dias isso foi causando uma espécie de fascínio, medo e curiosidade. Descobrir o que tinha/tem no fundo do rio foi um interesse legítimo e literal, que acabou migrando para o campo simbólico – há muita coisa no fundo do rio, entendi que algumas precisam continuar assim, submersas, outras têm que ser arrancadas e levadas à tona, ao ar.
Procurar palavras é uma aflição prazerosa. É um caminho gostoso de fazer, mas ao mesmo tempo, é frustrante às vezes entender que a expressão correta, perfeita, para a intenção em questão não existe. Há um dilema em compreender em qual margem estou: na real insuficiência da língua ou na ignorância. Em algumas situações é possível atribuir novos significados a palavras antigas. De qualquer maneira, lidar com a crônica é mais fácil do que com a poesia, por exemplo, em que outras condicionantes também entram na equação das escolhas.
Embora esta tenha sido minha única experiência com um CEP fora de Curitiba, eu, de alguma forma, sempre morei longe. A diferença é que tinha ao alcance do humor e das disposições a família, os amigos, os encontros, quando isso tornou-se impossível eu descobri outra característica minha que não conhecia, que, aliás, achava ser exatamente oposta: eu sou uma pessoa coletiva, gosto das trocas e das possibilidades com as gentes. Então, há uma mistura, ao mesmo tempo que sou muitíssimo reservada (é um acontecimento raro, raríssimo, sair de casa, por exemplo), sou também bastante afetuosa e coletiva.
O longe geográfico permite a saudade, pensar na saudade. Entender o significado dessa emoção e esse tipo de percurso é interessante na medida em que dizer estou com saudade, numa fala automática é diferente de senti-la de verdade e se embaraçar em seus significados.
Outro aspecto significativo para mim em estar longe é descobrir que não é porque você está longe de um lugar você está perto de outro (isso vale para pessoas também). O conceito de longe e perto precisa de atenção e de um tipo de descortinamento que leva em conta condicionantes de várias ordens.
Resenha
O que tem no fundo do rio — crônicas fora de casa é um livro que, ao narrar deslocamentos geográficos, mergulha, na verdade ou na invenção da verdade, de outros tipos de deslocamentos. Publicado pela Editora Urutau, reúne 66 crônicas escritas durante o período em que a autora viveu em Portugal, num exercício que articula memória, pertencimento e estranhamento — ou, como ela própria define, “uma coleção de infinitivos”: descobrir, enfrentar, perder, gostar, contar, entender.
Logo na abertura, na crônica Mudar de país, a escritora entrega ao leitor a chave do livro: “Quem muda de país deixa sempre uma parte importante no berço e segue incompleta, mutilada, aos pedaços, em busca de infinitivos novos e felizes” (pág.10). A partir daí, cada texto é um mapa sensível desse processo de se reinventar fora de casa. Mais do que relatos de uma experiência de imigração, as crônicas são exercícios de auto-observação, carregadas de lirismo, humor, ironia e uma percepção aguçada das pequenas coisas.
A autora assume explicitamente a função pessoal da escrita. Na epígrafe, confessa:
“[…] precisava da crônica
para suportar todos os acenos
e poder caminhar,
entre o prazer e o repúdio,
saudosa e irônica”
Escrever, aqui, é criar lastro, é fazer sentido no meio do caos afetivo que é estar fora de seu lugar de origem. A natureza, as estações, os objetos da casa, os sons, os rituais cotidianos, tudo ganha contorno simbólico.
Adriana Sydor não se furta à reflexão existencial — muitas vezes, afiada. Na crônica Separarse para siempre (pág. 16), ela desconstrói o conceito de separação, mostrando que se separar de alguém ou de um lugar é um processo infinito, nunca concluído: “Continuar para sempre se separando é o gesto da condição humana, que inventou o amor para poder inventar todo o resto”.
Em outros momentos, ela se permite o humor terno, como em “Laura and me”, quando narra sua relação diária com uma árvore — a Laura, uma caquizeira que ela fotografa todos os dias para registrar a passagem das estações, do tempo.
O ato de bordar, que acompanha a autora na vida prática, também aparece como uma imagem recorrente nas crônicas. No texto Questão de bordado (pág. 87), ela escreve: “Escrever é como bordar: escolher as linhas, suportar os nós, aceitar os erros e, mesmo assim, seguir costurando sentido no tecido do tempo”. Essa analogia sintetiza não apenas seu fazer literário, mas também sua forma de viver e compreender o mundo.
De modo geral, as crônicas versam sobre a tentativa de mapear um território que é, ao mesmo tempo, exterior e interior. O fundo do rio, metáfora que nomeia o livro, não é apenas o leito físico de um curso d’água, mas um lugar de mergulho existencial — onde repousam memórias, angústias, desejos e saudades. No texto homônimo, ela afirma: “O que tem no fundo do rio? Uma poesia muda e dura como este tempo agreste” (pág. 51).
Ao transitar entre o cotidiano e o filosófico, entre o banal e o poético, Adriana Sydor constrói uma obra que oferece ao leitor não só reconhecimento, mas também abrigo. É um livro sobre partir e, sobretudo, sobre aquilo que permanece dentro da gente, não importa para onde se vá.
Ficha bibliográfica
o que tem no fundo do rio – crônicas fora de casa, de Adriana Sydor, com 118 páginas.
Capa e projeto gráfico: Wladimir Vaz Mourão
Revisão: Marcella Sarubi
Orelha: Fernando Rodrigues
Urutau (Portugal e Brasil), 2025
Trechos
o fundo do rio
(pág. 114)
o fundo do rio mora em mim.
ele é um medo que me assombra e uma matéria-prima que me fascina. um mistério feito de silêncios.
temo o lugar em que palavras não existem.
quando a secura das águas me deixou muda, achei que fosse me afogar.
o passar de nada atrás de nada; as dores puras sem descrições; os rasgos no viver; o não saber… tudo está no fundo do rio.
quando as chuvas de todos os céus caíram e inundaram os espaços, neguei a possibilidade de usar a palavra alma em texto ou voz, mas soube que o florescimento podia levar este nome.
reconheci as bordas e as atravessei. estiquei o corpo e passei de um lado a outro como se não tivessem sido inventadas.
depois, algumas folhas caíram e eu fiquei perturbada porque as vi boiando, afundando, lutando nas correntezas.
todo o meu corpo se retraiu e eu soube que as águas transbordam só́ para esconder o fundo do rio, que é mistério feito de silêncios.
eu vou navegar.
ponto de orvalho
(pág. 72)
fui dormir com dor. acordei com dor.
tenho uma estranha doença que me faz sentir dor na pele.
a pele é uma coisa muito grande para ter dor. eu tenho. é hor- rível.
também tenho uma outra decomposição que me faz sentir dor de vez em quando. nos ossos. mas neste caso não são to- dos. só uns dois me incomodam. e não sempre.
sim, porque nem sempre…
pele e ossos.
não deixa de ser curiosa essa minha estrutura…
mas o que me incomoda mesmo são as outras dores.
aquelas que se acumulam no silêncio, na indiferença, na frequência invisível dos dias, na impossibilidade do analgésico.
aquelas que tento aliviar nos textos, na terapia, nas distrações ridículas que escolho.
aquelas que, mesmo depois de não doerem mais, ainda doem.
o ponto de orvalho é de sete graus. existe coisa mais doída do que isso?
a pele grita.
coração, camadas
(pág. 106)
quando coloquei a jaqueta preta, pensei em meu coração.
o inverno despencou sobre mim.
embaixo da jaqueta, uma blusa com a cor dos tijolos de uma velha chaminé de uma fábrica qualquer que parou nos anos 1960.
embaixo, uma blusa que comprei num lugar que vendia artigos para quem faz escalada.
embaixo, a malha de mangas compridas que uso desde sempre.
embaixo, o primeiro contato com o corpo tem alcinhas e versa apenas sobre o conforto têxtil.
só depois disso tudo, a pele e depois dela, a caixa torácica, o esterno, pares de costelas, vértebras, discos intervertebrais, articulações costovertebrais, veias, artérias, nervos.
e só depois, muita coisa depois, o coração.
meu coração tem não sei quantas camadas de proteção. matérias diversas se sobrepõem para resguardá-lo.
meu coração faz parte de um sistema muito embrulhado, revestido, escondido, e ainda assim fere-se com muita facilidade.
fere-se.
ele se fere.
apesar de tudo, é possível penetrar meu coração com muita facilidade.
SERVIÇO
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