Por Adriana Sydor
O escritor Nilton Bobato reuniu, no dia 4 de outubro, leitores e amigos na Livraria Telaranha, em Curitiba, para o lançamento de É proibido falar mal de Deus: prosa quase distópica, publicado pela editora Artêra. A obra, que cruza política, religião e direitos humanos, propõe uma reflexão contundente sobre o Brasil contemporâneo e o papel da fé e da razão em tempos de intolerância.
Mais do que uma manhã de autógrafos, o encontro transformou-se em um espaço de diálogo e afeto — uma extensão natural do livro, que faz da literatura um instrumento de resistência e empatia. Entre cafés, taças de vinho e conversas animadas, o público discutiu as provocações que atravessam as páginas da obra, refletindo sobre o país e seus desafios éticos e sociais.
Lançamento
Sem formalidades, o evento manteve um tom de proximidade: leitores, colegas e agentes culturais circularam livremente, partilhando impressões e lembranças. A atmosfera intimista reforçou o sentido político e humano da literatura — um convite à escuta e à troca.
As fotos de Miguel Martinez-Flecha (@mmflecha) registram essa energia coletiva, marcada por risos, abraços e discussões apaixonadas, em que a palavra literária se confundiu com o gesto de esperança.
Perfil
Nilton Bobato
Nilton Bobato nasceu em 1967 e vive em Foz do Iguaçu desde o início da juventude. Professor de Língua Portuguesa e jornalista, construiu também uma trajetória política, tendo atuado como vereador, secretário municipal em diversas áreas e vice-prefeito da cidade. Essa vivência pública marca sua escrita, que alia engajamento social e rigor literário.
Na literatura, Bobato transita entre poesia, crônicas e narrativas ficcionais. Publicou títulos como Risos da Fronteira, Prato Feito e Palestina, um Olhar Além da Ocupação (com Paulo Porto), até chegar a É proibido falar mal de Deus. Desde 2018, convive com o diagnóstico de Parkinson, experiência que reforçou sua relação com a escrita como gesto de resistência e autocuidado. Hoje, é, também, mestrando em Literatura Comparada pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).
O perguntinha. Já tentei descobrir de onde vem a inspiração. Talvez seja da observação dessa realidade distópica, com o aumento do número de seres humanos estúpidos, a chegada dessa estupidez ao centro do poder de vários países e o uso absurdo da fé das pessoas para dominá-las. O 8 de janeiro de 2023. Richard Dawkins e Carlos Ruas. O conto da Aia também.
A mensagem central da obra são duas, a primeira é, acredite, eles podem derrotar nossa ainda jovem democracia, a segunda, liberte-se, não perca sua vida cercado de dogmas e dominado por aqueles que usam seu medo de ir para o inferno para doutriná-lo. Seja corajoso, ame, pois o amor exige coragem, seja feliz e alimente a empatia.
Gosto de tratar a realidade como ficção e a ficção quase real. Todas as minhas obras incluindo a poesia, em boa parte é isso. Resta ao leitor interpretar o que é real, até onde vai a ficção. Eu faço literatura e acho que tudo pode ser objeto de ficção, entendo que esses temas que só são complexos devido a existência de tantos imbecis que insistem no racismo, na xenofobia, na homofobia, na transfobia, na misoginia, no sionismo, na fé para justificar as maiores atrocidades. Com mais de 10 mil anos do ser humano como organização social que conhecemos hoje, já deveríamos ter nos libertado e deveríamos entender que não existe raça superior, que o planeta é de todos, que os diferentes são belos, que as diferenças entre os sexos são só no sexo e na identificação. Somos todos humanos e só precisamos respeitar. Mas enquanto eu puder e os temas se fizerem necessários, para mim serão sempre um instrumento para compor personagens e histórias.
Não é uma ideia nova. Saramago e Leminski, entre outros já usaram este gancho para estruturas suas literaturas.
Para mim, só tem um objetivo: ajudar a trazer o leitor para dentro do texto com a tarefa de identificar quem é o narrador e quem é o dono da fala. Sem clemência, com o menor auxílio possível.
Totalmente. Os paramilitares só existem por que aconteceu o 8 de janeiro. O nome da organização é Comando Revolucionário 8 de janeiro.
Não é ironia ou alerta, é uma história hoje distópica. Mas, pensando bem, toda distopia é um alerta. Quem assistiu os primeiros capítulos do conto da Aia e vê o que ocorre hoje nos EUA, pode dizer que o alerta da ficção não foi escutado
É minha vida, são minhas experiências e todas de alguma maneira influenciam o que escrevo.
O Miguel é um amigo que além de emprestar seu nome avalizando o trabalho, é o responsável pelo nome do livro. Foi sugestão dele substituir o Prosa quase distópica, título original, para é proibido falar mal de Deus, que até então era a identificação de um conto.
A Joane foi a única pessoa com quem debati o conteúdo do livro. Fundamental para cravar algumas ideias e fazer algo mais em outras.
O José Luís é um presente. Um escritor com a envergadura contemporânea dele, ler o livro e escrever sobre ele, é uma grande honra.
Mas quem procurar por mim no livro não vai me encontrar.
A literatura não tem limites, os personagens podem dizer tudo o que pensam, já o político tem que analisar a conjuntura e policiar sempre o que vai dizer.
A literatura, ou pelo menos vários autores e autoras da contemporaneidade tem colocado esses temas nos seus textos literários. Mas não vejo um movimento literário organizado com a tese do enfrentamento. Dependendo da abordagem, estilo, a literatura pode ser um instrumento importante para o enfrentamento político e assim como a arena política pode ser. Mas isso não é escolha do autor.
A criação é domínio exclusivo do ser humano, não pode ser invadida por artifícios. Reconheço que a IA pode ter utilidades em várias áreas, mas não concordo com o fascínio exagerado por ela. Então, meu livro é quase um manifesto, ele valoriza a escrita como algo que brota do sujeito, do indivíduo, de suas vivências.
O Brasil resiste. A eleição do Lula, em 2022, barrou esse processo, mesmo sendo um governo de redução de danos e o STF, somado a consciência avançada de setores das forças armadas, têm garantido a normalidade democrática. No entanto, eles não estão mortos. Esses personagens distópicos representam seguramente mais de 30% da população brasileira, que somados aos antipetistas, podem ganhar a próxima eleição e/ou concretizar o tão “sonhado” golpe militar ou não.
A literatura pode ser um importante instrumento de resiliência e resistência, quando, de maneira ficcional, traz para o cotidiano do leitor, possibilidades de realidades que não serão encontradas no noticiário. Ao mesmo tempo essa literatura pode ser elemento de conforto e saúde mental, quando possibilita ao leitor a criação de um outro universo, transportando-o para longe de uma dura realidade. Entretanto a literatura só poderá ser esses instrumentos mantendo sua essência como arte, como objeto de prazer para o leitor e o autor.
A mensagem é o essencial da vida: desvista-se de todo e qualquer preconceito, respeite, simplesmente respeite o outro como ele é ou escolheu ser, sem importar sua origem, credo, raça, cor, gênero ou cultura, permita-se falar e pensar sobre qualquer tema, incluindo os considerados intocáveis pela sociedade judaica cristã ocidental, mas sem perder a empatia, o amor e o respeito.
Resenha
É proibido falar mal de Deus
Por Cassiana Pizaia
É proibido falar mal de Deus é obra de um autor que não teme conciliar na própria vida a política, a arte, a experiência e a reflexão. Autor de 8 livros, que transitam entre romance, conto, poesia e não ficção, Nilton Bobato foi também professor, vereador, vice perfeito e várias vezes secretário municipal de Foz do Iguaçu.
A cidade onde Bobato vive há 45 anos é cenário da maioria dos contos reunidos no livro, com algumas incursões por Curitiba e nordeste. Mas em É proibido falar mal de Deus a geografia é ampla como a experiência humana, onde o desejo, o pensamento e o respeito convivem com a violência dos que tentam à força suprimir qualquer diferença.
O primeiro decreto editado por uma junta governista denominada, não por coincidência, Comando Revolucionário 8 de janeiro – CR-8, abre e costura o livro com o tom das distopias, nos lembrando dos monstros que volta e meia saem das sombras, prontos pra dar o bote.
Dividido em 9 trechos, o decreto realiza os sonhos da extrema-direita: abolir os partidos de esquerda, instaurar a pena de morte e a censura, proibir o casamento homoafetivo, os programas de cotas e qualquer respiro de justiça social.
Mas a política em que Bobato envolve o livro subverte a rigidez dos sectarismos. Após cada trecho do decreto, os contos mergulham o leitor sem transição na intimidade da realidade complexa em que vivemos todos a despeito das tentativas autoritárias da vez.
Das páginas de Bobato saltam assuntos surpreendentes divididos em três linhas gerais que, juntas, formam um conjunto fascinante. Da estrutura volátil dos relacionamentos modernos aos dilemas que escancaram nossas distopias do presente, as vozes das personagens nos envolvem e instigam.
Os contos intitulados “Sob paixões demasiadas”, não cedem às idealizações da paixão romântica ou ao sexo espalhafatoso. As histórias seguem o ritmo do inesperado, que aproxima e desampara, suportando com dignidade a busca por um amor que chega e escapa. Em apenas um
instante, um desejo pode se perder ou uma fantasia se desmanchar nas idiossincrasias cotidianas.
Se nas histórias de amor, a ética do respeito resiste mesmo no solidão, nos contos agrupados em “Prosas quase distópicas”, a violência física ou simbólica marca o corpo e a alma das vítimas sobreviventes do nosso tempo.
Racismo, violência sexual e discriminação surgem nos detalhes, em sequência, em um passo a passo aparentemente prosaico até o desfecho inesperado.
Na terceira linha temática, que dá nome ao livro, os contos acompanham um palestrante na reflexão sobre a existência de Deus e as contradições das grandes religiões monoteístas. Do lado de fora, uma turba agressiva reage com sangue e fúria ao questionamento de suas convicções. A violência muitas vezes silenciosa presente nos outros contos agora berra, invade, mata. Não seria a intolerância extrema, no fim das contas, o grande alimento das distopias?
Pode parecer complexo demais incluir tema tão densos em único livro de contos. Mas é na sutileza das histórias ao mesmo tempo delicadas e intensas que Bobato nos ajuda a respirar e refletir. Sobre como queremos nos relacionar, viver e morrer, pensar e sonhar o mundo.
Como percebe a personagem do conto Cristal Quebrado, “nossa liberdade desaparece quando menos esperamos, basta um deslize”.
Cassiana Pizaia é escritora e jornalista. Autora de livros para crianças e jovens, entre eles Layla, a menina síria e Terra apagada. Seu trabalho circula entre o papel e a tela, com temas conectados com os desafios atuais, com várias premiações nacionais.
Ficha bibliográfica
É proibido falar mal de de Deus – prosa quase distópica, de Nilton Bobato.
Capa de Juliana Turra, imagem da capa de André Crevilaro.
Prefácio de Miguel Sanches Neto, orelha de José Luís Peixoto e apresentação de Joane Vilela.
Primeira edição, 151 páginas. Curitiba: Atêra, 2025.
Trechos
Puta preta
Como você sabe do que estou falando? Olhe a cor da sua pele! Olhe sua roupa! Olhe seu cabelo, a pasta que o senhor está usando, o sapato que o senhor calça, seu paletó, sua gravata. Não, não mesmo, o senhor não sabe como é isso. O senhor nunca foi discriminado na rua, por um, por 10 desconhecidos, que simplesmente olham pra você e apontam o dedo, ô pretinha suja, ô preta fedorenta, ô macaca, ô puta preta… O senhor não sabe o que é isso. Se sentir suja por causa da sua cor, ver com nojo o seu cabelo por ser crespo, se sentir horrível ao ser comparada a uma macaca. Não, o senhor não tem ideia do que seja isso. A minha mãe, doutor, foi assassinada na minha frente, por um policial branco, que entrou na favela, numa operação e tentou estuprá-la. Ela reagiu pegando uma faca que estava na mesa, ele tomou a faca dela e deu um tiro, chamando-a de puta e ainda justificou que minha mãe reagiu à abordagem, por isso atirou. Era legítima defesa dele.
A moça começou a chorar. Eu não sabia o que fazer. Não sabia o que falar. Queria abraçá-la, pedir desculpas pela abordagem. Tenho mui- tos clientes, mas são todos ricos ou de classe média alta, nenhum negro. Nunca defendi uma pessoa preta. Quando fui convidado a pagar o meu pró bono do ano, defendendo uma jovem negra que não tinha advogado e a defensoria pública estava abarrotada de casos, topei. Afinal, não sou racista; tenho até alguns amigos: advogados, um arquiteto e um engenheiro negros. Pô, minha secretária é mulata. Em todo caso, será interessante, pensei, ver de perto o que tanto falam na TV.
Tentei ser solidário com ela, falei que sabia o que era isso. Quando moleque, era chamado de Pinóquio por causa do meu nariz grande ou de caveira, por causa da minha magreza e corcunda de Notre Dame, na faculdade, por andar curvado, com os cabelos jogados na cara. Superei tudo isso e hoje estou aqui.
SERVIÇO
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