O tempo e a voz de Oscar Nakasato

Foto: Divulgação
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Oscar Nakasato

Oscar Nakasato nasceu em Maringá, no Paraná, em 1963. Seu nome passou a figurar com destaque no cenário literário nacional com a publicação de Nihonjin, romance de estreia que conquistou prêmios nacionais. Também colaborou com o caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, escrevendo sobre literatura japonesa — campo com que dialoga em sua própria obra.

O escritor Caibar Magalhães examina o romance Ojiichan, em que Nakasato retoma temas que marcam sua escrita: o tempo, a memória, o pertencimento e as heranças silenciosas do cotidiano. A leitura do resenhista destaca os caminhos narrativos e simbólicos que revelam, de forma contida e precisa, a condição humana diante do envelhecimento e das perdas.

Ficha bibliográfica

Ojiichan, de Oscar Nakasato, com 168 páginas. Capa: Denise Yui. Orelha: Cora Rónai. São Paulo: Fósforo, 2024.

Resenha

Ojiichan: uma jabuticabeira e a condição humana

Caibar Magalhães

(…) o tempo trapaceia, encolhendo-se ou se dilatando sem a permissão do homem.
(Oscar Nakasato)

“Eu sempre digo que escrevemos sobre quem somos”. Foi o que o escritor Oscar Nakasato, nascido em Maringá, no Paraná, e neto de imigrantes japoneses, declarou à revista Arruaça, da Casper Líbero, edição 7 (13 mar. 2018). É como se dissesse que, por mais policrômicos que sejam os personagens que um autor crie, as marcas de sua presença estarão sempre lá, como rastros da escrita ou personalidade, numa assinatura indelével que a literatura apenas disfarça.

É de se pensar. Dalton Trevisan, por exemplo, já afirmava: “Os outros sou eu”.

Os livros Nihonjin (Prêmio Jabuti 2012) e Ojiichan (2024), de Nakasato, certamente são dois bons possíveis testemunhos de que essa teoria pode fazer bastante sentido. Nihonjin (“pessoa japonesa” ou “povo japonês”) é hoje praticamente um clássico sobre a imigração japonesa em solo brasileiro e merece por si só uma outra resenha.

Ojiichan (“vovô”, em japonês), por sua vez, é o título do romance a respeito do qual falaremos e que tem como protagonista um personagem nipo-brasileiro cujo impacto sobre o leitor denuncia muito de um de seus temas logo na primeira frase do livro: “Um homem está velho quando não consideram mais a sua opinião”.

Na história, Satoshi, o protagonista, professor de biologia de uma escola pública, faria 70 anos naquele ano. Ele toma consciência de que realmente envelhecera porque, ao voltar de uma visita familiar a São Paulo, descobre que sua filha Cecília (ecos da obra-prima de Alencar, O Guarani) havia cortado a jabuticabeira que ele havia plantado e de que cuidava com tanto zelo. O simbolismo é evidente e essa relação com a natureza é reiterada ao longo do livro.

Em sua constante luta por não se deixar ceifar pelo tempo, ele não quer abandonar seu cargo de professor de biologia numa escola pública e tenta protelar essa exigência legal, mas aos 70 anos é aposentado compulsoriamente. Depois de um acontecimento traumático, deixa para trás suas plantas, seus apetrechos e tudo o que compunha seu universo particular e passa a habitar um pequeno apartamento que dividirá com sua mulher, Kimiko, que sofre de Alzheimer (o pai de Nakasato também sofria dessa doença), um contraponto importante a outro tema sensível neste livro, a memória.

Se alguém me perguntasse sobre o processo narrativo desse autor, eu arriscaria dizer que ele se utiliza de pelo menos três recursos muito poderosos para denunciar o estranhamento vivido por Satoshi e que tentará despertar no leitor.

O primeiro é o olhar fotográfico. Por exemplo, quando Satoshi se muda para um apartamento apertado de um condomínio, tem acesso, pela janela, à vida diária de vários personagens também solitários. Assim, o narrador flagra momentos simbólicos na vida dessas pessoas, criando no leitor justamente um olhar exotópico e “estrangeiro” em relação àquela vida de confinamento.

O segundo elemento é a técnica da contraposição. Constantemente Nakasato cria situações em que os mais jovens tomam atitudes pragmáticas e apressadas que desrespeitam ou ignoram a existência e o ritmo do protagonista, como é o caso do corte da jabuticabeira ou da venda por parte de seu neto da casa onde os avós moravam, deixando-os sem ter para onde ir.

Ao ler Ojiichan, difícil não lembrar de filmes como Dias perfeitos, do Wim Wenders, em que este diretor também retrata o quanto os gestos simples do personagem Hirayama (assim como Satoshi) podem ganhar uma dimensão grandiosa, principalmente quando contrapostos a tudo o que o cerca. Seu gosto pelo analógico (como ouvir fitas-cassete), por exemplo, se coloca em confronto direto com o mundo digital dos mais jovens, tema presente também em Ojiichan. A mesma técnica é utilizada por um outro diretor japonês, Akira Kurosawa, em Dersu Uzala, em que as culturas e os costumes diferentes de ambos os personagens centrais ficarão claramente em oposição. Hirayama, Dersu e Satoshi também têm em comum uma ligação muito forte com a natureza.

O terceiro elemento empregado pelo escritor de Maringá para denunciar esse estranhamento é a maneira como mostra a passagem do tempo e suas marcas. Por exemplo, a antiga mesa que ele mesmo havia lixado e passado óleo agora era um tampo de vidro transparente. Ou “Satoshi acompanhou com atenção a passagem do tempo, que pintou sem pressa os seus cabelos de branco, cavoucou fissuras na sua pele”.

Nakasato não tem pressa em sua narrativa e com muita delicadeza vai revelando as contradições e a forma como o mundo vai escanteando os mais velhos, como que normalizando esse exílio em nome da modernidade ou mesmo do egoísmo dos mais jovens. É uma espécie de exclusão social que ele vai recortar ao longo do livro apresentando-nos fortes elementos simbólicos para traduzir esse isolamento.

Mas o tema central mesmo é a forma perseverante e otimista como Satoshi lida com isso, adaptando-se ao criar um universo harmônico em torno dos que o cercam. Apesar da avalanche de reveses sofridas pelo protagonista ao longo da história, suas respostas sempre buscam a beleza e uma maneira de superar resilientemente as situações propostas.

Há muito o que aprender com Satoshi e talvez não fosse errado dizer, parafraseando Nasataki, que, se escrevemos sobre quem somos, às vezes também “lemos e descobrimos sobre quem somos ou seremos”.

Auto-portrait C. Magalhães
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Caibar Magalhães

Caibar Pereira Magalhães Júnior, curitibano (23.12.1960), é autor dos livros de contos Piracema (2025), Tiba e Suposta montagem aleatória de palavras; e dos livros de poesia Quando o povo canta, Janela do avesso e Dizem que sou palavroso. Fez mestrado em Estudos literários na Federal com dissertação sobre a obra de Cristóvão Tezza.

Trecho

“Satoshi acompanhou com atenção a passagem do tempo, que pintou sem pressa os seus cabelos de branco, caboucou fissuras na sua pele – principalmente na testa e nos cantos dos olhos – e mandou o médico lhe dizer que não poderia mais comer paçoca. O senhor não tem coração, dr. Felipe, queixou-se, esse doce é metade da minha felicidade.”
(p. 21)

“A derrota da seleção brasileira e a aposentadoria compulsória marcaram o dia dos setenta anos de Satoshi. O país inteiro estava triste no dia do seu aniversário. A aposentadoria chegara sem pedir licença e se instalou como uma visita que se sente em casa. Mesmo sabendo que ela chegaria, Satoshi não havia se preparado.”
(p. 26)

“Não foram também as duas árvores da felicidade, o macho e a fêmea. […] Um amigo as presenteou há muitos anos. Ao entregar as pequenas mudas, ele orientou Satoshi a plantá-las em par no mesmo vaso, instruindo-o a respeito das regas e desejou muitas felicidades ao amigo e à família. Tōchan acredita nisso?, perguntou Cecília quando o homem foi embora, debochando de suas palavras. Ele respondeu que não, que a felicidade não pode depender de dois arbustos emparelhados, mas acreditava na sinceridade da pessoa que o presenteara com as duas mudas. Por isso as plantaria conforme ele instruíra, porque plantar árvores e se lembrar de que foram dadas por um amigo também correspondiam a uma espécie de felicidade.”
(p. 64)

Serviço

Ojiichan | Oscar Nakasato

R$ 74,90, no site da editora Fósforo.

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