Reinoldo da Silva Atem nasceu no Piauí, mas foi em Curitiba, onde viveu desde a infância, que consolidou sua identidade pessoal e política. Atuou na militância socialista nos anos 1960 e 70, passando por prisões e perseguições durante o regime militar, período em que também se engajou com movimentos operários no ABC Paulista. Nunca fez da militância um gesto de autopromoção, sua dedicação estava voltada à linguagem, ao texto como forma de reflexão crítica e intervenção simbólica.
Em Dia de Trabalho, publicado em 1974, Atem articula, não só, mas predominantemente, denúncia social, memória e algum desencanto. A resenha percorre os três núcleos do livro (Dia de Trabalho, Depoimento e Poemas de amigo) e destaca o modo como o autor transforma a trajetória militante e a condição humana em matéria poética e é ali, no texto, que ele deposita seu valor de permanência.
(AS)
Ficha bibliográfica
Dia de Trabalho, de Reinoldo Atem, com 84 páginas. Curitiba: Edição do autor, 1974.
Dividido em três partes: a primeira (Dia de Trabalho) com 21 poemas; a segunda, Depoimento, reúne 13 poemas; e a terceira, Poemas de amigo, com 5 poemas.
O livro não traz ficha catalográfica, folha de rosto ou informações editoriais — possivelmente devido ao contexto do regime militar. É uma raridade extrema, fora de circulação e ausente até mesmo do acervo da família do autor.
Resenha
A poesia do excesso e do desamparo
Adriana Sydor
Pouco se sabe sobre os bastidores de Dia de Trabalho, de Reinoldo Atem. A ausência de informações editoriais, a falta de paratextos, o silêncio que cerca sua publicação em plena década de 1970 parecem ecoar o ambiente opressivo da ditadura militar e a condição marginal do sujeito que escreve. Não há, nesta obra, a moldura convencional de um livro de poemas. Há, antes, uma matéria bruta e insistente, uma poesia feita de estilhaços, ruído e resistência, sem que isso se converta em expediente de militante para promover a poesia; ao contrário, o valor está no próprio texto, Atem faz a palavra ser mais importante do que o autor.
Dividido em três partes, Dia de Trabalho, Depoimento e Poemas de amigo, o livro propõe um percurso que parte da denúncia social, atravessa a experiência individual do trauma político e chega a uma zona de afeto e introspecção. Atem escreve a partir da borda, social, urbana e política, e o que resulta disso é uma lírica de confronto, esvaziada de artifícios e carregada de urgência.
Logo nos primeiros poemas, impõe-se a imagem do trabalhador como figura central. Não se trata, porém, de um personagem idealizado, mas de um corpo marcado, exausto, arrastado por uma rotina mecânica que se repete sem alívio. A vida operária se desenha entre ônibus, marmitas, sirenes e becos, elementos que formam um léxico do esgotamento e da exclusão. Como nos versos de Os rios, a cidade é lida geograficamente por suas margens, onde tudo que não serve é descartado: lixo, coisas quebradas, corpos sujos. Esse movimento de afastamento é também um gesto político, é no que escapa ao centro que Atem fixa seu olhar.
Sua linguagem é seca, direta, por vezes documental. Mas não há descuido ou aleatoriedade nisso. Atem constrói imagens de forte impacto sensorial (“mãos de pregos e alicates”, “caminhar de pedras e de calos”) que condensam sofrimento, repetição e matéria. Como um fotógrafo, captura cenas cotidianas e as transforma na poesia da experiência concreta, da vida como ela se impõe. O grandioso não é o do feito extraordinário, mas o da sobrevivência ordinária. E seu leitor imaginado não é o especialista em metáforas, mas o próprio operário.
A obra, no entanto, não se esgota na denúncia ou na representação da classe trabalhadora. Há na segunda parte do livro um mergulho subjetivo que modifica o tom. Se antes Atem falava pelos outros, passa a falar de si, e reflete sobre a perda da militância, o peso insuportável da memória. Os poemas se tornam mais íntimos, hesitantes, fragmentários. A linguagem, embora permaneça econômica, adquire um outro timbre: um lirismo existencial, pontuado por silêncio, vazio e desalento. A utopia, que antes organizava o mundo, aparece aqui como ruína, há a lembrança do que foi feito, mas também a consciência de que tudo aquilo falhou.
Na parte final do livro, reunida sob o título Poemas de amigo, o foco é deslocado para o campo das relações pessoais: amizade, perda, ausência. Ainda que o mundo permaneça hostil, existe uma tentativa de reencontro com o outro, mesmo que esse outro seja já uma ausência. O livro encerra com Esfinge, poema simbolista e hermético, em que Atem se divide em dois: João Sozinho e João Perdido. São figuras do desajuste, buscadores de coisa impossível, como se houvesse uma errância poética que se descola do tempo e da lógica, o verso como lugar do que não se resolve.
Em Dia de Trabalho a experiência com os enfrentamentos políticos se transformou em matéria para um percurso que é também existencial, feito de linguagem e memória. Mas não há, nesse percurso, qualquer traço de vitimização ou heroísmo — tampouco um falso heroísmo. O poeta não se apresenta como aquele cuja militância define o que ele tem de melhor; ao contrário, ela está no passado, já escrita, e o que ele busca agora são os versos e o reconhecimento por eles. É na poesia, e não na biografia militante, que ele deposita seu valor e sua permanência.
Biografia
Adriana Sydor é jornalista, cientista cultural e escritora, publicou seis livros entre poesia e crônica. Doutoranda em Ciências da Cultura, atua também como editora, curadora de projetos artísticos e professora de escrita.
Trechos
os rios
(pág. 10 | Capítulo Dia de Trabalho)
Os rios
Quando os rios se afastam das cidades
mas ainda cruzam o asfalto e as últimas casas,
recebem em suas margens os restos e os bagaços
do lixo que não cabe em outra parte.
É aí que se abandonam os imprestáveis,
em lugar que mais ninguém disputa,
já que não serve senão como morada
de coisas ralas, usadas e gente suja.
Por toda a extensão das margens e barracos
vêem-se sombras pálidas e assombradas
que não têm pressa, trabalho ou serventia,
pois nada fazem e vivem ali jogadas.
Ninguém os conhece e por todos são evitados
já que não valem senão como bagaços:
como estes, podres, murchos e rasgados,
e não há mais ninguém que os reconstrua.
Deixados fora, depois de mastigados,
quando não há mais nada que aproveite,
eis o que sobra dos que não recebem cuidados,
dos que só servem pra se jogar na rua.
Ali vivem e formam comunidades próprias
inteiramente diversas das comuns.
Elas de formam da lama e dessas latas
que os rios carregam das cidades para os campos.
Ninguém revela o que fazem ou o que querem da vida.
Sabe-se apenas que gostam de um pouco de alimento
pois vivem pedindo isso a todos os passantes,
não se negando a xingar a quem recusa.
aos enterrados vivos da América
(pág. 45 | Capítulo Depoimento)
Existem pelas terras da América
milhares de corpos enterrados e apodrecidos.
São os corpos dos que tombaram lutando pela liberdade.
E não é difícil adivinhar
naqueles corpos anônimos e putrefatos
um outrora guardado coração tão puro
e uns olhos brilhantes de ansiedade.
Eles estão perdidos pelos matos e cimentos
onde também foi violado o seu cadáver insepulto
onde hoje se passeia sem preocupações.
Foram eles que lançaram a semente da justiça
e se juntaram à revolta dos trabalhadores humilhados.
Foram eles os que não pediram conforto
e deram suas vidas pela transformação do homem
num mundo sem choro e sem desespero
para os milhões de povos de toda a América.
Eis ali os enterrados em nosso peito
– os nunca jamais esquecidos –
de onde brotam as raízes de sua angústia.
Eis os enterrados vivos em nossa carne,
os que nunca pensaram em si
os que tiveram sede de justiça
os que não mediram sacrifícios
os que fugiram ao seio da amada
os que tropeçaram e foram feridos
os homens que, um dia, serão chorados por todo o povo
quando, enfim, pudermos gritar seus nomes
pelas ruas.
à minha mãe II
(pág. 78 | Capítulo Poemas de Amigo)
Tu me queres de volta
como se eu fosse
teu último fio de vida.
Mas onde estão teus amigos,
teus irmãos, meu pai,
que te abandonaram um dia
sozinha no mundo
que dizem de Deus?
Te abandonaram na vida
sem sequer saber
como te ias arranjar.
E tu precisando tanto de um
abraço amigo e um sorriso
(e logo sorris de volta),
de uma pessoa junto que te afague sempre
os cabelos já quase brancos
(tu desejas tanto isso,
é só o que tu queres
e o bem dos teus,
como tu mesma dizes).
Como te vais arranjar desse jeito?
Tu és uma criança ainda
que percebeu tarde a maldade da vida,
uma criança ainda
que saiu pelo mundo
a procura de um dia ensolarado
que nunca jamais encontrou,
embora esperasse tanto.
Um dia saíste da casa de teus pais
sem que ninguém te impedisse
e foste para bem longe dali
de braço com teu marido.
Mas isso bastou?
Quem te acode nas noites de insônia
em que te levantas de madrugada
e vais ao banheiro de camisolão?
(já quantas vezes te vi assim).
Quem já te deu amparo nos dias de tédio imenso?
Sozinha na casa esperando, costurando o tempo,
assistindo televisão (mas que programas ruins!)
e pensando na vida, nos teus,
no mundo de Deus
em quem te resguardas
nas horas mais amargas e impotentes.
Está na hora de fazer o almoço
para os filhos que chegam
para logo ir embora novamente,
sem deixar um agrado ou
um agradecimento de amor.
E esperas findar o dia
– talvez, quem sabe, eles venham
para o jantar,
mas eles estão muito ocupados,
com a vida que descobrem –
enquanto a noite não chega
quando ficas contando aranhas no teto
como quem conta carneiros
em meio à vigília.
Alguém acaso pode prometer-te um passeio
no fim de semana?
Quando será novamente o dia
de não sentir um peso, um medo, no coração
e poder dar um sorriso de alívio
e alegria inocente?
Tu és ainda uma criança desconsolada
que espera todos os dias o teu menino
como se ele fosse
teu último fio de vida.
O homem anunciado e o homem esquecido
A imagem que estampa a capa de Dia de Trabalho não é apenas ilustração: é manifesto silencioso. Nela, um homem — negro, pobre, operário — senta-se, exausto, num canto improvisado, carregando no corpo os sinais de uma jornada imposta, mas não escolhida. A expressão em seu rosto é de cansaço, mas também de algo mais profundo: uma espécie de desalento que ultrapassa o físico e alcança o existencial. Ele ainda veste o capacete de operário, mesmo no que parece ser um momento de descanso. Como se o descanso fosse também vigilância. Como se a sua identidade estivesse, para sempre, moldada pela função que o sistema lhe atribuiu.
Na parede, um cartaz de cinema anuncia o filme italiano Um homem a respeitar — ironia cortante. A propaganda da indústria cultural contrasta violentamente com a presença concreta do trabalhador real. Ali, o título do filme não serve como homenagem, mas como contraponto: aquele homem, ali sentado, é um homem que o sistema não aprendeu a respeitar. A promessa de dignidade esbarrou na vida crua dos invisíveis.
O título do livro, Dia de Trabalho, aparece não como simples marcador de tempo, mas como denúncia: todo dia é dia de trabalho para quem nunca teve escolha. Cada jornada é uma repetição da lógica que exaure corpos e suprime sonhos. A poesia contida no livro, ao contrário do cartaz, não embeleza o mundo: ela o fere, o expõe, o interroga. É uma poesia engajada, de denúncia e solidariedade, que encontra sua verdade na imagem desse operário, cujo corpo é, por si só, uma página de luta.