A Covid-19 bateu forte na matéria-prima do cronista, o dia-a-dia. Leia a resenha de Caibar Magalhães sobre as notas de LH Pellanda na cidade sitiada pelo vírus.
Era de se prever e está acontecendo. Aos poucos, toda uma literatura surge em torno de como levar a vida nas condições de isolamento, condições impostas pela melhor medicina e que prevaleceram durante os dois anos da pandemia de Covid-19, sólidos e cruéis, de fevereiro ou março de 2020 até inícios de 2022.
A alteração das percepções do tempo e do espaço (da cidade, do campo e da casa), a tragédia rondando e a perda de próximos e distantes, o trabalho trazido para a sala de estar, a reinvenção da logística até a loja e o armazém, a redescoberta e as redefinições das relações afetivas trazidas por novos ou renovados acordos de convivência, tudo isso entra na pauta da escrita da pandemia.
Entre nós, que sobrevivemos, os/as poetas e escritores/as remexem as anotações e dão forma ao que pensaram e sentiram na experiência incrível (no sentido de quase inacreditável) da época. E surgem os livros desta seara pandêmica.
Luís Henrique Pellanda, nascido em Curitiba em 1973, cronista perfeitamente reconhecido entre os nomes consolidados do gênero, participa da colheita com A crônica não mata: notas do isolamento, que reúne os seus escritos desse tempo pra lá de esquisito. A resenha traz a assinatura de Caibar Magalhães, poeta e contista, autor entre outras obras de Piracema (contos) e Dizem que sou palavroso (poesia).
L.H. Pellanda vem se mantendo fiel à crônica, formato assinalado por exigências especiais e específicas, por toda uma sequência de títulos que incluem O macaco ornamental, seguido de Nós passaremos em branco; Asa de sereia; Detetive à deriva; A fada sem cabeça; Calma, estamos perdidos; Na barriga do lobo e O caçador chegou tarde, todos indicados a premiações. É dele a organização da antologia de crônicas inéditas de Carlos Drummond de Andrade, A intensa palavra. (J. Lm.)
Ficha bibliográfica
A crônica não mata: notas do isolamento, de Luís Henrique Pellanda, com 144 páginas. Capa: Grazi Fonseca. Orelha: Schneider Carpeggiani. Porto Alegre: Arquipélago, 2025.
Resenha
Pellanda e a moça do bairro: notas de um isolamento
Caibar Magalhães
“não há platitude maior que esta: dizer que o tempo passa. Não o dizer, porém, não faz o tempo parar” (Luís Henrique Pellanda)
No final do século XVIII, Xavier de Maistre, autor de Viagem ao redor do meu quarto, ficou confinado em sua casa durante 42 dias por ter participado de um duelo. É quando então decide fazer uma espécie de viagem sem sair do lugar e passa a descrever objetos triviais que o rodeavam, como sua mesa, sua cadeira, sua cama, tudo isso traduzido numa linguagem em que humor, reflexões pessoais e observações gerais sobre a existência compõem o caldo.
Guardadas muitas proporções, Luís Henrique Pellanda de certa forma faz algo parecido em A crônica não mata – notas do isolamento (2025, publicada pela Arquipélago), mas com algumas diferenças importantes, a começar pelo tempo de confinamento (muito mais que as seis semanas de Maistre) e pelos motivos que o levaram a isso e a todos os que tinham algum juízo e evitaram as aglomerações e o convívio mais direto em tempos de pandemia de Covid-19. Seu olhar é para fora e para dentro.
Foi nesse período que passou a escrever uma série de fragmentos e crônicas sobre esses tempos bicudos. Algumas delas foram publicadas durante o ano de 2021 no jornal Plural, mas o autor agora reorganizou o que produziu, acrescentando uma série de anotações dispersas, criando esse conjunto que ele chama de “retalhos recosturados” e que redundaram neste livro de 2025.
Apesar de dizer que se inspira em Rubem Braga, cujo ideal seria “escrever uma crônica tão divertida que fizesse sorrir certa moça doente que vivia em seu bairro”, logo no quinto texto, Pellanda amplia essa influência ao citar Georges Perec, especificamente o livro Tentativa de esgotamento de um local parisiense, de 1975, em que esse autor francês fez um levantamento de tudo quanto considerava trivial, efêmero e aparentemente insignificante para, assim como Pellanda, criar uma espécie de desautomatização do olhar em relação ao pequeno inventário de tudo o que poderia a princípio soar banal, ressignificando-o.
É da sua janela, na Aminthas de Barros, que, marcado pelo isolamento necessário em tempos de pandemia, este ex-vocalista do famoso grupo de rock Woyzeck e do grupo de samba Gente Boa da Melhor Qualidade tenta descrever, às vezes minimalisticamente, o que vê (como já o fez nos muitos livros de crônicas que já publicou), como se fosse possível flanar sob os auspícios da objetividade: “Placas, carros, motos, prédios, árvores, ruas, estacionamentos […], táxis, ônibus, pedestres mascarados e desmascarados, pombos, carcarás”.
Seu projeto, porém, logo se mostra impraticável e, sempre movido pelo seu olhar misto de perspectiva e microscopia, redimensiona a paisagem selecionando o que lhe interessa (“Quando se conta uma história, é preciso escolher”, diz ele no livro): imagens cotidianas, singulares em sua aparente ausência de extraordinário, mas, sobretudo, significativas.
Sua observação dessa época revela a humanidade que não desapareceu e irrompe entre as máscaras e os olhares que a recobrem. Em meio a tantos que se foram e a uma radical mudança da paisagem, então repleta de vazios (comércios que fecharam, lojas que faliram, um mundo em dispersão), as páginas de Pellanda surpreendem por representarem e resgatarem a vida, a sobrevivência, o renascimento, porque ele se compromete a ir além de Rubem Braga e não só fazer rir a moça do seu bairro, mas também curá-la e, coisas que só a pandemia poderia nos ensinar, curar-se.
Dono de uma erudição seletiva, os autores citados e reaproveitados de forma criativa recobrem um leque que vai de Oscar Wilde, Sérgio Buarque de Hollanda, Nélson Rodrigues, Cormac McCarthy, Agamben, Shakespeare, Bocaccio, Barnes, Petrarca, até a Bíblia e tantos outros.
As crônicas deste livro são sempre curtas, empolgantes e intensas (8 linhas, 12 linhas, 16 linhas, uma página). Notícias de almanaque, pequenas narrativas, reflexões sobre a existência aparentemente banais extraem a beleza do minúsculo, em seus detalhes imperceptíveis, o que pode ser tanto o azul e o verde presentes numa mosca varejeira quanto o momento de pura epifania vivida por um entregador de gás ao entrar no mar pela primeira vez.
Nem só de olhar sobrevive esse cronista. Pellanda descobre, por exemplo, que antes do isolamento não tinha ouvidos para quase nada, tudo era normal, era trivial. Agora, se seus olhos tentam penetrar a aspereza do cotidiano em busca do lampejo que nutre sua escrita, também os ouvidos estão atentos e o mundo se reconfigura, descritos de uma forma leve, porém reflexiva.
Se a crônica não mata mesmo, a valer pelo que muitos escritores viveram e provavelmente escreveram durante este período, este livro não deixa de ser a ponta de um iceberg alvissareiro do muito que ainda pode vir por aí registrando (quem sabe de forma otimista e bem-humorada, como o fez Pellanda) esse momento tão trágico vivido por todos.
A moça do bairro vai agradecer.
Caibar Pereira Magalhães Júnior, curitibano (23.12.1960), é autor dos livros de contos Piracema (2025), Tiba e Suposta montagem aleatória de palavras; e dos livros de poesia Quando o povo canta, Janela do avesso e Dizem que sou palavroso. Fez mestrado em Estudos literários na Federal com dissertação sobre a obra de Cristóvão Tezza.
Trecho
5
Falei de Paris, falarei de Georges Perec. Preso em meu apartamento desde março de 2020, lembrei dele e de seu livro Tentativa de esgotamento de um local parisiense. Fui até meu quarto e olhei para a cidade lá fora, preparado para inventariar por escrito, como fez Perec, tudo o que eu avistasse da minha janela na Amintas de Barros. Placas, carros, motos, prédios, árvores, ruas, estacionamentos, o Hospital de Clínicas, pichos, ambulâncias, bandeiras verde-amarelas, o Passeio Público, restaurantes, bicicletas, táxis, ônibus, pedestres mascarados e desmascarados, pombos, carcarás. Logo se tornou evidente que tal exercício aleatório me esgotaria antes que se esgotasse a banalidade daquela Curitiba pandêmica. Diante de mim, nada havia que fosse especialmente notável. Ou melhor, apenas uma cena me pareceu, ao longe, extraordinária, quase uma miragem: no Círculo Militar, sob o sol quente de abril, um funcionário molhava o saibro das quadras de tênis com uma mangueira. A seu lado, velhos senhores se alongavam, risonhos, rodopiando suas raquetes, animados para mais uma partida amistosa.
6
Sábado à tarde. Lá embaixo, um homem e uma mulher caminham pela Amintas. Ela sobe a rua, ele desce. Ambos usam máscaras e carregam sacolas de supermercado. Quando se cruzam, é como se entre eles se estabelecesse algum tipo de comunicação silenciosa. O homem ança cinco passos e olha para trás. Diminui a velocidade da marcha. A mulher se sente observada e, ao parar na esquina da Faivre, devolve o olhar. Os dois, agora, estão imóveis, a uma distância de poucos metros, e se encaram. De repente, meio hesitantes, voltam a caminhar, cada um para o seu lado. Levarão para casa, além das compras, a violenta impressão que lhes causou não um rosto humano ou a sua identidade, mas tão somente o par de olhos de um desconhecido. É um indício de que, entre nós, a vontade de amar ainda existe.
Serviço
Exemplar a R$ 59,90 mais despesas de envio. Peça no site da editora Arquipélago.