Entre palavra, som e imagem, o poeta Marcelo Sandmann expande os limites de sua própria escrita ao gravar o clipoema Menos Claras, obra que tensiona percepção e linguagem em diferentes camadas sensoriais. Com produção audiovisual assinada por Francisco Sandmann, o trabalho propõe uma travessia estética em que o poema deixa a página para ocupar o espaço híbrido do audiovisual.
Professor de literatura no Curso de Letras da Universidade Federal do Paraná, Marcelo Sandmann construiu uma trajetória sólida na poesia contemporânea brasileira, com nove livros publicados. Entre os mais recentes estão Antologia Poética (Kotter/Ateliê, 2017) e Não Cicatriza (Kotter, 2021). Também organizou A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos Sobre a Obra de Paulo Leminski (2010), além de atuar como músico instrumentista e compositor nos grupos ZiriGdansk e Orquestra Sem Fim — experiências que atravessam e ampliam sua escrita.
No clipoema, Menos Claras ganha corpo e ressonância ao explorar aquilo que escapa ao evidente: o invisível, o intangível, o que desafia a lógica e a linguagem. Entre imagens de abalos e matéria em combustão, o poema convida o espectador a um mergulho em zonas de incerteza, onde sentir precede compreender, e onde a palavra se torna mais densa e pulsante.
Menos Claras
Marcelo Sandmann
Vamos falar de coisas menos claras.
Do que à primeira vista
não pode nem ser visto.
Do que em contato
escape a todo tato.
Vamos ouvir o som de um sismo percutindo
em fundo de cratera
de satélite em declínio
de planeta perdido em remoto
sistema solar.
Vamos sonhar com o que foge à matemática,
pois que é de outra matemática,
mais dura e rara.
Um cálculo que o cérebro processe
quando em coma.
Vamos amar a mulher em chamas,
vulcão em trabalho de parto.
Ela verte com fúria suas cinzas,
e lava em lavas
o que esteja no caminho.
Vamos rezar ao deus abatido,
que jaz no fundo do corpo.
(Que jaz no fundo do copo.)
Essa água mais seca que a sede,
mais turva que o vinho.
Francisco Sandmann
É artista plástico, produtor audiovisual e estudante de Filosofia. Seu trabalho se desenvolve a partir das relações entre forma, matéria e percepção. Transitando entre diferentes linguagens, sua prática busca explorar tensões entre imagem e materialidade, presença e construção, sensibilidade e pensamento.
No audiovisual acima, uma colaboração de pai e filho.
Foto: Arquivo pessoal