Uma leitura do que há de Goethe e do ‘Fausto’ na análise marxista do Capital e de seus efeitos
Saído há poucos meses da gráfica (2024, edição Kotter), “Tentações Econômicas”, de Chrysantho Sholl Figueiredo, vem recebendo um lançamento em vários atos, costume que hoje prospera em Curitiba e outros lugares, dada a conveniência de ampliar a exposição do livro e graças à fragmentação do público leitor em diferentes tribos e à fragmentação da própria mídia.
No último 6 de maio – data vizinha de dois aniversários referenciais, o do filósofo barbudo que 36 anos depois da Queda do Muro ainda dá o que pensar, assim como o da vitória dos Aliados contra o nazifascismo na Segunda Guerra Mundial – um luminoso debate serviu para duas coisas: relançar mais uma vez a obra e revelar seus teores.
Foi no salão nobre da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, dia 6 de maio último, a partir das 18h30, com a participação dos professores Luís Fernando Lopes Pereira, ouvidor geral da Universidade, que sugeriu a realização do encontro; Ricardo Prestes Pazello, jurista, antropólogo e diretor do Núcleo de Pesquisas em Direito Insurgente; e do poeta e lingüista Paulo Bearzoti Filho, reconhecido analista dos diferentes níveis da política.
Conquanto a sessão contasse com pouca gente no auditório, a intensidade dos pronunciamentos em nada perdeu com isso, além de assinalar importante contraste dos nossos dias com os do regime autoritário. Já se pode discutir a obra de Karl Marx em recintos tão públicos como o salão nobre do prédio histórico sem provocar tantos sustos e chiliques nem atrair a presença de agentes da ordem social.
Primeiro, Chrysantho expôs as idéias centrais de “Tentações Econômicas”, que escreveu a partir de estudos para um doutorado em Letras, sob a orientação do professor Maurício Cardozo, na UFPR. Em sua tese e neste livro, ele explora uma trilha pouco batida, a da influência das leituras de Goethe e particularmente das duas versões do ‘Fausto’ na formação do pensamento do Marx adolescente, com traços que vão reaparecer na sua análise adulta do Capital.
O núcleo do trabalho de sondagem e descoberta de Sholl Figueiredo está justamente no reaparecimento, nos estudos do Capital, de certas idéias já presentes em Goethe como alegorias, especialmente nos escritos mal-comportados do “Fausto II”. Não esquecer que estamos no “Fausto” na presença do Coisa Ruim, do Príncipe das Trevas, que opera subversões e prega peças nos poderes deste mundo. Essa digamos ‘escola do Mal’ servirá ao futuro revolucionário para dar conta das maldades do sistema.
Leia adiante o resumo da exposição do autor sobre as “Tentações Econômicas”, oferecido por ele mesmo à Querela.
No debate que se seguiu, Ricardo Prestes Pazello discorreu, entre outros pontos, sobre um trecho da obra “A queda do céu”, de David Kopenawa, em que este narra como os yanomamis vieram a conhecer os brancos como os “homens da mercadoria”.
Paulo Bearzoti trouxe como “objeção ao Fausto” a dúvida sobre se a salvação de Fausto no final da peça seria uma ironia, percepção que em sua resposta Chrysantho qualificou como “bastante aguçada”. Essa, segundo o autor das “Tentações…” é a grande discussão do momento.
“Quem aponta algo neste sentido – de que sim a cena da salvação é irônica – é o filólogo fáustico mais ‘pop’ do momento, o monumental Michael Jaeger, na obra ‘Fausts Kolonie’”.
Ao final do encontro, o autor e os debatedores convidados, numa clara e pública tomada de posição, condecoraram-se mutuamente com fitas alusivas à gloriosa data que assinala a derrota do nazifascismo.
Perfil
Fotos J. Lamarca
“Tentações Econômicas: maquinações mefistofélicas no Fausto II e o feitiço da mercadoria em Marx” é o livro de estréia de Chrysantho Sholl Figueiredo. É o “livro da tese”, embora não exatamente congruente com ela; tese que apresentou no programa de doutorado em Letras da UFPR, sob a orientação de Maurício Cardozo.
Chrysantho é formado em Direito pela Unicuritiba, e também mestre em Filosofia pela Federal; professor dos vários níveis de ensino, do fundamental ao universitário. Autor de artigos vários para publicações de Ciência Política. Juntamente com o poeta, cientista político e sinólogo Fernando Marcellino, traduziu autores como Zizek e Badiou para a editora Boitempo.
Alguns dados para desenhar o perfil. Primeiro, o nome, escrito com rigor ortográfico à moda antiga, lhe vem de seu avô, o general de brigada Chrysantho de Miranda Figueiredo, um dos oficiais do Exército leais ao governo João Goulart, punido por sua lealdade e apego ao estado de direito.
Detido no Primeiro de Abril no Forte de Copacabana, o general Chrysantho vem a ser o terceiro na lista dos 62 oficiais e civis cassados através do Ato número 4 do Comando Supremo da Revolução, de 13 de abril daquele ano. Mesma lista que traz os nomes, por exemplo, de Nelson Werneck Sodré entre 36 militares e do médico Walter Pecoits entre os restantes, civis. É natural que a história do general Chrysantho de Miranda Figueiredo tenha marcado a formação de seu neto e homônimo.
Clique aqui para ler na íntegra o ATO DO COMANDO SUPREMO DA REVOLUÇÃO Nº 4, DE 13 DE ABRIL DE 1964
Fluente em inglês e estudioso a sério da língua alemã, Chrysantho Sholl Figueiredo conta em suas andanças com estágio e residência no País de Gales, ainda adolescente. O trabalho social na organização do movimento dos sem-teto fez valerem suas letras jurídicas, com resultados importantes para as ocupações Nova Primavera e Dona Cida.
Chrysantho é casado com a advogada Sylvia Malatesta e pai de um menino.
Ficha bibliográfica
Tentações econômicas : maquinações mefistofélicas no Fausto II e o feitiço da mercadoria em Marx. De Chrysantho Figueiredo. Com prefácio (“Afinidades eletivas entre Goethe e Marx), de Alexandre Villibor Flory, da UEM, e orelha de Maurício Mendonça Cardozo, da UFPR. Capa de Jussara Salazar. Primeira edição, 127 páginas. Curitiba: Kotter, 2024.
Trecho da obra
A título de amostragem da prosa analítica de Figueiredo Sholl em “Tentações Econômicas”, e sem a intenção de pinçar passagens decisivas na demonstração das teses, segue excerto da obra (páginas 89 a 93).
“(…)
d) A tragédia inevitável: a colônia de Fausto
O quarto e o quinto atos do Fausto II representam uma importante transição na tragédia. Depois das maquinações econômicas de Mefistófeles no primeiro ato, seguem-se as aventuras de Fausto e Mefisto no mundo da mitologia grega, no segundo ato, e o idílio que Fausto viveu com Helena e Eufórion, filho de ambos, no terceiro ato. Agora, finalmente a peça torna-se trágica e obscura. As duas partes do Fausto de Goethe têm essa característica: se iniciam cômicas – aristofânicas, diria o filósofo Schelling – e terminam trágicas.
Na primeira cena do quarto ato, Alta Região Montanhosa, Fausto desce das nuvens em completa solidão e contempla a baixada e as nuvens ao redor. Mefistófeles que chega ao mesmo pico montanhoso com o auxílio de botas-sete-léguas, se admira da altura das montanhas, que diz reconhecer de uma experiência passada. Mefistófeles narra, então, momento em que, na história da criação, a crosta terrestre emergiu da explosão dos gases do inferno.
(Citados aqui os versos 10.075-88)
A narrativa cômica do diabo é uma alusão ao fenômeno vulcânico que, no século XIX pela primeira vez, se comprovou eficiente na formação da superfície terrestre. Fausto, porém, contrapõe a narrativa do diabo com sua própria concepção de como aquelas montanhas teriam se formado, evocando imagens de um oceano primordial esculpindo lentamente as formas da crosta terrestre:
(Citados os versos 10.095-104)
A origem dessa discussão sobre vulcanismo e netunismo é muito antiga. Tales e Anaxágoras, que estão entre os personagens da cena Noite das Valpúrgis Clássica no terceiro ato do Fausto II, foram os primeiros pensadores a confrontarem as duas hipóteses de origem da crosta terrestre. No século XIX, Goethe acompanhou de perto a retomada dessa discussão sobre teorias que se pretendiam científicas, ainda nos primórdios da moderna história natural.
No entanto a discussão sempre foi, por assim dizer, uma metáfora de compreensões políticas sobre o conceito de história. Mesmo a linguagem de Mefisto e de Fausto revelam essa discurso encoberto. O “fogo cêntrico”, em que se encontravam os demônios e a “voraz conflagração” que resultou de sua situação incômoda, mostram uma alegoria política da teoria vulcanista, um ímpeto revolucionário. Já a “mudez nobre” com que a água vai lentamente “esculpindo a natureza”, no netunismo de Fausto, são alegorias da visão conservadora da história como um lento e gradativo movimento sem rompantes, tremores ou convulsões.
Por isso costuma-se definir a posição política de Goethe, reconhecidamente conservadora, como um netunismo político, argumentando-se que, apesar de conservador, não era refratário a mudanças sociais desde que se evitassem catástrofes revolucionárias como o Terror de 1793. Talvez haja na expressão um certo eufemismo com propósito legitimador da ideologia conservadora de Goethe. No entanto, mais importante é que a expressão expõe uma certa verdade alegórica sobre as teorias netunistas e vulcanistas, a saber, a de emprestar um caráter ‘científico e natural’ a uma visão determinada do progresso histórico. No caso do netunismo político de Goethe, uma visão da história avessa a solavancos, compreendida como lenta sedimentação de princípios civilizatórios. (…)”
SERVIÇO
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