Uma parte de um grande ensaio poético

Por Adriana Sydor

Todo criador acumula aquilo que o público normalmente não vê: páginas de caderno, imagens soltas, listas improvisadas, frases interrompidas, pequenas obsessões. Em geral, esse material desaparece atrás da obra pronta. Pedro Giongo escolheu outro caminho. Em Lista de desejos para Superagüi esses vestígios deixam de ocupar os bastidores e são elevados à condição de obra.

Resultado de mais de uma década de anotações, fotografias, conversas e pesquisas, o livro nasceu do processo de criação do documentário homônimo (vencedor da Mostra Aurora da 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes), mas não pretende explicá-lo. Ao reunir diários, imagens, listas e relatos produzidos ao longo do desenvolvimento do filme, Giongo construiu um ensaio em que memória, pesquisa e fabulação se entrelaçam, convidando o leitor a percorrer um território normalmente invisível.

Ultrapassando o registro do documentário, Lista de desejos para Superagüi estabelece uma obra autônoma, na qual cinema, fotografia, escrita e arquivo dialogam continuamente. O interesse do autor pela coleção, pela montagem e pelas listas (características presentes em sua produção como cineasta e artista visual) encontrou no livro um suporte particularmente fértil, transformando fragmentos aparentemente dispersos em uma narrativa de forte unidade poética.

Publicado pela Telaranha Edições, responsável também pela edição da obra, o livro reafirma uma característica marcante da editora curitibana: a atenção dedicada a projetos em que forma e conteúdo caminham juntos, valorizando o livro como experiência estética e não apenas como veículo de um texto.

O lançamento aconteceu na noite de 3 de agosto, na Livraria Telaranha, em Curitiba, reunindo o público para um bate-papo entre Pedro Giongo e a pesquisadora e tradutora Emanuela Siqueira. As fotos deste momento são de Miguel Martinez-Flecha (@mmflecha).

Fotos do Lançamento

Ficha bibliográfica

Lista de desejos para Superagüi, de Pedro Giongo, com 192 páginas. Curitiba: Telaranha Edições, 2026. Livro estruturado como processo da realização de um filme, com fotografias de Pedro Giongo, Walter Thoms e Renato Ogata; produção do Estudio Tijucas e coordenação editorial de Bárbara Tanaka e Guilherme Conde Moura Pereira.

Entrevista

Sempre escrevi bastante como parte do meu processo de pensamento, então fui acumulando muitos textos, diários e reflexões ao longo dos anos. Em 2023/2024, no mestrado em Comunicação e Cultura na UFRJ, minha orientadora, Katia Maciel, me estimulou a refletir mais sobre os processos de realização do filme, principalmente sobre essa questão da listagem e das listas, que era um conceito que eu vinha trabalhando naquele momento mas ainda de maneira inicial.

Quando estávamos fechando o filme, eu já sabia que queria fazer um livro, mas imaginava uma publicação modesta, somente com fotos, porque foram muitos anos viajando para a região e registrando a ilha de diversas formas. A gente tinha muito material de imagem coletado. Com a finalização da dissertação, percebi que eu tinha vários textos interessantes para publicar além das fotos.

Na hora de escolher os textos que iriam para o livro, fiz uma grande revisão no material. Aproveitei a oportunidade para me aprofundar em uma pesquisa em arquivos de jornais antigos para escrever um pouco mais sobre Superagüi. Entendi que ali eu podia explorar até uma curiosidade pessoal: ir atrás de assuntos do passado, como os barcos naufragados, os búfalos e a mineração na Ilha de Superagüi, coisas que eu ouvia falar muito durante as pesquisas com as pessoas da ilha, mas só tinha rascunhos sobre isso.

O livro tem essa possibilidade de uma narrativa que você lê de forma não ordenada, não sequenciada. Podemos apenas abrir um livro em uma página aleatória e disso tirar alguma coisa. Dá para separar assuntos por tópicos, por blocos. Isso sempre me incomodou no fazer cinema: a ideia de que só se pode ver um filme do início ao fim. Numa sala de cinema não dá pra ver o começo, depois o fim, depois o meio. O desejo de expandir esse processo é antigo.

Por isso a vontade de expandir para o livro, criar um trabalho que você pode ler um pedaço hoje, outro amanhã, sem ordem, sem compromisso. A própria disposição das imagens traça uma narrativa mais visual e menos de contar uma história lógica. Acho que o livro propõe esse desafio narrativo e, nesse caso, a lista é um recurso que cai bem para um livro em tópicos.

A lista realmente me encanta como processo, porque tem uma qualidade generosa: é um elemento corriqueiro, banal na vida de todo mundo. A lista de mercado, de tarefas, de resoluções para o Ano Novo. Ao mesmo tempo que é popular, é também sofisticada, sintética, muito antiga: as tabelas de preço, os mandamentos em pedra, as leis, sempre foram listagens. Diferente de um roteiro, que é uma peça técnica, pensar na construção de um filme a partir de uma lista propõe à equipe algo mais próximo.

Ela tem essa propriedade de ser comum a todos, e também de infinitude: você sempre pode adicionar mais um item, sempre falta alguma coisa. A lista de desejos que trouxemos, por exemplo, impulsionou as pessoas a pensar em outros desejos a acrescentar. Pra mim é um recurso muito simples e versátil.

Sim. Para quem viu o filme e lê o livro, ele literalmente funciona como uma extensão, seguindo uma mesma lógica fragmentada dos elementos, no sentido de que não busca tanto explicar, embora conte algumas curiosidades e um pouco desse diário de produção.

Pensei também no livro como uma forma de ampliar algumas reflexões filosóficas que estão no entorno do filme: a ideia do dinheiro, de fazer um filme que tenha o caminhar como principal modal, a reflexão sobre a paisagem atlântica no inverno do Sul, da construção das pontes e dos trapiches, da pesca e da lentidão da espera. São conceitos filosóficos que fui entendendo ao longo do tempo, não necessariamente questões práticas e técnicas da construção de um filme, mas também são o filme. Achei mais honesto artisticamente, enquanto realizador lançando um primeiro longa-metragem, propor uma extensão das conversas que o filme me proporcionou ao invés de apenas mostrar curiosidades e imagens de bastidores.

Acho que a principal contribuição foi uma “pequena história da ilha”. Não sou historiador, mas me senti instigado a reunir, numa colagem de repertórios, fotografias e coletas pessoais, histórias que escutei e outras que encontrei em jornais antigos, esse bloco de texto onde reúno pequenas histórias sobre Superagüi.

Em algum momento eu queria poder contar todas as histórias da ilha, mas seria impossível. Ficou o desejo de que o livro fosse várias pequenas janelas abrindo outras possibilidades. Acho que a ideia da lista também pode ser expandida no livro, levada a um grau mais elevado: cada tópico remetendo a uma possibilidade maior.

No início, meu desejo por Superagüi era turístico, fui visitar a ilha como turista num Ano Novo. Depois voltei diversas vezes em outras épocas do ano, e a vontade de filmar foi crescendo, junto com a dificuldade de fazer um filme numa ilha e de conseguir dinheiro para mantê-lo de pé por vários anos. Passei por muitas fases para conseguir levantar o filme, e isso foi me marcando, inclusive por causa da pandemia, que atravessou parte do processo de trabalho.

O filme se dá nos encontros e na amizade. Levou tantos anos para ser feito que foi se mantendo nas trocas com pessoas com quem a gente tinha afinidade, carinho, com quem queria saber como estava e vice-versa.

A alegria de um projeto a longo prazo é essa: você para outras coisas pra voltar a algo que já gostaria de ter finalizado. Mas é exatamente com esse tempo estendido que você vai alcançando camadas mais verdadeiras, mais honestas, mais respeitosas. Esse aprendizado foi muito marcante pra mim, um trabalho onde eu realmente estava colocando minhas questões à prova. Acho que por isso boa parte das questões do livro são de ordem filosófica.

Boa pergunta.  Superagüi é povoada por muitas pessoas diferentes, com histórias diferentes uma da outra, não é uma comunidade uniforme. Em vários momentos acabo me referindo às pessoas da ilha como personagens, isso acontece um pouco porque nossa relação se deu através do cinema. Entendi em algum momento que, se eu fosse só documentar a realidade das pessoas da ilha, elas mesmas não teriam tanto interesse nesse tipo de abordagem, que lembra mais a televisão, ou de um documentário mais tradicional. Ninguém mais queria ser filmado em seu cotidiano por uma equipe que vinha da cidade em um dia e ia embora do outro, como já havia acontecido tantas vezes.

Nossa relação surge a partir desta questão, por isso ficamos amigos antes de filmar. Quando eu sugeri uma fabulação sobre a busca de ouro enterrado na ilha — baseado nas lendas que as próprias pessoas me contavam — as pessoas topavam entrar no filme. A ideia de interpretar e recriar uma realidade, foi isso que nos uniu. Então todo mundo que participa do filme também tem uma busca artística. Estão interpretando a si mesmos, mas ao mesmo tempo não, por isso esse caráter de personagem.

A gente fez muito material — imagens, fotografias, filmagens que ficaram de fora. Pessoas muito queridas que a gente filmou e que acabaram encontrando espaço no livro, como o Seu Carlinhos e a Dona Rosa. Acho inevitável não pensar que a montagem é o elemento fundador dos projetos.

Pra mim é o mais importante aqui, porque a lista é exatamente uma forma de montar: quando reduzo os elementos, as palavras, em sínteses que cabem num item da lista, posso facilmente reordenar tudo, trazendo pra quem vai ler ou ver o filme apenas aquilo que entendo como a essência.

Entendo que essa é a tarefa da montagem e da criação: trazer o que está mais consistente, mais interessante. O encadeamento das coisas também é muito importante, memórias isoladas, fotografias isoladas, não fazem tanto sentido; fazem sentido quando cruzadas, conectadas. A montagem é talvez o elemento mais importante de todos nos trabalhos, tanto no livro quanto no filme, é na montagem que eu faço a minha criação.

Já que falamos de montagem, penso no Aby Warburg, historiador e filósofo que pensou a história da arte, ele organizava os livros da biblioteca dele pela “política de boa vizinhança”, não por ordem alfabética nem por gênero, dispondo os livros de sua biblioteca por aproximações diversas e, às vezes, misteriosas.

Quando organizei os materiais, me baseei muito nessa ideia, de maneira natural: as coisas se conectando por essa política da boa vizinhança. Os temas se conectam por lugares afetivos, por uma cor, por uma linha de raciocínio, pela pesca — que é o tempo, a lentidão — e os tópicos vão se desmembrando. Falar do farol é falar do Martelo, o personagem principal. Acabamos falando de várias coisas ali.

As coisas encontram lugar no livro quando encontram vizinhança, semelhança, conexão, mesmo que ela não seja inteiramente compreensível. Quando não se encaixam naturalmente, vai caindo. É meio intuitivo, não consigo explicar direito, porque às vezes uma coisa desorganizada, ou não muito polida, entra e se encaixa, e no todo ela encontra espaço. Muita coisa boa ficou de fora.

Acho que as listas, quando aparecem, são essa quebra, não aparecem apenas no início do livro, elas vão se misturando, cambaleando por todo o projeto.

Sempre escrevi muitos diários e anotações, como um método de organizar pra mim mesmo, não pensando em outras pessoas. Não acho que mudei a forma de encarar estes textos, porque continuo escrevendo as coisas sem uma ordem específica, empilhando papéis, e os projetos vão ganhando volume, sem necessariamente uma direção certa. A maior parte das coisas escritas fica como forma de conduzir o pensamento.

Não sei se vou escrever outro livro sobre o processos, não é uma fórmula ou uma obrigatoriedade. Acho legal livros sobre roteiros de filmes, mas esse filme não tinha roteiro, então o livro saiu assim. Tenho ideias para outras publicações, mas elas não vão por esse caminho de pegar uma anotação pessoal e transformar em livro.

Mesmo sem formação de escritor, a escrita me parece o melhor lugar pra gente se aprimorar hoje em dia. É um elemento de reconexão consigo mesmo. Então, sempre que consigo escrever mais ou melhor pra mim mesmo, fico feliz. Se um dia isso fizer sentido em conexão com as vizinhanças, talvez saia outros livros no meio das anotações. Mas acho que cada projeto pede uma coisa.

Agradeço as perguntas! Espero ter trazido algumas coisas legais. Obrigado.

Trechos

A ilha que mais conheço

(página 21)

i. Penso em uma ilha, lembro de Superagui, no Paraná, a ilha que eu mais conheço. Lembrando bem, a ilha que eu mais conheço é outra, solitária e individual, a tela do computador é seu centro, a luz baixa e o som ambiente estão ao seu redor. Essa é a minha ilha de montagem, meu estúdio, meu local de trabalho. Em janeiro de 2024, com o lançamento de Lista de desejos para Superagüi na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes e de sua premiação, tive que sair de minha ilha, depois de alguns anos desesperançosos, de espera e agonia, que atravessaram os anos anteriores a 2022 com um governo inimigo da cultura e uma pandemia. Após a sua estreia, o filme se tornou mais do que um assunto em meu dia a dia. Ele se tornou a própria ilha onde eu era um de seus moradores e nela acordaria e dormiria pensando, olhando, conversando com os outros a respeito. Aos poucos, tenho compreendido de que maneira posso extrair da minha experiência nesse filme, que tem a lista como uma forma de construção poética, uma das bases para minha escrita. Talvez o caminho esteja por aqui, na união entre as ilhas e as listas que me perseguem.

ii. Desafio contemporâneo. Sonhos coletivos, escritas coletivas, e o processo de montagem de um filme “sem roteiro”: lista de desejos.

iii. Escrever na montagem é criar a possibilidade de conexões pelo movimento, com sons e imagens. Fazer um filme cujo roteiro é uma lista, uma lista de ações intercambiantes e móveis.

iv. Encontro com uma ilha, nela também o encontro com a elegia, mas a elegia inversa, como diria Emmanuel Hocquard. Não se trata de um lamento romântico e triste, mas um espaço de conforto e muita criatividade, de reinvenção.

v. Água, elemento essencial, recorrência e motivo, atração constante. A vida me levou a fazer um filme perto das águas e das pessoas das águas. Saio do meu habitat natural. Na maior parte do tempo, vivo ilhado em meu estúdio, espaço concebido como extensão de minha cabeça. Quando é possível, essa ilha existe de forma física, com paredes e uma mesa com meus equipamentos, mas em sua impossibilidade, no improviso, ela também pode ser criada em espaços temporários. Sempre necessito da ilha para pensar. Um dia conseguirei fazer como Jean Cocteau, que, para evitar o apego à criação em espaços predefinidos, tinha a própria coxa como escrivaninha.

vi. No livro O mal-estar na civilização, de Freud, há um sentimento bonito, expresso nas correspondências entre Freud e Romain Rolland, em que este descreve “um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – ‘oceânico’, por assim dizer”.

vii. Os sussurros do mar, o farol para nos iluminar à noite, âncora presa na areia, a vida de dentro, o elemento estrangeiro, formigas, camarões, cachorros, matérias da ilha, cavar um mundo circular, todos têm algo a dizer, escrever também é montagem.

viii. Em uma mítica ilha no litoral sul do Brasil, um pescador de 72 anos que ainda não conseguiu se aposentar. Martelo é um homem farol, aponta sua luz para Superagui e ilumina os desejos terrenos de seus moradores que dizem muito sobre o momento atual: melhorar as condições de trabalho, conseguir se aposentar com dignidade, retornar à vida da ilha como era antigamente. Não sabemos o que está por trás da ordem que opera o movimento do mar, mas sabemos que ali vive uma alma que deve ser respeitada.


Lista de desejos

(página 77)

Lista de desejos

* sair da camada turística;
* evitar filmar paisagem pela paisagem;
* mulheres da ilha: galpão de camarão;
* rotina de casa;
* dores, afetos, sentimentos masculinos;
* etnografia sensorial;
* as verdades que saem nas conversas de fim de tarde;
* um diálogo sério;
* seu Carlinhos conta uma história;
* aniversário de criança com tacada de ovo na cabeça;
* livro de fotografias do seu Laurentino;
* Martelo comendo uma maçã;
* primeiro plano do filme, homenagem a Fellini, louco falando para a câmera;
* rádio AM, solitária.


Mais algumas listas

(página 114)

A lista de desejos que Fernandinho Vieira (também conhecido como Passarinho) nos apresenta é uma lista política — polida, é também um voto de esperança por maiores conquistas. Passarinho sabia escrever bem e tinha uma letra bonita. Pedi que ele escrevesse a sua lista de desejos para a ilha numa folha de papel branco. Pedido aceito, essa cena não poderia faltar no filme. Filmamos à luz de velas e consciente da câmera que o observava, Fernandinho Vieira escreveu de primeira:

Lista de desejos para Superagui:

primeiro pra Superagui, que tudo
voltasse como era antigamente;

segundo, como pescador que exerce
a profissão de pescador, queria que
os órgãos ambientais cuidassem
mais do meio ambiente;

terceiro, desejo pra ilha que
Deus abençoe todos nós. Amém.

Perfil

Pedro Giongo (Curitiba, 1986)

É diretor de cinema, artista visual e montador. Seu trabalho investiga formas de narrativa construídas a partir de coleções, listas, imagens e montagens, tendo o livro de artista como uma de suas principais referências. É fundador do Estudio Tijucas, produtora voltada à realização de projetos autorais. Lista de desejos para Superagüi, seu primeiro longa-metragem, foi eleito Melhor Filme da Mostra Aurora na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes. É mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

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Foto: Martinez-Flecha (@mmflecha)

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