Entre memórias e infinitos: Théo Moosburger lança novo romance em Curitiba

Por Adriana Sydor

Na sexta-feira, 12 de setembro, às 18h, aconteceu no Centro Cultural Ítalo-brasileiro Dante Alighieri, em Curitiba, o lançamento de A casa de todas as memórias – ou O tratado sobre o infinito, novo romance de Théo Moosburger. Tradutor experiente e autor da novela O Cemitério dos Amores Mortos (2024), Théo agora apresenta sua obra mais pessoal e ambiciosa, que mistura realismo fantástico, filosofia e memória.

Lançamento

No enredo de Theo, acompanhamos Francisco, um homem que decide registrar em diário experiências misteriosas e visões perturbadoras. À medida que a escrita avança, ele revisita memórias familiares, confronta-se com suas raízes no Sul do Brasil e reflete sobre a própria natureza da criação literária. Leitores próximos destacaram durante o lançamento que se trata de um romance profundamente pessoal, no qual a defesa da subjetividade artística e da expressão individual aparece em equilíbrio com uma prosa clara, capaz de manter um mistério constante. A obra, segundo os comentários, surpreende pela maneira como parte de memórias em primeira pessoa, acessíveis e diretas, mas gradualmente se adensa, conduzindo a temas eruditos tratados de forma compreensível, sem deixar de provocar emoção e envolvimento.

O evento reuniu amigos, leitores e familiares, entre eles, Lígia Borba, escultora e professora emérita da Escola de Música e Belas Artes do Paraná,  Ingo Harald Moosburger, pintor e professor aposentado da Belas Artes. Também esteve presente o escritor e diagramador Rodrigo Kmiecik, responsável pelo projeto gráfico da edição. A recepção teve a presença da presidente do Dante Alighieri, Deivis Calamucci, e do organizador da programação cultural, Hilber Barros, o que sublinha o vínculo de Moosburger com a instituição, onde estudou e mais tarde lecionou. As fotos são de Miguel Martinez-Flecha (@mmflecha).

Fotos de Miguel Martinez-Flecha| @mmflecha

Perfil

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Foto de Miguel Martinez-Flecha| @mmflecha

Théo Moosburger (Curitiba, 1981)

É um experiente e multilíngue tradutor literário. Dentre suas traduções publicadas, destacam-se: Papadiamántis, A Nostálgica e Outros Contos (Hedra); Aristóteles, Da Alma (Vozes); Luciano, Histórias Verdadeiras (Kotter); Tarchetti, Contos Fantásticos (Clepsidra/Ex Machina); Saga de Njáll (Dialética, Clube de Literatura Clássica); Saga de Gunnlaugr Língua-de-Serpente (Fino Traço, Clube de Literatura Clássica); Três Sagas Islandesas (UFPR); Sagas lendárias islandesas (Ex Machina); Andri Snær Magnason, A História do Planeta Azul (Hedra). Na revista de tradução Nota do Tradutor, publicou contos e poemas gregos modernos (Seféris, Karyotákis, Elýtis, Karkavitsas, entre outros). É autor da novela fantástica O Cemitério dos Amores Mortos (Kotter, 2024).

TM: Sempre gostei de línguas estrangeiras. Desde pequeno fui muito incentivado. Meu pai me incentivava muito a ler em inglês e, assim, descobri que dava para ler em outras línguas. Aos 16 anos, comecei a estudar grego moderno por conta própria, viajei para a Grécia, depois fiz Letras, estudei grego antigo e passei a aprender várias línguas.
O islandês, por exemplo, aprendi ainda na graduação, porque tinha um interesse grande na Literatura Medieval, e acabei me destacando na área de estudos nórdicos. Também passei a trabalhar com o italiano e até cheguei a dar aulas. Minha primeira publicação como tradutor foi em 2007, em livros. Antes disso, já havia publicado traduções em periódicos.

TM: É preciso ter um pouco de escritor, sim. Sobretudo, é preciso ter domínio das duas línguas em questão e também domínio literário. Eu não posso traduzir com o mesmo português uma saga e um conto fantástico do século XIX — são estilos diferentes. O tradutor tem que ser camaleão, saber se moldar. Ele não pode impor seu próprio estilo na obra de outra pessoa, mas isso acaba sendo inevitável em certa medida. A tradução, por outro lado, pode atrapalhar a própria escrita, porque você fica tão imerso em outros textos que pode perder, ou não encontrar, o seu próprio estilo.

TM: Com 16 anos eu já escrevia. Gostava de escrever poesias, poesias metrificadas, com rimas, e também contos. Sempre escrevi coisas muito pessoais, por isso acho que demorei tanto para publicar, eram textos muito meus. Na adolescência também tive uma fase de fascínio pela ficção científica, tipo H.G. Wells, e escrevia inspirado nessas leituras, mas ainda de forma imatura.

TM: Eu não escrevo com regularidade, porque não tenho muito tempo, e quando começo uma coisa, tenho que ir até o fim. Acho que cheguei a um ponto, no ano passado, em que não foi nem que eu quis escrever este livro, o livro quis ser escrito. Ele precisou ser escrito. Escrevi em seis meses, mas ele sintetiza muitas coisas que eu vinha pensando e anotando há muito tempo. Daí o título A casa de todas as memórias: ele reúne reflexões, esboços e trechos que eu já tinha, mas desconectados. Precisei dar forma, ordem, sequência, costurar. Foi o trabalho mais importante que já fiz na minha vida.

TM: Depende muito de como se lê. Algumas pessoas acham um pouco pesado, porque trato de temas sensíveis: vida e morte, família desfeita, traumas de infância. Mas não há nada de “mundo cão”. Tudo é descrito de maneira filosófica, reflexiva, lírica, até poética em alguns momentos. Quem leu até agora disse que se emocionou em várias passagens. Acho que é um livro que pode tocar pelo lado emocional, mas ele é, sobretudo, reflexivo e filosófico.

TM: É o diário de um homem que sempre quis escrever, mas nunca escreveu nada. Ele se vê numa situação em que é forçado a escrever e, através do diário, se encontra com a própria vida. É um romance de realismo fantástico: há cenas de pura realidade, um tanto asfixiantes, e outras que se passam como em outra dimensão. O personagem enfrenta questões existenciais ligadas à escrita, à linguagem, ao tempo, ao sentido da vida, à espiritualidade. Também aborda a incomunicabilidade entre gerações: os conflitos com os pais, com os filhos, e a tentativa de criar uma integridade de vida por meio da narração, que pode sublimar os problemas e dar unidade à experiência.

TM: Tem elementos meus, mas o personagem não sou eu. Os fatos da vida dele não são os fatos da minha vida. Algumas coisas vieram de histórias que ouvi de outras pessoas ou presenciei. Um aspecto que tem a ver comigo é a memória dos avós paternos, que vieram da Alemanha. Isso está no personagem, mas recriado de forma livre. São memórias da minha infância que adaptei, não é um retrato fiel dos meus avós. Aproveitei a vivência para dar forma a sentimentos. O livro também reflete uma busca por recompor uma memória rompida, uma memória comum a muitas famílias do Sul, descendentes de imigrantes do fim do século XIX e início do XX. Muitas dessas histórias foram rejeitadas pelas gerações seguintes, e o livro recupera essas lembranças, verdades e experiências de outros tempos.

Mas quem procurar por mim no livro não vai me encontrar.

TM: No momento em que escrevo, eu sou o personagem, sou aquela história. Fico completamente submerso, olho para o mundo com os olhos dele. Se estou caminhando pela rua e algo me chama a atenção, transporto para o livro. O personagem está em Curitiba, andando pelas ruas, e eu penso como ele pensa. Não dou endereços precisos, mas descrevo lugares reais. Por exemplo, ele fala de uma praça que existe perto da minha casa. Quem conhece a cidade vai saber qual é; quem não conhece pode imaginar outra, e isso não importa. O que importa é que, na escrita, o personagem passeia comigo.

TM: O que me motivou foi chamar a atenção para o fato humano da escrita e da criação, especialmente neste momento em que há tanto deslumbramento com a inteligência artificial. É quase um livro contra a inteligência artificial na esfera criativa.
A criação é domínio exclusivo do ser humano, não pode ser invadida por artifícios. Reconheço que a IA pode ter utilidades em várias áreas, mas não concordo com o fascínio exagerado por ela. Então, meu livro é quase um manifesto, ele valoriza a escrita como algo que brota do sujeito, do indivíduo, de suas vivências.

TM: Não sei com que regularidade vou escrever ficção, mas certamente vou publicar outras coisas. Tenho algumas ideias, mas nada muito estruturado ainda, porque me dediquei intensamente a este livro.

Ficha bibliográfica

A casa de todas as memórias – ou O tratado sobre o infinito, de Théo Moosburger. Projeto gráfico de Rodrigo Kmiecik, imagem de capa Boy with a cat, de Deborah Brown. Primeira edição, 284 páginas. São Paulo: BEC Editora, 2025.

Trechos

A casa de todas as memórias

Segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

 Nunca fui afeito a escrever diários, mas coisas insólitas estão acontecendo e sinto-me compelido a registrá-las. Não escrevo para a posteridade, porque estas páginas provavelmente jamais serão lidas por outra pessoa além de mim mesmo. Escrevo somente para dar sentido ao emaranhado de eventos, para olhá-los de fora e poder, talvez, compreendê-los em sua articulação, enxergando em sua sequência um todo maior que tenha começo, meio e fim. Sinto que minha memória não tem sido minha grande aliada, e prefiro não ter de confiar unicamente nela. Na verdade, não pretendo usar estas páginas para registrar todos os fatos da minha vida, que não tem sido para mim causa de grandes alegrias. Este é o diário de um enigma, e as anotações me ajudarão a decifrá-lo.

Durante uma de minhas caminhadas habituais pelo bairro, observei numa rua menos frequentada, e pela qual raramente passo, a existência de uma casa cuja presença nunca antes eu havia notado. Existem inúmeras casas nas ruas, e normalmente eu as observo, de passagem, analisando sua arquitetura, mas até hoje nenhuma me chamou tanto a atenção quanto esta. Para dizer a verdade, ela não tem nada de excepcionalmente particular no que diz respeito à forma exterior: é uma dessas casas mais tradicionais que ainda sobrevivem nos bairros residenciais, em ruas arborizadas. Muitas como ela já foram demolidas e em seus terrenos foram construídos edifícios de apartamentos, todos modernos e sem personalidade. A casa que me chamou a atenção eu já vi antes, mas em outra rua. Como isso é possível? A única hipótese é existirem duas casas gêmeas, mas não somente idênticas em sua forma e nas cores da fachada: idênticas em todos os detalhes mais ínfimos, mesmo aqueles que não fazem parte do projeto arquitetônico. Tenho certeza de que vi cortinas da mesma cor por trás das vidraças, o mesmo jardim entre a varanda e o muro que dá para a calçada, os mesmos arbustos no jardim, o mesmo limoeiro e a mesma roseira. Essa visão se apossou da minha mente, e escrevo aqui para mim mesmo com o intuito de me certificar de uma coisa: eu não estou enlouquecendo.

É natural, quando passeamos pelas ruas, observarmos pequenas alterações na paisagem, se ficamos muito tempo sem passar pelo mesmo local. Podemos encontrar uma árvore podada, um muro reformado, uma casa demolida, um novo canteiro de obras, algum estabelecimento comercial recém-aberto, ou um fechado. Mas todas as construções são imóveis, é o que as diferencia, na essência, dos veículos e dos seres vivos. Não existem casas que mudam de lugar. Mas esta que eu observei, se de fato é a mesma do outro dia, mudou de lugar. Na semana passada eu a vi pela primeira vez, não me lembro exatamente onde, mas sei que foi numa caminhada que fiz na direção oposta. Amanhã tentarei encontrar a casa que vi na semana passada, para me certificar de sua existência e averiguar seu aspecto. Confesso que ela me pareceu de algum modo familiar (e pode até ser que eu a tenha visto outras vezes, embora não me recorde), e é por isso que tenho sua imagem tão nítida na memória. Quando eu passar por ela novamente, prestarei atenção ao número e à rua.

 

 

Terça-feira, 7 de janeiro

 A cidade parece ter-se tornado um labirinto. Não consigo mais encontrar a casa, nem a da semana passada, nem a de ontem! Passei calmamente por todas as ruas que me lembro de ter percorrido nas últimas caminhadas, olhando atentamente para todos os lados, e não a localizei. Não é possível, eu não tive uma alucinação. Todo o resto da paisagem permanece integralmente reconhecível. Eu não me perdi, conheço os arredores.

Não gosto de carregar o celular comigo quando saio para caminhar, mas hoje decidi que o levarei sempre aonde quer que eu for. Quando surgir algo excepcional, tirarei uma foto, para poder analisá-la futuramente, se for necessário revisitar a memória e averiguar se estranhas impressões são fundadas ou infundadas.

 

 

Sábado, 11 de janeiro

 Não consegui mais achar aquelas casas (ou aquela, se era uma só). Já andei por todas as ruas possíveis, de um lado e outro da calçada. Eu devo estar confundindo a memória dos fatos com reminiscências de sonhos. Isso já me aconteceu antes. Acho que é um fenômeno explicável dentro da psicologia, especialmente quando vivemos períodos de grande estresse emocional. Essas caminhadas deveriam servir para eu exercitar as pernas e descansar a mente, mas têm sido ocasião de melancolia. Eu não pretendia transformar este diário em um espaço de desabafo e autocomiseração. Não era o seu propósito, e jamais em minha vida achei que pudesse ser relevante, para mim ou os demais, que minhas tristezas fossem descritas com palavras. Além disso, não penso que eu tenha algo de extraordinário a registrar acerca dos pormenores de minha vida íntima. Mas hoje, enquanto caminhava, pus-me a refletir sobre algumas coisas, e pretendo aqui anotar minhas impressões. O que eu pensava enquanto caminhava era mais ou menos o seguinte:

Quando carregamos por muito tempo no peito uma tristeza indefinida, que parece não ter alívio, tornamo-nos dependentes dela. É um processo similar ao de alguém que desenvolve, com o uso prolongado de uma substância qualquer, como o álcool, uma tolerância e um vício. A tristeza passa a preencher o coração e o espírito, e todo o nosso metabolismo começa a depender dela para funcionar devidamente. Se a tristeza for subitamente removida, o organismo sofre com sua falta e pode entrar em colapso. Um alcoólatra pode ter problemas graves se a bebida lhe for tirada sem que passe por um processo assistido de desintoxicação, durante o qual seu sistema é reeducado a viver sem a presença do álcool. Tenho assim permanecido nesse estado melancólico há tanto tempo que, mesmo se todos os meus problemas fossem solucionados num passe de mágica, minha vida não recobraria a homeostasia natural ­— poderia mesmo piorar, devido à falta dos problemas e de causa para a dor emocional. E do mesmo modo como se dá com a dependência de substâncias, também a dependência da tristeza provoca um senso de realização, proporcionando um estado quase eufórico durante alguns picos. Eu enxergo, sobretudo, a suma beleza na dor e na tristeza. Parece que quem não experimenta a melancolia é infeliz e néscio, pois vive com os sentidos satisfeitos, mas a plena compreensão da dimensão trágica da existência lhe escapa. Assim, em minha caminhada, eu buscava locais que me trouxessem lembranças dolorosas, como quem cutuca uma ferida para vê-la sangrar mais uma vez.

No fundo, todas as lembranças são dolorosas de alguma forma. Tudo que é passado é algo perdido, é algo que morreu e não retorna mais. E insistir em recordações incessantes, sejam elas de fatos belos e felizes de nossa vida ou de eventos tristes e sofridos, causa igualmente a sensação de perda.

Pensando nesses termos, eu começo a acreditar que meus sentidos me ludibriaram, provavelmente por estarem sob efeito da intoxicação da tristeza, e aquela casa com que me deparei em dois lugares distintos não deve ter passado de uma miragem. Mas, se foi uma miragem, o que ela estaria tentando revelar? Se meu inconsciente a fabricou, algo pretende comunicar-me. Continuarei atento e darei sequência às anotações.

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